No dia 2 de abril de 1976, com pompa e circunstância, a Constituição da República Portuguesa foi aprovada, por larga maioria, pelos deputados da Assembleia Constituinte, eleitos um ano antes. Com a descompressão operada pelos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975, a democracia constitucional e representativa, do tipo ocidental, parecia ter-se implantado e consolidado no País. Mas as aparências iludiam: no mesmo dia, num atentado à bomba, o padre Maximino Barbosa de Sousa, mais conhecido por “padre Max”, de 33 anos, e a estudante Maria de Lurdes Ribeiro Correia, 19 anos, que o acompanhava, perdiam a vida, quando a viatura em que seguiam explodiu. Sem grande margem para dúvidas, a operação foi levada a cabo pelo grupo de extrema-direita MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal), ou pelo seu associado armado, o ELP (Exército de Libertação de Portugal), que desde maio do ano anterior tinham realizado várias ações violentas contra partidos de esquerda – ou à esquerda do PS. O padre Max era candidato independente da UDP (União Democrática Popular) nas listas das legislativas pelo círculo de Vila Real. Maria de Lurdes Correia, de 19 anos, fazia parte da União de Estudantes pela Democracia Popular e era ativa na alfabetização de camponeses. Com cerca de 600 ações violentas, entre maio de 1975 – pouco depois do 11 de Março – e abril de 1977, muito depois do 25 de Novembro, a extrema-direita operou muito mais atentados à bomba, através da conhecida rede bombista, após o 25 de Novembro, do que no período anterior.

O MDLP era uma organização ativa desde o 25 de Abril, mas, ao contrário das FP-25, sua congénere de extrema-esquerda, que atuou a partir de 1980, as suas ações tiveram bastante respaldo popular, sobretudo no norte e no centro do País, durante o Verão Quente. Estando hoje por estabelecer os contactos entre a rede da extrema-direita e algumas estruturas do PS ou militares ligados ao Grupo dos Nove, as ações de ataque às sedes do PCP e de partidos da extrema-esquerda, sempre no quadro de gigantescos tumultos populares – no espírito do autointitulado Movimento Maria da Fonte, que lhes deu corpo – foram instrumentais, mesmo para os democratas moderados, para travar o agressivo processo de radicalização ou bolchevização forçada do País. Guerra era guerra: e houve muitos militantes do PS que participaram nesses assaltos, numa altura em que os socialistas eram a principal força civil a opor-se à tentativa de imposição de uma ditadura comunista. A realidade tem várias nuances e não há anjos nesta história, nem de um lado, nem do outro.
