No último ano, 500 portugueses frequentaram a cantina social da associação na capital luxemburguesa (18,5%), um número superior aos 484 luxemburgueses que por lá passaram no mesmo período, representando ainda 23% do total em Esch-sur-Alzette, a segunda maior cidade do país (241 pessoas).
Segundo a assistente social da “Voz da Rua” (“Stëmm vun der Strooss”, em luxemburguês), o perfil dos portugueses que recorrem às cantinas sociais não se limita aos que não têm casa para viver.
“Há sem-abrigo que têm problemas de toxicodependência, pessoas que trabalham e têm dificuldade para fazer face às despesas e aproveitam para vir comer aqui, e pessoas idosas que recebem pensões de reforma muito baixas e não têm dinheiro suficiente para viver”, explicou Charlotte Marx.
Teixeira tem 64 anos, deixou Portugal em 2012 à procura de trabalho, depois de o café que explorava ter ido à falência continua sem conseguir um contrato de trabalho.
“Vim à boleia com outro rapaz, à aventura, a pensar que me desenrascava. Lá já estava a pensar em suicídio, havia dias que não comia”, contou à Lusa.
O sexagenário trabalha de modo ilegal na construção ou a fazer mudanças, sem saber quando vai ter dinheiro para pagar a renda do estúdio que arrendou do outro lado da fronteira, em França, onde a habitação é mais barata que no Luxemburgo.
“Hoje posso ter 20 euros no bolso, amanhã 50. Se tivesse salário já escusava de vir aqui”, disse à Lusa.
Na cantina social da “Voz da Rua”, aberta à hora de almoço de segunda à sexta, o prato do dia custa 50 cêntimos, sendo servida sopa e sandes gratuitamente a quem não pode pagar uma refeição.
“Há muitos que não têm sequer 50 cêntimos, e eu às vezes tenho pena e dou-lhes, sem eles saberem”, disse à Lusa uma portuguesa que trabalha na cantina e não quis ser identificada.
Às cantinas sociais recorrem também portugueses que recebem pensões baixas e não conseguem chegar ao fim do mês, como um reformado por invalidez que pediu o anonimato.
O português de 55 anos, que foi operado ao coração e vive com um `pacemaker`, mora num quarto por cima de um café, “sem condições” nem acesso à cozinha, e se não fosse a cantina social, “o dinheiro não chegava”.
O emigrante, que chegou ao Luxemburgo em 2005, recebe uma pensão de 1.300 euros por mês, um valor inferior ao limiar de pobreza no Luxemburgo, que ronda os 1.700 euros por pessoa, e quase tudo o que ganha vai para pagar o quarto e ajudar a família em Portugal.
O emigrante gostava de regressar a Portugal, para junto da mulher e dos filhos, mas a pensão que recebe, o Rendimento para Pessoas com Deficiência Grave (RPGH, em francês), obriga-o a viver no Luxemburgo, e também não consegue trazer a família para o Grão-Ducado, onde as rendas ultrapassam os mil euros.
No Luxemburgo vivem cerca de 100 mil portugueses, que representam 19% da população.