Há 45 anos que o dia de Aziz é pautado por rituais. De manhã, abre a minúscula livraria de que é proprietário, na parte antiga da Avenida Maomé V, na medina de Rabat, capital de Marrocos, e dá-se ao primeiro. Com as duas portas abertas, o que se vê não parece uma livraria, mas um armário atafulhado de livros, prestes a desabar sobre o homem magro de 75 anos. Deixar este mundo soterrado pelo peso do conhecimento, pelo peso dos livros que ele próprio escolheu, talvez não fosse uma forma de morrer que lhe desagradasse, imagino. E avanço para lho perguntar. Felizmente – quem sabe se trazida pelo siroco que se faz sentir, o vento quente do Saara, carregando já a sabedoria das aldeias de montanha berberes –, a sensatez regressa de imediato ao meu espírito, avisando-me de que aquele talvez não seja o melhor modo de inaugurar a conversa. E, como a avalanche de papel não aconteceu – nem naquele nem em nenhum dos mais de 16 mil dias em que repetiu tais gestos –, Aziz principia a tarefa de dispor no exterior da livraria, sob a forma de pilhas que se assumem escaparates, a quantidade de livros necessária para poder entrar na loja e passar aos rituais seguintes. Aquele ainda lhe tomará uma hora e, aqui e ali, será interrompido pela chegada de um cliente, de um fornecedor, ou por uma interpelação de um qualquer comerciante vizinho, o que me dá tempo para olhar em redor.
O vendedor do lado borrifa o chão com uma espécie de chuveiro portátil improvisado – uma garrafa plástica cheia de água e perfurada no topo, abaixo da tampa, que está devidamente enroscada. De seguida, pega num garrafão amarelo, despeja um pouco de lixívia no chão e esfrega a pedra, com uma vassoura de cabo curto e pelos pouco azuis e muito gastos, fazendo-a regressar da cor de carvão ao tom cinza-claro original. Ao lado, um varredor encartado junta num monte o muito lixo resultante da intensa atividade comercial do dia anterior, mas, apesar de modernamente fardado, fá-lo com uma grande folha de palmeira. Ao contrário da casbá, o bairro fortificado que rodeia o Palácio dos Udaias, a medina não é exemplo de asseio, ainda que Rabat, por ser a capital e a cidade do rei, representante da dinastia alauita, no poder desde 1664, se distinga do resto do país em termos de organização e de limpeza. Mas, nesta parte da cidade, as sarjetas estão entupidas de lixo, as solas colam-se ao chão e é frequente ver indivíduos andrajosos a vender meia dúzia de peixes acabados de pescar, separados do chão apenas por uma folha de jornal.

