A América faz 250 anos a 4 de julho e, como seria de esperar, vai certamente celebrar-se com bandeiras, discursos, fogo de artifício, hinos, lágrimas coreografadas e aquela capacidade muito americana de transformar uma data histórica numa superprodução com patrocínios, drones e talvez um hambúrguer ou um churrasco comemorativo. Mas, antes dos políticos, dos generais, dos Presidentes de ocasião e dos vendedores de bonés do MAGA, houve sempre outro departamento encarregado de explicar a América ao mundo: Hollywood. Ou seja, a grande fábrica de sonhos que passou mais de um século a dizer-nos que os EUA eram uma ideia, uma promessa, uma ferida, uma mentira conveniente, uma autoestrada ao pôr do sol e, nos dias maus, um extraterrestre a rebentar com a Casa Branca em Dia da Independência. Não admira. Se há país que aprendeu a confundir História com trailer, foi aquele que nasceu de uma declaração escrita com uma pena, assinada por homens de peruca e depois reciclada em milhões de imagens onde liberdade rima quase sempre com cavalo, pistola, tribunal, soldado, nave espacial ou Nicolas Cage a roubar a Declaração da Independência em O Tesouro. Há na América uma relação muito séria com os seus documentos fundadores: veneram-nos como relíquias sagradas e, ao mesmo tempo, transformam-nos em objetos de assalto num filme de aventura familiar. São o génio e o problema do país em duas horas de cinema.
A fronteira, essa mentira magnífica
