Há uma frase que Wagner Moura trouxe — e que faz parte da peça — para a conferência de imprensa, na tarde de 1 de julho, no CCB, como quem traz um alarme de incêndio debaixo do braço: “A verdade acabou.” Não a disse com pose de ator a aquecer a voz para a tragédia, nem com aquele dramatismo de quem sabe que a frase vai ficar bem num bom título dos media. Disse-a como quem está genuinamente assustado. E talvez seja por isso que Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo, de Christiane Jatahy, Lucas Paraizo e Wagner Moura, chega esta sexta-feira, 3 de julho, ao Grande Auditório do Centro Cultural de Belém com a estranha força das coisas que parecem teatro, mas soam demasiado a telejornal, demasiado a feed de redes sociais, demasiado a jantar de família estragado por divergências ideológicas extremas antes da sobremesa.
A peça está em cena de 3 a 5 de julho — sexta às 20h, sábado às 19h e domingo às 17h —, mas escusam de procurar bilhetes com a fé de quem ainda acredita na bondade das plataformas online. Estão completamente esgotados. Pode ser que haja as habituais desistências. Mas duvido. A presença de Wagner Moura ajuda, evidentemente, e de que maneira. Um ator que vem de Narcos, que regressa ao teatro depois de Hamlet, em 2009, e que entretanto passou pelo Festival de Cannes 2025 e ganhou um prémio, um Globo de Ouro e uma nomeação aos Oscars com O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, não entra numa sala de espetáculos — ou na sala Lopes-Graça do CCB, onde se realizou a conferência de imprensa — sem provocar ajuntamento e muitos de jornalistas e gente da casa, prontos a fotografá-lo e a ouvir o que tem para dizer.
Mas há também uma razão cénica para este sucesso de bilheteira nestas apenas três representações: a plateia foi reduzida porque esta peça precisa de espaço para existir. Não é teatro de moldura dourada, atores lá longe e público quietinho a tossir com discrição. Aqui há um tribunal, há circulação, há espectadores chamados à ação dramática, há um dispositivo que obriga a sala a funcionar de outra maneira. O CCB não vendeu menos lugares por capricho: vendeu menos porque o espetáculo não cabe na geometria habitual da passividade. Isso está, à partida, garantido.
Ibsen depois do incêndio
Christiane Jatahy fez questão de esclarecer logo o essencial: isto “não é uma adaptação” de Um Inimigo do Povo, do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), nem é preciso conhecer a peça original para assistir a este novo espetáculo. É, nas suas palavras, “um novo texto, uma possibilidade sobre o depois”. Ou seja, não estamos perante o velho exercício de pegar num drama clássico, sacudir-lhe o pó, pôr-lhe uns telemóveis em cima, uma linguagem atual, uns figurinos arrojados e fingir modernidade. Jatahy e Moura perguntaram antes: o que acontece depois? Depois de Thomas Stockmann denunciar que as águas das termas da cidade estão contaminadas. Depois de perceber que a verdade, sendo verdade, pode arruinar uma economia local. Depois de a comunidade preferir o conforto da mentira à violência dos factos. Depois de o homem que julgava estar a defender o bem comum ser declarado inimigo do povo.
Wagner Moura, que interpreta Thomas Stockmann, contou que sempre foi “muito louco” por esta peça de Ibsen e que, com o passar do tempo, essa obsessão só cresceu. Christiane Jatahy tinha outra inquietação: queria trabalhar sobre irmãos, família, sobre a forma como a polarização política pode entrar pela casa dentro, sentar-se à mesa e partir laços que pareciam sólidos. Foi nesse cruzamento que nasceu Um Julgamento. Ela disse-o de forma muito simples: durante dois anos, ela e Moura leram, conversaram, viram filmes, aproximaram-se sem pressa, tentando perceber “o que do mundo nos atravessava”. É uma bela frase, e é também um bom programa artístico. Porque esta peça parece nascer menos da vontade de atualizar Ibsen do que da impossibilidade de o deixar quieto.
O público no banco dos jurados
A estrutura é tão simples quanto arrojada. O palco transforma-se num tribunal. À entrada, 50 espectadores recebem uma pulseira. Dentro da sala, 11 são sorteados para integrar o júri. Sobem ao palco, mas, garantiu Jatahy, “não são expostos”. Estão presentes, participam, escrevem perguntas, votam. No fim, decidem anonimamente se Thomas Stockmann é ou não é inimigo do povo. A peça tem, por isso, dois finais possíveis. E isso muda tudo. Não se trata de interatividade de feira, daquelas graças modernas em que o público carrega num botão e sente que participou na democracia. Aqui a pergunta é outra: quando se sabe o que se sabe, quando se ouve o que se ouve, quando se é obrigado a decidir, de que lado ficamos?
Wagner Moura disse que achou “bonito” quando Christiane Jatahy trouxe a ideia do julgamento, precisamente por “chamar as pessoas a decidir”. E a palavra importante é essa: decidir. Não comentar. Não escrever um post nas redes sociais ou mandar uma boca no intervalo, até porque não há intervalo e a peça tem uma duração aproximada de 70 minutos. Não escrever uma frase indignada numa mensagem de telemóvel, para um amigo, a caminho do parque de estacionamento. Decidir. A favor ou contra. Culpado ou inocente. Inimigo do povo ou homem que apenas disse o que ninguém queria ouvir. Em tempos de pós-verdade, a coisa tem uma certa ironia, mas daquela ironia amarga que fica presa na garganta.
Christiane Jatahy explicou também que as votações variam muito de cidade para cidade. Em Salvador, contou, houve uma tendência; no Rio de Janeiro, outra; em Amesterdão, a condenação ganhou mais peso. Moura acrescentou que raramente existe consenso. O consenso parece muitas vezes uma paz podre, uma fotografia retocada, um almoço de família onde ninguém fala do assunto principal para não estragar o momento. Aqui, pelo contrário, a divergência é o motor. A peça quer saber como cada cidade escuta, reage, hesita, se defende. Lisboa entra agora nesse laboratório. E não é difícil imaginar que este júri português traga consigo o nosso talento nacional para a indignação prudente: muito inflamados na teoria, muito cautelosos quando nos pedem assinatura.
A presença de Cléo Diára em Lisboa é também importante. Em cada cidade, há um ator ou atriz local que coordena o júri, e aqui a escolhida foi ela. Não é um detalhe decorativo ou exótico. Num espetáculo que se adapta à cidade onde acontece, essa figura local ajuda a fazer a ponte entre a máquina internacional da criação e o corpo concreto daquela sala, daquele público, daquele país. Ao lado de Wagner Moura estão ainda Julia Bernat e Danilo Grangheia, em palco; em filme, surgem Marjorie Estiano, Jonas Bloch e Salvador Moura.
Christiane Jatahy, que há muito trabalha essa contaminação entre teatro e cinema, volta a colocar as linguagens a roçar uma na outra, sem que uma engula a outra. Moura disse numa entrevista à revista francesa Télérama — o espetáculo segue daqui para o Festival de Avignon — que gosta quando “o teatro não tenta imitar a televisão ou o cinema”. Aqui talvez aconteça o contrário mais interessante: o teatro usa o cinema sem deixar de ser teatro, e o cinema parece entrar em cena com naturalidade.
Jornalismo, ecologia e responsabilidade
Mas o centro da conferência de imprensa foi mesmo essa pergunta sobre a verdade. Wagner Moura falou da pós-verdade como quem fala de uma doença que já não está à porta, porque entretanto entrou, sentou-se no sofá e ligou a televisão: “os factos não importam mais”. E ligou essa inquietação ao jornalismo, profissão que estudou e chegou a praticar. Para ele, esta é também uma peça sobre a necessidade de defender o jornalismo num tempo em que a verificação dos factos, a escuta das partes, a procura de objetividade e o trabalho paciente de separar notícia de boato parecem atividades quase arqueológicas. O jornalismo, hoje, está cercado por gente que confunde liberdade de expressão com liberdade de aldrabar em grande escala e com boa iluminação. Moura foi direto: o jornalismo é essencial para a democracia e para a vida em sociedade. E, vendo o estado geral da conversa pública, convém dizer isto muitas vezes antes que alguém decida que também é uma opinião radical.
A ecologia, lembrou o ator, “já estava lá” em Ibsen. A água contaminada das termas, no século XIX, encontra hoje as alterações climáticas, o negacionismo científico, os interesses económicos, os discursos que descobrem sempre uma desculpa nova para adiar o óbvio. Moura disse que a questão ambiental não está no centro dos fundamentos do mundo como devia estar. E tem razão. Continuamos a falar do planeta como se fosse uma casa arrendada por temporada: estraga-se um pouco, deixa-se a chave debaixo do tapete e logo se vê quem paga a caução.
A política apareceu, inevitavelmente, mas Jatahy recusou a ideia de peça panfletária. “Não acho que esta seja uma peça panfletária”, disse. “Acho, sim, que é uma peça para nos pôr em diálogo.” O objetivo não é pôr a plateia a confirmar a sua própria superioridade moral, esse desporto de salão tão praticado pela cultura contemporânea dos cancelamentos. É criar uma situação em que o público tenha de escutar o outro, mesmo quando as diferenças são enormes. “O diálogo é fundamental”, disse Jatahy. E acrescentou que a quarta parede “caiu há muito tempo”. Pois caiu. O problema é que, quando ela caiu, descobrimos que do outro lado não havia apenas liberdade. Havia responsabilidade.
Wagner Moura também falou do regresso ao teatro como quem fala de uma necessidade física. “Considero-me um ator de teatro”, afirmou. Recordou os anos 90 em Salvador da Bahia, uma geração forte, ao lado dos seus amigos Lázaro Ramos e Vladimir Brichta — estes dois completam, com ele, uma espécie de trio maior dos atores brasileiros da atualidade —, e disse que o teatro é “um compromisso muito importante, muito sagrado”. A palavra “sagrado”, num meio que adora profanar tudo menos a vaidade, podia soar excessiva. Mas nele pareceu apenas exata. “Os atores eventualmente precisam de voltar ao teatro. Eu preciso”, disse. Talvez porque no teatro não há corte, não há segunda tomada, não há prémio de montagem a salvar hesitações. Há corpo, presença, respiração, erro possível. E nesta peça há ainda mais: há a possibilidade de uma pergunta inesperada de um espectador-jurado obrigar Thomas Stockmann — e Wagner Moura — a responder no momento.
Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo estreia, portanto, em Lisboa como peça, como acontecimento e como teste. Não é ainda matéria de crítica, porque a crítica virá depois de ver o espetáculo, com o réu, os jurados, a sala e os seus humores em pleno funcionamento. Para já, a conferência de imprensa deixou claro que Christiane Jatahy e Wagner Moura não trouxeram Ibsen para o CCB para lhe prestar homenagem. Trouxeram-no para o interrogar outra vez. Trouxeram-no porque o velho norueguês continua perigosamente atualizado. Trouxeram-no porque a verdade, coitada, anda mal frequentada.
No fim, cada sessão decidirá o destino de Thomas Stockmann. Lisboa absolve? Condena? Divide-se? Lava as mãos? Ninguém sabe, para já. Mas talvez a pergunta mais embaraçosa não seja se ele é inimigo do povo. Talvez seja antes: quando os factos deixam de importar, quando a verdade passa a ser uma questão de gosto, quando a mentira ganha bilhete de primeira fila, quem é afinal o inimigo? O homem que denuncia a água contaminada ou a cidade inteira que prefere continuar a bebê-la?