Yevgeny Prigozhin terá morrido na queda do seu avião privado, perto de Moscovo. Quem é – ou era – o líder dos mercenários de Putin?

Yevgeny Prigozhin terá morrido na queda do seu avião privado, perto de Moscovo. Quem é – ou era – o líder dos mercenários de Putin?

“O que fizemos? Entrámos à balda, andámos à procura de nazis pelo território fora, destruímos tudo o que pudemos, aproximámo-nos de Kiev, falhámos e fomos embora. Fizemos da Ucrânia uma nação conhecida no mundo inteiro. Quanto à desmilitarização, eles tinham 500 tanques no início da operação militar especial, agora têm cinco mil. Tinham 20 mil homens preparados para combater, agora têm 400 mil. Então como desmilitarizámos a Ucrânia? Pelo contrário, militarizámo-la. O Exército ucraniano é hoje um dos mais fortes.” Em 36 segundos, Yevgeny Prigozhin desmente ou afronta Vladimir Putin por seis vezes: a entrada desajeitada do Exército russo; o comentário sarcástico da busca de nazis; a destruição sistemática levada a cabo pelos soldados; o falhanço da captura de Kiev (a tradução literal da expressão é “fizemos merda”), quando a narrativa oficial é que a retirada fazia parte de um pré-acordo de paz; a referência à Ucrânia como nação, e uma nação no centro do mundo; uma desmilitarização que acabou por militarizar o inimigo. E, no entanto, ele ainda se move.

O caso de Prigozhin é um mistério. Num país onde se dá pesadas penas de prisão a quem se atreve, sequer, a chamar guerra à guerra, onde opositores políticos tendem a cair de janelas com uma singular frequência, este homem terá conseguido encostar às cordas o regime de Putin, ao longo de 24 horas, com a tomada da cidade de Rostov-on-Don, sem qualquer resistência, e pôr-se ainda a caminho de Moscovo, com a mira apontada ao Kremlin. O líder do grupo paramilitar Wagner, que durante anos – até à invasão da Ucrânia – agia na sombra como uma espécie de guarda pretoriana de Putin, dizia o que bem lhe apetecia, sem a mais leve sombra de castigo. Agora, mesmo tendo ido mais longe, expondo eventuais fragilidades do poder militar estatal, rumou à Bielorrússia, livrando-se, para já, de qualquer punição pela sua insolência ou audácia (o tempo o dirá).

Na verdade, para esta estranha impunidade pode ter contribuído uma popularidade crescente – fator que levou muitos a olhar seriamente para ele como um possível sucessor de Putin e a tentar perceber se o mundo deveria temer mais ou menos uma Rússia sob a sua liderança.

DAR DE COMER A PUTIN E À ELITE

Yevgeny Prigozhin nasceu há 62 anos, a 1 de junho de 1961, em Leningrado (hoje, São Petersburgo). Nessa altura, uma criança chamada Vladimir Vladimirovich Putin estava a terminar a primeira classe numa escola da mesma cidade. Não consta que alguma vez se tenham cruzado, nos anos seguintes, até porque os percursos de cada um foram muito diferentes: Putin já estava no KGB há quatro anos, para o qual entrou depois de completar o curso de Direito, quando Prigozhin foi detido pela primeira vez, em 1979, aos 18 anos, por roubo.

Na segunda vez que foi apanhado, na sequência de uma maratona de pequenos crimes (incluindo um assalto violento a uma mulher), o juiz decretou-lhe uma longa pena de 13 anos de cadeia. Saiu ao fim de nove, por bom comportamento. Entrou na colónia prisional aos 20 anos e saiu nas vésperas de fazer 30, em 1990, a tempo de assistir aos estertores da União Soviética e de aproveitar as oportunidades que despontariam das cinzas comunistas, para quem tivesse mais ambição do que escrúpulos.

Prigozhin começou a carreira de empresário a vender cachorros-quentes na cidade natal, misturando a mostarda no apartamento da mãe. Daí a pouco tempo, conduzido pela perícia em aproximar-se das pessoas certas, chegara a sócio de várias empresas, incluindo casinos e uma cadeia de supermercados.

Ameaça Sombra de guerra civil pairou sobre a Rússia, ao longo do último sábado, 24 de junho, com a tomada de Rostov-on-Don pelo Grupo Wagner. Sem resistência das autoridades locais e com o apoio de parte da população, a “marcha pela Justiça” de Prigozhin só parou junto ao rio Oca, quando estava a caminho de Moscovo

Em 1995, abriu o primeiro restaurante, o Old Customs House. No início, contratou strippers para estimular o negócio, mas boa comida e melhor marketing acabaram por torná-las redundantes, e o restaurante passou a ser poiso de alguns dos astros mais cintilantes de São Petersburgo. Entre estes, encontrava-se o presidente da câmara da cidade, Anatoly Sobchak, acompanhado pelo seu braço-direito, Vladimir Putin.

A fama do Old Customs House e do New Island, um restaurante flutuante no rio Bol’shaya Neva, foi crescendo. Quando Putin se tornou Presidente, passou a levar dignitários estrangeiros a estes restaurantes e a contratar os seus serviços de catering para as receções oficiais. George W. Bush, Jacques Chirac, Dilma Rousseff, Narendra Modi e o (então) príncipe Carlos foram servidos pessoalmente por Prigozhin.

Entretanto, a holding do empresário, a Concord, criada em 1997, começou a ganhar lucrativos concursos do Estado para fornecer comida a escolas e a outras instituições estatais. Só em contratos com o Exército, a empresa faturou mais de mil milhões de euros, até 2015.

Putin fez de Prigozhin bilionário. Porém, a relação do “chef de Putin”, como era conhecido, com o Kremlin iria muito para lá da comida.

O CÉREBRO QUE SE ESCONDEU ATÉ 2022

Em 2014, Prigozhin fundou o Grupo Wagner, que passou a fazer o trabalho sujo em ações militares, com as quais o Kremlin não queria ter envolvimento oficial. A primeira foi a anexação da Crimeia. Seguiram-se missões em África e na Síria. A organização foi crescendo em homens, dinheiro, armas e poder.

Prigozhin negou sempre ligações ao grupo, chegando a processar jornalistas que invocassem o seu nome em investigações. O teatro terminou em julho de 2022, ao surgirem vídeos seus a recrutar prisioneiros russos para a guerra na Ucrânia. Daí a umas semanas, assumiria ser o líder. O relativo sucesso bélico, com a captura de Bakhmut como joia da coroa, comparado com os fracassos do Exército regular russo, tornara estes mercenários um ativo. Uma catapulta para outros voos, pelos vistos.

Aparentemente, o plano parecia ser esse. Ao fim de anos na sombra, Prigozhin apostou, nos últimos meses, em projetar-se mediaticamente, vendendo-se ao povo russo como um patriota, inimigo dos inimigos da Rússia, admitindo até ter interferido nas eleições americanas de 2016, que elegeram Donald Trump, através da sua “fábrica de trolls”, a Agência de Investigação da Internet (nada que não se soubesse já: desde 2018 que o FBI oferece 250 mil dólares por informações que levem à sua captura).

11 mil milhões
Número de visualizações da mensagem de Yevgeny Prigozhin, publicada às 00h12 de sábado (24) – na rede Telegram, a anunciar que a “marcha pela Justiça” ia ter início – só nas primeiras 24 horas da revolta dos Wagner

Essa estratégia deu os seus frutos. Prigozhin subiu em maio, pela primeira vez, ao top 10 do inquérito de opinião mensal do Levada Center, que avalia a popularidade dos políticos mais proeminentes na Rússia. E não foi só isso: surgiu no quinto lugar, à frente de Dmitry Medvedev, o ex-Presidente e ex-primeiro-ministro, de Vyacheslav Volodin, presidente da Duma, e de Gennady Zyuganov, secretário-geral do Partido Comunista, além do omnipresente Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin. Em maio, os russos procuraram mais na internet por Prigozhin do que por Putin – duas vezes mais. E isto apesar de estar banido dos canais de televisão estatais.

Esta notoriedade-relâmpago foi conseguida à custa do sangue dos mercenários (o próprio fala em dezenas de milhares de mortos nas suas fileiras, embora o Pentágono sublinhe que 90% das baixas são de prisioneiros recrutados para combater) e, sobretudo, assenta em críticas violentas ao Kremlin, com um tipo de linguagem que está absolutamente vedado a outros russos. Pela suposta incompetência, as chefias militares – com o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, à cabeça – são os principais alvos da fúria de Prigozhin. Resta saber se as diatribes e a crescente exposição pública fazem parte da estratégia – e se o plano é realmente dele.

“Ele está a desempenhar um papel”, diz à VISÃO o americano Jason Jay Smart, estratego político e correspondente do Kyiv Post, com uma longa carreira de análise nos países da ex-URSS. “Nada disto é improvisado. Prigozhin desvia para Shoigu a culpa pelas perdas na guerra, e esse é o principal objetivo estratégico de Putin. É tudo o que lhe interessa: desde que não o culpem, está tudo bem.” Há, ainda, outra razão, continua o consultor: manter os cortesãos desunidos, ocupados em conflitos internos, para impedir maquinações que o possam derrubar. “Faz parte do plano de Putin essa necessidade de lutas dentro do círculo interno, para que ninguém se una contra ele. É uma espécie de tática do KGB, o que, atendendo à sua carreira, faz sentido.”

Há outro jogo em curso fora da corte, e Prigozhin parecia estar a vencê-lo até ao último sábado. “A sua popularidade tem aumentado imenso”, realça Smart. “Nas redes sociais russas, os grupos de apoio ao Grupo Wagner são muito significativos. Eles têm centenas de milhares de seguidores, que apareceram só nos últimos meses, muitíssimo mais do que os que apoiam, por exemplo, Shoigu. E quanto aos grupos pró-Putin? Bom, não tiveram um declínio, mas não cresceram desta forma. Os maiores grupos pró-Prigozhin têm 600 mil, 700 mil, 800 mil seguidores, ao passo que os maiores grupos pró-Putin têm um milhão.” Será possível à criatura ultrapassar o criador? “Provavelmente terá esse objetivo, embora seja irreal alcançá-lo no curto prazo. Por outro lado, é difícil matá-lo neste momento. Tornou-se muito popular.”

Até à sua “marcha pela Justiça”, com que tomou Rostov, as metas imediatas de Prigozhin poderiam passar por ser apenas o número dois de Putin – ou talvez não. Além dos discursos bélicos, o fundador do Grupo Wagner dera alguns sinais políticos, nomeadamente tentando substituir líderes regionais por figuras da sua confiança, com destaque para o poderoso governador de São Petersburgo, Alexander Beglov. “Ele tem claras ambições políticas pela Rússia adentro”, aponta, à VISÃO, a ucraniana Kateryna Stepanenko, analista da Rússia para o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), um think-tank sediado em Washington, que tem feito as, porventura, mais completas avaliações diárias da guerra na Ucrânia. Toda a exposição em que apostou pode ter sido uma estratégia de sobrevivência, sugere a analista. Dessa forma, é já grande demais para ser liquidado. “O Kremlin tem confiado fortemente nas comunidades ultranacionalistas para apoiarem o esforço de guerra. Não ficariam em bons lençóis se censurassem uma das maiores pessoas entre os ultranacionalistas”, conclui.

2 mil milhões
Valor do primeiro contrato de concessão, em euros, para a empresa Concord, detida por Prigozhin, em 2012, para o fornecimento de refeições às Forças Armadas russas

Terá sido por isso que, na madrugada de 24 de junho, a marcha de Prigozhin não encontrou barreiras em Rostov? Mesmo que o Kremlin previsse tal movimentação, há semanas, e os mercenários soubessem ao que iam com alguma antecedência. Sem polícia nas ruas e enquanto os moradores tiravam selfies ao lado dos paramilitares, Putin fez um discurso de emergência ao País, logo de manhã, para condenar aquela “traição”. Horas depois, a caminho de Moscovo, quase a chegar ao rio Oca, onde estava a primeira linha de defesa militar russa, Prigozhin terá percebido que fora longe demais, quando Putin não atendeu um telefonema seu. A partir daí, foi o que o Kremlin deixou que se visse: o chefe de gabinete de Putin, o secretário do Conselho de Segurança da Rússia e o embaixador bielorrusso em Moscovo abriram alas para que o ditador de Minsk, Alexander Lukashenko, assumisse o papel de apaziguador do que se assemelhou a um golpe contra o regime, mas que Prigozhin avisou, desde o início, tratar-se de expor a incapacidade das chefias na Defesa.

Após os mercenários terem conhecido pela voz do Presidente russo (numa segunda intervenção pública) o destino que lhes traçou (seguirem para campos militares bielorrussos, deporem armas ou entrarem nas Forças Armadas russas), Prigozhin voou para a Bielorrússia. Só aí Putin voltou a falar, para apostar num discurso patriótico e de apelo à união, e revelou, pela primeira vez, a fatura para ter o Grupo Wagner na Ucrânia (€920 milhões pagos pelo Kremlin). Com um indisfarçável tom anestesiado, de quem ainda está a recuperar de um grande susto, o líder russo deu sinais de que já não poderá viver com Prigozhin; embora, pelo histórico, também possa não saber viver sem ele. Não enquanto este lhe for útil.

*com Nuno Miguel Ropio

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