“Com um vestido preto, nunca me comprometo.” A máxima pode ser igualmente aplicada aos relacionamentos diários, pautados por complexos expedientes linguísticos que se manifestam de várias maneiras, todas elas desagradáveis. Alguns exemplos disso: adiar uma resposta que deve ser dada em tempo útil (procrastinar); fazer um pedido de forma subreptícia; negar-se a assumir uma responsabilidade própria, atribuindo falhas a terceiros e colocando-se, ardilosamente, no papel do inocente ou da vítima; “esquecer-se” convenientemente de dados importantes num processo de avaliação ou de decisão e virar o bico ao prego, passando ileso por entre os pingos da chuva.
Este estilo de comunicação, identificado há algumas décadas pelos investigadores da Psicologia Organizacional, constitui uma força de bloqueio nas interações humanas, sobretudo em ambientes competitivos. A multiplicação de canais tecnológicos (correio eletrónico, redes sociais e plataformas de conversa) parece ampliar o fenómeno, criando mais oportunidades para desimplicar-se de responsabilidades várias e recorrer a observações veladas, por vezes mais hostis do que se fossem ditas diretamente e cara a cara.
Isso mesmo foi demonstrado por um grupo de investigadores chineses. Um estudo publicado em setembro, na Nature, envolvendo 350 funcionários de empresas industriais, mostrou que a comunicação cooperante reduzia o comportamento de ocultação dos funcionários, enquanto que o registo competitivo o aumentava. E, apesar de não se ter encontrado uma relação significativa entre o registo presencial e online, este enfraqueceu o efeito causado pela comunicação competitiva.
Não admira, portanto, que os visados se sintam incomodados, ofendidos e sem margem para contrapor ou esclarecer equívocos, como sucede numa comunicação eficaz (do tipo “a falar é que a gente se entende”). O fenómeno verifica-se na arena política, na diplomacia, nos locais de trabalho e entre amigos, mas também no seio familiar e conjugal.
Houve um tempo em que a Psiquiatria considerava que o estilo de comunicação passivo-agressivo era uma perturbação da personalidade, mas as versões atualizadas do DSM, que é a bíblia das doenças mentais, removeram-no da classificação em 1995, por falta de evidências científicas. De resto, este é um território movediço e sem fronteiras claras, em que abundam os subentendidos e aquilo que parece nem sempre é.
Estaremos perante um mecanismo de defesa tão ancestral como a Humanidade, que se revela em função do caráter ou da história de vida? Ou de uma estratégia culturalmente aprendida em contextos onde impera o social ou politicamente correto?
Seria cómico se não fosse trágico
É sabido que, nas sociedades ditas civilizadas, as crianças aprendem a reprimir os seus impulsos agressivos. Do mesmo modo, desde o século passado que os estudos sobre conformismo mostraram como a passividade pode ser adaptativa, na medida em que a afirmação de pontos de vista divergentes pode representar uma ameaça de exclusão do grupo. Sair deste colete de forças pode passar, então, por adotar uma terceira via, que não é mais do que exercitar, e negar ao mesmo tempo, uma reação considerada violenta.
“Em vez de expor sentimentos de vulnerabilidade, adotar um estilo passivo converte-se numa forma sorrateira de afirmação. Talvez possamos chamar-lhe passividade agressiva”, pode ler-se num artigo recente da publicação inglesa The Economist, onde o psicanalista e autor Josh Cohen analisa o tema em detalhe.
Em Portugal, o neuropsicólogo Luís Maia tem-se interessado por este estilo de comunicação. Comportar-se de forma evasiva, tão velada quanto hostil, através do uso do silêncio ou de meias palavras (“bocas”), parece ter origem no medo das consequências de lidar com terceiros de forma genuína. O docente da Universidade da Beira Interior explica: “Em situações de conflito, evitar a abertura emocional e dissimular o desconforto, a raiva, o desgosto e outras emoções negativas é uma maneira de não perder a face ou a compostura.”

Autor de um artigo publicado há seis anos e intitulado Utilizando a comunicação assertiva como forma de amor, Luís Maia faz saber que ainda é frequente, nas relações interpessoais, confundir-se a comunicação assertiva – expressar sentimentos e ideias respeitando os direitos e interesses do próprio e dos envolvidos – com a imposição de ideias.
Isto acontece quando, entre duas pessoas, uma delas julga estar a ter uma conversa e a outra uma discussão, por exemplo. No segundo caso, o eventual confronto com dificuldades, incongruências e frustrações próprias tende a gerar sensações de ansiedade e desespero, como se estivesse a discutir. O que fica por dizer impede que muitos problemas não se resolvam, o que limita os horizontes (e o exercício dos direitos) das partes.
Bastaria que os protagonistas da interação tivessem uma atitude despojada, sem reservas nem ideias preconcebidas, para um desfecho mais produtivo e vantajoso para todos. Contudo, o atalho mais fácil acaba por ser a reserva: passa-se por “sonso”, adota-se o lema “o silêncio é de outro” ou opta-se por outros mecanismos de fuga, com comentários dúbios, que semeiam a confusão e o ressentimento.
Não saber estar
O professor universitário, que cresceu no Brasil e viajou pelo mundo, sublinha o peso dos fatores culturais. “Em Portugal, continua a ter-se muros muito altos, que se notam, inclusivamente, nas salas de aulas e nas conferências; raramente se fala ou se tem dúvidas.” E prossegue: “Julgo que se desenvolveu uma filosofia de preservação do eu e dos meus; o Português típico não confia no desconhecido e, muitas vezes, tem dificuldade em dizer o que pensa ou sente, por medo de ser prejudicado.”
E, contudo, “esta é uma linguagem que se aprende, no contexto cultural ou a partir das experiências na infância, mas as preferências de personalidade também contam”. É desta interligação de fatores que resulta a propensão para desenvolver um estilo de comunicação predominantemente assertivo, passivo, agressivo ou uma combinação dos dois últimos.
Na sua experiência clínica, o neuropsicólogo nota que os relacionamentos de quem tem um perfil passivo-agressivo são, geralmente, menos profundos e genuínos. E exemplifica: “É aquele amigo, familiar ou colega incómodo que não se chega a por de lado e só se convida porque tem de ser”.
Se é tão corrosivo para as relações de qualquer tipo ser passivo, agressivo ou ambos, não seria preferível experimentar outra abordagem (sendo assertivo, por exemplo)? O especialista esclarece:: “Num meio social em que se teme ser posto de parte ou rotulado como petulante e afins, ser assertivo não cai bem.”
Normalmente, fica-se à defesa ou passa-se ao ataque: “Vemos isto quando se fala de temas fraturantes, da religião ao futebol, passando pelas questões raciais e muitas outras.” E há outro fator a considerar: “Dá menos trabalho ser impulsivo e rude, ou ouvir e calar do que ser assertivo, que custa imenso, porque implica parar, pensar, ver o ponto de vista do outro e o seu e respeitar diferenças, o que leva tempo a desenvolver.”
Melhor é possível (e desejável)
Para sair de impasses estéreis numa situação de conflito é imperativo não responder no mesmo registo (por exemplo, levar uma divergência a peito e esgrimir argumentos ou querer esclarecer algo a todo o custo, dado o potencial para a escalada do conflito ou o aumento da resistência do interlocutor). Outra opção consite em adotar a “técnica do disco riscado”, ou seja, dizer o que se tem a dizer, uma ou dez vezes, se for preciso.
A relevância da forma de comunicar, que remonta aos anos 1970 e tem sido tema de muitas obras, nas áreas da gestão mas também no campo da autoajuda, permanece atual. Se a meta for a cooperação e o crescimento nos relacionamentos, o estilo assertivo tem dado provas de ser o mais vantajoso: saber dizer sim quando é sim, ou não quando é não, com abertura e afeto, não abdicando do que se pensa ou sente face a determinado assunto, sem subterfúgios e insinuações, cria alicerces seguros nas interações, seja qual for a natureza das mesmas.
Na Era do Conhecimento e das Tecnologias de Informação, não é de estranhar a profusão de sites dirigidos por profissionais de saúde que disponibilizam questionários de acesso livre, como este, com o propósito de dar a conhecer os quatro estilos de comunicação mais comuns, identificar em qual deles se situa quem os preenche e, ainda, fornecer pistas para desenvolver uma abordagem relacional mais genuína e com potencial para evoluir.