Joacine Katar Moreira revela – pouco mais de um ano sobre a reunião do Livre, onde foi acusada de desrespeitar as orientações dos órgãos máximos, em direto na televisão – que “a discordância dos dirigentes do partido” em relação à sua atuação “começou muito antes, na altura das eleições europeias [maio de 2019]”, em que foi a segunda na lista candidata, liderada por Rui Tavares.
“A minha ótica não era necessariamente a do partido e isso era algo evidente desde o início”, explicou, no programa Irrevogável da VISÃO, esta quarta-feira, acrescentando que após as legislativas, em que foi a única eleita pelo Livre, “sabia que ia ser uma legislatura difícil” no relacionamento com a estrutura partidária. “Sabia que iria ser necessária muita negociação e uma elevada dose de resistência, mas nunca achei que o meu partido ensaiasse retiradas de confiança um mês após a minha eleição – em que ainda me estava a habituar a este ambiente do Parlamento, que também me era hostil”, explicou, acusando o partido de que “já tinha uma equipa” para a substituir.
“Não fui eu que abandonei o partido, foi o partido que me abandonou: a sua única deputada eleita”, disse, afirmando que os dirigente do Livre “não gostaram que, na noite eleitoral, tivesse dito que era uma feminista radical com uma agenda contra o racismo”. “Ao ponto de terem marcado uma assembleia para me ‘disciplinar’, porque tinha muita independência e estava a afastar-me do partido e dos seus ideais”, disse a deputada, que entretanto passou a não inscrita, sofrendo as consequências desse estatuto na capacidade de intervenção no Parlamento.
Segundo Joacine Katar Moreira, depois de a deputada do PAN Cristina Rodrigues ter se desfilado e passado também a não inscrita, o Parlamento “adaptou-se para desincentivar outros deputados a fazer o mesmo”. “Fomos eliminadas de todas as grelhas de intervenção. Tenho iniciativas (legislativas) engavetadas pelo simples facto de ser não inscrita”, disse.
Porém, sublinha, “é das maiores ironias que as duas deputadas sejam silenciadas por quem depois precisa de vir negociar medidas e os orçamentos do Estado”. Isto, sinaliza, num momento em que considera que “o Bloco tem contribuído mais [em comparação com o PS e o PCP] para desmantelar a ‘gerigonça'”.
A ex-dirigente do Livre revelou ainda que já foi convidada a participar em projetos autárquicos, com as eleições para o Poder Local à porta. Mas recusou dizer de onde partiram os convites.
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