Quando Cidália Soares Cabral recua à última Consoada, vê-se a pedir desculpa à família por não ser capaz de continuar sentada à mesa. Estava com tantas dores de garganta que não conseguia engolir. “E só me apetecia estar deitada”, recorda.
O suplício começara no início de dezembro, depois de ter passado o final do mês de novembro em casa da filha mais nova, a fazer companhia à neta, que adoecera. Margarida tem 14 anos e sofre de bronquite asmática. A adolescente estava com febre muito alta “e uma tosse de cão que ninguém imagina”, conta a avó, “e os pais não queriam que ela ficasse sozinha no apartamento.”
Duas semanas depois, já com a Margarida de volta à rotina e às suas aulas do 9.º ano, adoeceu ela. Aos 78 anos, Cidália é uma mulher ativa e saudável, que ainda trabalha, como porteira num prédio nas Avenidas Novas, em Lisboa, e sempre que pode faz grandes caminhadas pela cidade.
Falta de ar, como nunca
“Mas apanhei uma gripe fortíssima”, lembra. “Era uma febre, uma tosse e uma falta de ar – coisa que nunca tenho! E sentia também um cansaço horroroso, passava o dia todo na cama.”
Aversa a hospitais e a médicos em geral, Cidália decidiu tomar os mesmos medicamentos da neta. “Sei que não devia fazer isso”, concede, “mas havia lá uns restos dos seus remédios e decidi tratar-me com eles.”
Porém, nada parecia trazer-lhe melhorias. “Tinha a garganta tão escaldada que fiz de tudo”, confessa. “Elixires, anti-inflamatórios… Pus a mão a tudo porque estava com a garganta da cor daquela camisola”, compara, apontando para uma peça de roupa de um encarnado-escarlate.
Já em janeiro, Cidália teve finalmente uma consulta com a sua médica de família, que lhe passou uma credencial para ir “logo, logo” fazer análises – queria saber a origem daquela infeção respiratória. “Quando vieram os resultados, disse-me: ‘Você teve mais do que uma gripe, foi um vírus que lhe atacou as vias respiratórias e tão cedo não apanha mais nada!”, conta.
“A verdade é que nunca mais me constipei sequer, mas será que tive esta porcaria de vírus?”, questiona Cidália . “A minha médica já me telefonou várias vezes e pergunta sempre pela respiração, até já me disse que se calhar estou imune.”
A hipótese passou-lhe pela cabeça logo no início de março, quando a Direção-Geral da Saúde confirmou os primeiros casos de Covid-19 em Portugal. A febre alta, a tosse seca e a falta de ar eram exatamente os sintomas descritos pela comunicação social. Ainda por cima, as notícias davam conta de que o coronavírus SARS-CoV-2 já andaria a circular meses antes.
Também Michael Imperioli
“Será que tive mesmo? Cada vez me convenço mais de que sim”, desabafa Cidália, e não está sozinha nesta sua “quase certeza”. Um pouco por todo o mundo, milhares de pessoas acreditam que estiveram infetadas com o novo coronavírus antes sequer de se falar nele.
Sofrem de Achoquetivedite – uma adaptação do inglês, Thinkihadititis, que o Washington Post descreve como uma condição que aflige pessoas que sofreram doenças que têm semelhanças com a Covid-19 muito antes de o coronavírus se tornar conhecido. “Isso acontece quando pedaços de notícias e descobertas científicas se alojam nas partes do cérebro que incubam a esperança – ‘Ó, ei, talvez já tenha vencido!’ – e ansiedade – ‘Ó, Deus, talvez tenha contagiado muita gente’.”
Entre os doentes de Thinkihadititis há alguns famosos, como não? E, entre eles, está o ator americano Michael Imperioli, estrela da série Os Sopranos, que disse à Page Six (secção de mexericos do New York Post) ter a certeza de que foi atacado pelo coronavírus no final de fevereiro.
O ator, de 54 anos, contou que se encontrava “extremamente doente” quando chegou à Califórnia, vindo de Nova Iorque, a 1 de março. “Não fiz o teste, mas estive realmente doente”, insistiu.
Imperioli acredita que parte da sua família ficou igualmente infetada, na mesma altura. “A minha mulher e um dos meus filhos [tem dois] também tiveram a maioria dos sintomas. Só não fizemos o teste porque não quisemos ir ao hospital.”
A verdade é que o primeiro caso de infeção nos Estados Unidos ocorreu a 21 de janeiro e as primeiras duas mortes logo no início de fevereiro, todos na Califórnia. Mas, muito antes, já outros americanos tinham relatado gripes tão “diferentes” que hoje acham que estiveram infetados com o novo coronavírus.
“Recebi e-mails de centenas, talvez milhares de pessoas a dizerem-me: ‘Tenho a certeza de que já tive [a doença]’”, contou ao Washington Post Eran Bendavid, professor associado de medicina especializado em doenças infecciosas que estuda a Covid-19 na Universidade de Stanford, em Palo Alto, na Califórnia.
Uma dessas pessoas chegou mesmo a contar-lhe ter tido sintomas em 2018, “mas, aí, já acho que é esticar muito”, observa Eran Bendavid. A Thinkihadititis geralmente envolve esticar bastante a imaginação, sendo certo que a Covid-19 partilha sintomas com a gripe sazonal e até com algumas alergias.