Eram seis da manhã na Ucrânia, três em Portugal. Dia 24 de fevereiro. Vladimir Putin, presidente da Rússia, acorda o mundo com uma mensagem gravada em que anuncia uma “operação militar especial” no leste da Ucrânia, a única forma de libertar o país vizinho de um “genocídio”; enquanto isso dá indicações às tropas separatistas russas para avançarem sob dezenas de cidades com mísseis. Logo nessa quinta-feira, controla as cidades de Konotop, de Pripyat, a central nuclear de Chernobyl, obrigando o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, a ativar a lei marcial. Passou-se uma semana. A ofensiva russa manteve o controlo de uma cidade; ronda a capital, Kiev, onde encontrou a maior resistência, e nem as sanções à Rússia, nem as duas rondas de negociações se revelaram suficientes para um cessar-fogo. A Europa enfrenta agora uma crise humanitária sem precedentes, desde a segunda guerra mundial – um milhão de pessoas já deixaram a Ucrânia, segundo a ONU – e sem fim à vista.
Até onde chegou a ofensiva russa?
Kherson, uma cidade portuária no sul do país, perto da Crimeia, é até agora o único território confirmado que continua sob ocupação russa. Mas, dentro de outras cidades há estruturas dominadas pelas tropas separatistas. É o caso da central nuclear de Chernobyl e do aeroporto de Hostomel (próximo de Kiev).
Os números da semana:
1 milhão de refugiados
227 civis mortos
525 civis feridos
Kharkiv, Mariupol e Chernihiv têm também sido palco de confrontos regulares, no entanto, as autoridades ucranianas continuam a dizer que não perderam o controlo. A primeira cidade (Kharkiv) tem estado na mira dos russos nos últimos dias e sofreu vários bombardeamentos: foram atacadas quatro zonas habitacionais, três comerciais, uma universidade, a câmara municipal, três escolas e uma catedral.
Kiev tem estado cercada e já foi alvo de ataques aéreos (na terça-feira, morreram cinco pessoas na sequência de um bombardeamento na torre da televisão da capital), mas os russos continuam “à porta”.
Mortos e feridos
Com o conflito a decorrer, torna-se complicado avançar números de óbitos e de feridos e estes diferem consoante a fonte. Segundo a ONU, até ao primeiro dia de março tinha morrido 227 civis e havia registo de 525 feridos. Mas os serviços de emergência da Ucrânia contabilizaram 2 000 civis mortos.
No caso dos militares, as contas revelam diferenças ainda mais significativas: embora o Executivo ucraniano garanta que perderam a vida mais de nove mil soldados russos. O ministério da Defesa de Putin fala apenas em 498. Quanto aos militares ucranianos, a única informação disponível, do Governo, aponta para 2 870 mortos e 3 700 feridos.
A crise humanitária
Numa semana, um milhão de pessoas deixaram a Ucrânia, de acordo com os mais recentes dados divulgados pelo Alto Comissariado para os Refugiados (ACNUR), que estima ainda que este número possa quadruplicar nos próximos tempos. A fuga tem sido feita por países que fazem fronteira com a Ucrânia – pela Polónia, Hungria, Roménia, Moldávia. Os que não deixaram o país, mas que vivem em sítios onde há confrontos tiveram de abandonar as suas casas e refugiar-se em abrigos subterrâneos, como estações de metro.

Esta quarta-feira, a União Europeia ativou a diretiva de proteção temporária para oferecer uma assistência rápida aos ucranianos em fuga. Portugal já tinha dito que ia participar no corredor humanitário, oferecendo-se para receber, para já, 1245 refugiados.
Como o mundo tenta travar a Rússia?
Começou de forma simbólica: ao segundo dia de Guerra, a União Europeia decide congelar os ativos financeiros no território dos 27 estados membros ao presidente russo, ao primeiro-ministro, Mikhail Mishustin, ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, e ao ministro do Interior, Vladimir Kolokoltsev. Perante um coro de críticas à ação lenta e a medidas que não teriam impacto real na economia russa, os países foram endurecendo as sanções.
O Executivo comunitário já aplicou sanções a 680 russos e a 53 entidades, fechou o espaço aéreo à Rússia e proibiu a transmissão dos órgãos de comunicação estatais russos. Foram ainda enviados 450 milhões de euros em armamento para a Ucrânia e 50 milhões para outras despesas, a que se somam ajudas financeiras de outros países como a Inglaterra ou a Alemanha a título individual. É o mais longe que vai o ocidente na solidariedade em território ucraniano, que para lá não envia soldados. A Força de resposta rápida da NATO foi ativada, pela primeira vez, mas, como a Ucrânia não é membro da organização, esta está apenas a fazer ações de dissuasão nas fronteiras (nas quais Portugal participa).

“A luta é aqui. Preciso de munições e não de boleia.”
— Volodimir Zelensky, perante a oferta norte-americana para o retirar da Ucrânia
A medida mais crítica foi a exclusão da Rússia do sistema de pagamentos global SWIFT, que teve efeitos imediatos na economia russa – o rublo colapsou e a bolsa de Moscovo esteve fechada vários dias.
A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou também um voto de condenação à Rússia “nos termos mais graves possíveis”, que contou com cinco votos contra (Bielorrússia, Coreia do Norte, Eritreia, Rússia e Síria); 141 a favor e 35 abstenções. E o Tribunal Penal Internacional abriu uma investigação para averiguar se estão a acontecer crimes de guerra.