Portugal eliminou ontem a Croácia, nesse género de jogo que deixa metade do País rouco, a outra metade medicada e os croatas convencidos de que a tecnologia foi inventada num laboratório secreto da FIFA. Foi uma vitória portuguesa, mas daquelas que vêm com reclamação aberta e talvez direito a livro de reclamações. Ganhámos 2-1, seguimos em frente, e daqui a uns anos só ficará a fotografia oficial: Portugal nos oitavos, Croácia em casa, Luka Modrić a sair lentamente da História e Cristiano Ronaldo a continuar a discutir com o calendário.
Mas o jogo teve uma verdade demasiado luminosa para ser escondida no rodapé: Gonçalo Ramos saltou do banco e resolveu. Não resolveu com uma carambola, um ressalto piedoso ou uma daquelas bolas que entram porque Deus foi ao frigorífico e se distraiu. Resolveu com uma cabeçada limpa, autoritária, magnífica, metida entre defesas croatas como quem abre uma janela numa casa cheia de fumo. E agora vem a pergunta, incómoda, desagradável, quase proibida em horário nobre de comentários sobre o Mundial: qual vai ser a próxima justificação para o deixar sentado enquanto se transforma o onze nacional numa espécie de museu vivo da eternidade de Cristiano Ronaldo?
Atenção, insisto: ninguém está a apagar Ronaldo da História. Ontem, quando o mundo parecia outra vez organizado em torno do ritual do costume — penálti, bola parada, câmara em Cristiano, silêncio, respiração, destino, golo — apareceu Gonçalo Ramos a recordar uma coisa simples: no futebol, o futuro também marca golos. E, às vezes, fá-lo de cabeça, com um magnífico cruzamento de Rafael Leão, que também tem de estar mais tempo em campo.
O homem que ensinou futebol a Portugal
E é daqui que chegamos a Carlos Queiroz. Porque esta madrugada, às 02h30 de sábado em Lisboa, no Arrowhead Stadium, em Kansas City, o selecionador do Gana enfrenta a Colômbia, seleção que também já treinou, como quem reencontra uma ex-mulher talentosa, perigosa e capaz de lhe estragar a noite com um contra-ataque. Queiroz, com 73 anos, estará ali: com o seu olhar de professor que apanhou a turma a copiar no teste, caderno invisível cheio de setas, coberturas, diagonais e pequenos venenos táticos. Desejo-lhe a maior das sortes. Não por patriotismo de ocasião, nem por ternura de almanaque, mas por uma razão muito mais séria: Carlos Queiroz merece que Portugal se lembre dele sempre, sem franzir o sobrolho.
Porque Portugal tem esta mania: adora o bolo, despreza o pasteleiro. Gosta da festa, esquece quem montou as mesas. Bate palmas aos jogadores quando levantam taças, mas torce o nariz ao homem que ajudou a convencer um país inteiro de que também podíamos ganhar aos grandes do futebol. Antes de Queiroz, Portugal era muitas vezes aquela equipa simpática e talentosa que ia aos torneios internacionais com a mala cheia de camisolas bonitas e a cabeça cheia de complexos. Jogávamos bem, fazíamos umas fintas, encantávamos uns estrangeiros, perdíamos com dignidade e voltávamos para casa a dizer que “ao menos mostrámos bom futebol”. Era a nossa grande especialidade nacional: sermos eliminados com literatura.
Queiroz não gostava dessa poesia da derrota. Chegou à Federação com métodos, relatórios, treino pensado, observação, ciência, exigência, organização. Palavras que no futebol português da altura deviam soar a coisas perigosas, quase estrangeiras, talvez até quase subversivas. Meteu a universidade no relvado, vídeo no balneário, planeamento na formação e ambição na cabeça de miúdos que até aí eram ensinados a respeitar demasiado o adversário. Com ele, respeitar não era ajoelhar. Era estudar. Era perceber. Era preparar. Era ganhar.
Riade, Lisboa e a invenção da auto-estima
Riade, 1989. Portugal campeão do mundo de sub-20. Dito hoje parece quase normal, porque entretanto habituámo-nos a ter jogadores portugueses no Manchester United, no Barcelona, no Real Madrid, no Milan, no Bayern, no Paris Saint-Germain e em todos os lugares onde há relva tratada por jardineiros quase com currículo de treinador. Mas em 1989 aquilo foi uma pequena revolução. Portugal campeão do mundo em futebol. Não em fado, não em saudade, não em desenrascanço, não em “quase”. Campeão do mundo. E com Carlos Queiroz no banco.
Dois anos depois, em Lisboa, o feito repetiu-se. A Luz cheia, o País a descobrir que aqueles miúdos não eram apenas promessas de capa de jornal: eram uma geração. Luís Figo, Rui Costa, João Vieira Pinto, Paulo Sousa, Fernando Couto, Vítor Baía, Jorge Costa, Abel Xavier, Emílio Peixe. A tal Geração de Ouro, expressão que depois foi usada até à exaustão, como se bastasse pôr o rótulo para explicar o milagre. Mas o ouro não apareceu por combustão espontânea. Foi minerado, limado, treinado, educado. Queiroz não inventou o talento deles. Fez, talvez, o mais difícil: organizou-o.
O futebol português deve-lhe isso. E deve-lhe muito. Deve-lhe a coragem de ter olhado para a formação como território estratégico, não como infantário com chuteiras. Deve-lhe estruturas federativas, seleções jovens com lógica, continuidade entre escalões, métodos de treino mais modernos, acompanhamento, análise, uma cultura de exigência. Muito do que hoje parece natural — Portugal competir em todos os escalões, produzir jogadores em série, ter miúdos que chegam às grandes ligas sem se sentirem a mais, nem assustados — vem desse abalo inicial. Queiroz foi, para o futebol português, uma espécie de técnico que entrou numa casa antiga, olhou para as paredes húmidas e disse: isto não precisa de uma demão de tinta, precisa de obras a sério. E fez obras. Naturalmente, como acontece neste país, depois houve quem se mudasse para a casa renovada e esquecesse o nome do empreiteiro.
Do professor ao proscrito, passando por Ferguson
Depois vieram os caminhos menos lineares. A seleção principal nos anos 90, onde o talento ainda não chegava para derrubar velhas fatalidades. O Sporting, com uma Taça de Portugal ganha, mas condenado na memória popular a viver à sombra de um 6-3 com o Benfica, porque a memória dos adeptos é cruel: esquece taças, lembra goleadas, guarda humilhações em formol. Depois os Estados Unidos, o Japão, os Emirados, a África do Sul. Sempre com a mesma mala: método, exigência, obsessão pelo detalhe e uma relação complicada com a paz social, porque Queiroz nunca foi propriamente um animador de colónia de férias.
E depois Manchester. Sir Alex Ferguson, que de ingénuo tinha pouco e de sentimental tinha apenas o suficiente para ganhar títulos, percebeu nele aquilo que Portugal tantas vezes fingiu não ver: inteligência tática, capacidade de treino, leitura moderna do jogo. Queiroz foi braço direito, laboratório, tradutor de ideias, sombra influente num Manchester United que se modernizou sem deixar de ser Manchester United. E foi também figura decisiva na chegada e no crescimento de Cristiano Ronaldo em Old Trafford. Antes do império, antes dos recordes, antes dos abdominais transformados em património mundial e marca registada, houve ali um jovem madeirense, veloz, vaidoso, genial e irregular, a precisar de orientação. Ferguson foi pai futebolístico. Queiroz foi professor, intérprete, ponte, às vezes amortecedor diplomático.
A vida, claro, gosta de ironia. Anos depois, em 2010, como selecionador na África do Sul, a relação entre Queiroz e Ronaldo haveria de rachar diante de toda a gente, depois da eliminação com Espanha e daquele famoso “falem com o Carlos Queiroz”. Foi uma frase curta, mas com a pontaria de uma faca. Injusta? Sim. Cruel? Também. Reveladora? Bastante. Porque naquele momento Portugal não discutiu apenas uma derrota. Discutiu poder, estrelas, hierarquias, egos e a velha tentação nacional de escolher rapidamente um culpado para não pensar demasiado no problema.
A saída de Queiroz da seleção foi feia, amarga, cheia de ruído federativo, processos, suspensões, tribunais e ressentimentos. Portugal tratou-o como muitas vezes trata quem lhe mexe nas estruturas: usa enquanto dá jeito, descarta quando incomoda, e só mais tarde, muito mais tarde, talvez admita em voz baixa que afinal havia ali obra.
O seleccionador das fronteiras improváveis
Mas Queiroz continuou. E talvez seja essa a parte mais extraordinária do professor. Outros teriam ficado a comentar jogos em estúdio, a distribuir sentenças confortáveis entre dois anúncios a casas de apostas. Ele foi para o mundo. Irão. Colômbia. Egipto. Qatar. Omã. Agora Gana. Um treinador português transformado em cidadão tático do planeta, levando consigo uma ideia quase quixotesca: as equipas podem ser melhores do que parecem se alguém as organizar, acreditar nelas e as convencer de que o caos não é destino.
No Irão, tornou-se mais do que selecionador. Foi figura de referência, quase patriarca, num país frequentemente reduzido a caricatura geopolítica por quem nunca quis ver pessoas por trás dos mapas. Levou o Irão a Mundiais, criou laços, lançou jogadores, impôs disciplina competitiva. Na Colômbia, mexeu numa seleção de talento feroz, de James, Falcao, Luis Díaz e companhia, procurando dar-lhe uma arquitetura que nem sempre o génio aceita de bom grado. No Egipto, no Qatar, no Omã, foi continuando a colecionar fronteiras, aeroportos e traduções simultâneas, como se a sua carreira fosse uma prova de resistência contra o provincianismo.
E agora o Gana. Um Gana que chegou ao Mundial com urgências, ausências, dúvidas e aquela matéria-prima africana que tantas vezes o futebol europeu olha com admiração e paternalismo ao mesmo tempo. Queiroz pegou no grupo, fechou espaços, arrumou linhas, limpou corredores, deu-lhe aquele ar de equipa difícil de matar. Não é futebol para todos os gostos. Não tem perfume de anúncio da Nike. Não promete arco-íris ofensivos nem 73 por cento de posse para depois perder 1-0 com um livre lateral. É futebol de sobrevivência. Mas a sobrevivência também é uma arte. A Seleção Nacional que o diga, por exemplo, na sua jornada vencedora do Euro 2016 agora também. E, em Mundiais, a sobrevivência é muitas vezes a primeira forma de inteligência.
Esta madrugada, contra a Colômbia, e independentemente do resultado, Queiroz joga contra uma parte do seu passado. Conhece aquela casa. Sabe-lhe os móveis, as fissuras, os quadros tortos. E já disse, com a secura de quem não vende ilusões, que não há equipas perfeitas. É a frase típica dele: meio elogio, meio aviso, meio bisturi. A Colômbia é forte, talentosa, perigosa e Portugal que o diga. Mas não é invencível. E se há treinador capaz de transformar uma pequena falha adversária numa auto-estrada emocional para o desconforto, é Carlos Queiroz.
A dívida que fingimos não ter
O problema é que Portugal tem uma relação estranha com os seus pioneiros. Gostamos deles quando morrem, quando se calam ou quando já não nos obrigam a rever injustiças. Com Carlos Queiroz é ainda pior, porque ele não cabe no retrato simples do nosso futebol. Não é só o génio incompreendido. Não é só o injustiçado. Não é só o professor visionário. Também é teimoso, difícil, por vezes ríspido, dado à frase dura e ao conflito mal digerido. Mas a grandeza raramente vem embrulhada em simpatia universal. Às vezes vem com mau feitio, relatórios longos e conferências de imprensa onde parece que o treinador está a corrigir a gramática moral do jornalista. Veja-se também José Mourinho.
O que não podemos é confundir feitio com legado. E o legado está lá, enorme, visível, estruturante. Carlos Queiroz ajudou a tirar o futebol português da adolescência romântica e a empurrá-lo para a idade adulta competitiva. Antes dele, queríamos ser respeitados. Depois dele, começámos a querer ser temidos. Antes dele, formávamos bons jogadores como quem descobre cogumelos no campo. Depois dele, percebemos que o talento também se cultiva, se acompanha, se educa, se protege e se exige.
Quando hoje vemos Portugal ganhar torneios jovens, competir em finais, exportar jogadores, produzir treinadores, discutir métodos, analisar adversários ao milímetro e achar normal estar entre os melhores, há ali uma linha invisível que passa sempre pelo Professor Carlos Queiroz. Não passa só por ele, claro. O futebol é uma obra coletiva, cheia de vaidades concorrentes. Mas passa por ele de forma decisiva. E talvez fosse útil dizê-lo sem medo, sem reservas, sem aquela mesquinhez típica de quem acha que agradecer diminui.
Esta madrugada, quando o Gana entrar em campo contra a Colômbia, Carlos Queiroz voltará a ser aquilo que sempre foi: um português fora de portas, desconfiado do acaso, armado de método, tentando convencer onze jogadores de que o impossível é apenas uma equipa mal estudada. Pode ganhar, pode perder, pode ser eliminado, pode fazer mais uma das suas pequenas guerras táticas contra o destino. Mas nada disso altera o essencial.
O futebol português deve-lhe muito. Mais do que reconhece. Mais do que confessa. Mais do que talvez algum dia venha a agradecer decentemente. E, por isso, hoje, entre a ressaca do golo de Gonçalo Ramos e a ansiedade do próximo jogo de Portugal, convém olhar para Kansas City e lembrar que ali estará um dos homens que nos ensinou a deixar de entrar nos grandes torneios com ar de convidados pobres.
Boa sorte, Professor. Não apenas pelo Gana. Também por nós. Porque há dívidas que não se pagam com homenagens tardias. Pagam-se, ao menos, com memória.
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