“Então não cumprimenta? Extraordinário! Grande ordinário!” Com esta frase, proferida há exatamente 16 anos, Carmona Rodrigues, o incumbente presidente da câmara de Lisboa, acabou por ganhar a Manuel Maria Carrilho um debate que, minutos antes, ambos tinham perdido. Carmona, um independente eleito vereador pelo PSD, em 2001, fora o nº 2 de Pedro Santana Lopes e substituíra-o, na Câmara Municipal de Lisboa, quando, em 2004, Santana foi nomeado primeiro-ministro, substituindo, por sua vez, Durão Barroso, que se tinha transferido para Bruxelas, para presidir à Comissão Europeia. Santana fora – e continua a ser… – o único presidente da CML militante do PSD, depois da forte, mas falhada, aposta de 1989, quando a AD apresentara Marcelo Rebelo de Sousa e este tinha perdido para Sampaio. Esse fora, verdadeiramente, o primeiro grande duelo autárquico da História – mas as contas desse rosário podem ser desfiadas noutras páginas desta edição, dedicadas à figura de Jorge Sampaio, desaparecido esta semana.
Carmona havia sido um nº 2 bastante discreto, mas tinha feito, depois, um “curso” acelerado de notoriedade. Mesmo assim, e apesar do reconhecimento do PSD, que o apoiava, não deixava de ser uma mera figura local. Mas Manuel Maria Carrilho, que havia sido um ministro da Cultura polémico e mediático, autor de intervenções marcantes em congressos do PS, protagonista de entrevistas de impacto e autor de livros muito citados, constituíra-se como uma figura nacional. Eram só vantagens: ainda por cima, tinha-se casado com uma estrela da televisão, popular e reconhecida, como Bárbara Guimarães, usada, aliás, de forma abundante, na campanha. Nas arruadas, o casal, de mãos dadas, distribuía rosas pelas senhoras e, nas revistas cor-de-rosa, Carrilho complementava a sua inquestionável solidez intelectual com o piscar de olhos ao embasbacamento do povo, perante tanto glamour.
