Chuck Russell morreu inesperadamente a 22 de julho, em casa, na zona de San Diego. Tinha 74 anos e a causa da morte ainda não foi divulgada. Só agora, com esse atraso vagamente indecente que o noticiário reserva a quem fez cinema popular borrifando-se para a crítica, damos pela sua ausência. Russell fazia filmes claramente para o grande público. Pior ainda: gostava disso.
Era um cineasta de género num tempo em que a expressão ainda não servia apenas para desculpar sequelas e reeboots. Estreou-se na realização com Pesadelo em Elm Street III, talvez o capítulo em que Freddy Krueger percebeu definitivamente que um sonho podia ser parque de diversões, matadouro e piada de mau gosto ao mesmo tempo. Em vez de tratar o terror como missa negra, Russell tratava-o como espetáculo: tendões transformados em fios de marioneta, seringas no lugar das lâminas e uma imaginação visual que sabia que o medo também precisa de ritmo, cor e uma saudável falta de vergonha.
Logo depois veio A Bolha Assassina, remake pegajoso, cruel e bastante mais inteligente do que a sua reputação de série B. Russell filmava aquela criatura gelatinosa como um estômago sem consciência, devorando corpos, adolescentes e respeitabilidade suburbana. Era terror físico, viscoso, quase tátil, mas nunca solene. O seu cinema tinha monstros, mas não tinha pose.
A consagração chegou com A Máscara, em 1994. O projeto circulava por Hollywood como filme de terror e Russell teve a ousadia — hoje chamar-se-ia irresponsabilidade criativa — de o transformar num desenho animado de carne e osso. Juntou a elasticidade facial de Jim Carrey à física delirante de Tex Avery, lançou Cameron Diaz e percebeu que o verdadeiro efeito especial não era o CGI: era a química entre duas estrelas antes de toda a gente saber que eram estrelas. O filme arrecadou mais de 350 milhões de dólares e continua mais vivo do que metade dos blockbusters fabricados este mês.
Depois houve Eraser, com Arnold Schwarzenegger, e O Rei Escorpião, que deu a Dwayne Johnson o seu primeiro papel principal no cinema. Russell tinha olho para atores no instante anterior à explosão. Não os inventava: acendia o fósforo. E fazia-o sem a vaidade de quem julga estar a salvar a Sétima Arte; queria apenas impedir que ela aborrecesse o espectador. Uma ambição modesta que muitos realizadores considerados mais importantes nunca conseguiram cumprir.
A carreira perdeu velocidade, regressou com Hora de Vingança e fechou-se, simbolicamente, com Witchboard, novamente no território do terror. Chuck Russell nunca se tornou marca de prestígio, fetiche de cinemateca ou presença constante dos festivais de cinema. Foi outra coisa, talvez mais rara: um realizador popular com personalidade, um técnico com imaginação, capaz de fazer do grotesco uma festa e do medo uma gargalhada nervosa.
Agora desaparece um desses cineastas que Hollywood utilizou, celebrou enquanto dava dinheiro e esquece quando deixam de dar. Mas os filmes ficaram. Freddy ainda puxa os fios, a bolha continua a engolir gente, Jim Carrey continua de cara verde e Dwayne Johnson deve parte do seu músculo cinematográfico àquele homem atrás da câmara. Chuck Russell saiu de cena. Felizmente, deixou o espetáculo ligado.