Homens e mulheres fazem a vindima sob o sol alentejano. Vemos-lhes as mãos e os rostos de perto, as brincadeiras entre as cepas, as uvas que colhem. De repente, um touro irrompe sobre o campo e obriga os trabalhadores a subir a sobreiros para escapar. Sem ajuda, o capataz é colhido pelo animal, mas é em cima das árvores, numa espera lenta, que se desenrola o filme Vento do Fogo, numa suspensão que confunde as épocas históricas e se serve de diálogos soltos para revelar a opressão, mas também a resistência de uma classe trabalhadora que é tantas vezes carne para canhão nas guerras. Marta Mateus equilibra a história íntima com a história dos grandes acontecimentos e, para isso, põe o próprio filho, descendente de sobreviventes judeus do Holocausto, a fazer o papel do bisavô português que perdeu um olho na I Guerra Mundial. Mas sobretudo dá voz a Maria Catarina, uma octogenária, que evoca a própria vida de forma filosófica e poética, não só como memória de um Alentejo de fome e resistência, mas como observadora de um povo que perdeu a consciência de classe. É o segundo filme que a realizadora faz com Maria Catarina, mas o próximo já está escrito e será sobre o despertar desta “noite escura” que se atravessa na política. O Alentejo, onde Marta Mateus cresceu numa quinta sem eletricidade, à luz de candeeiros de petróleo, também continuará a ser protagonista.
Este filme começou por ser uma curta-metragem. O que é que queria fazer que a levou para a longa-metragem?
Queria passar mais tempo em cima das árvores (Risos). Era isso. Sentia que aquele momento de suspensão, de pausa, merecia ser mais extenso. E que era importante sentir no filme aquela passagem do tempo. A entrada na noite e a longa noite.