Raquel Terán sabe muito bem o que quer da vida e não é qualquer pessoa que a desafia de forma impune. “Em janeiro, vou estar onde tenho de estar”, garantiu ela, nesta semana, a um grupo de jornalistas, referindo-se ao lugar que vai ocupar no parlamento estadual do Arizona. Um lugar que ganhou por direito e mérito próprios, graças à sua vitória nas eleições intercalares de 6 de novembro. Só que esta líder comunitária de ascendência mexicana tem contra si um caricato processo judicial: Alice Novoa, uma adversária política do Partido Republicano e fanática apoiante de Donald Trump, acusa-a de não ser cidadã dos Estados Unidos da América e pretende ver tudo esclarecido nos tribunais. “Eu não me vou deixar intimidar por este tipo de assédio”, esclarece Raquel Terán, farta de explicar que nasceu há 32 anos na cidade de Douglas, no Arizona, como a sua rival bem sabe.

Afinal, esta disputa quase anedótica é a reedição de outra, em 2012, com as mesmas protagonistas, quando um juiz de Phoenix deu como provada a nacionalidade de Terán. No entanto, Alice Novoa é uma personagem intransigente, xenófoba e adepta das teorias da conspiração, incluindo a de que os imigrantes hispânicos têm um “plano secreto” para reconquistarem o Sudoeste dos EUA e porem esse território sob soberania mexicana. Ela é como o seu ídolo político – nunca admite os erros e jamais faz cedências a quem se lhe opõe. Novoa está para Terán como Trump esteve para Barack Obama. Recorde-se que o 45º Presidente dos EUA sempre acusou o seu antecessor de não ter nacionalidade norte-americana e até se deu ao luxo de dizer que tinha provas do que dizia, apesar do certificado de nascimento do ex-Chefe de Estado demonstrar que ele veio ao mundo a 4 de agosto de 1961, em Honolulu, no Havai. Uma situação descrita como “imperdoável” no livro de memórias de Michelle Obama, Becoming (ver página 72), lançado esta semana, em que a antiga primeira-dama alega que as indesculpáveis mentiras de Trump puseram em causa a segurança da sua família.
2018, o ano das mulheres
A moral da história de Raquel Terán é muito simples: quando tomar posse, no início de 2019, vai continuar a lutar pelas suas convicções, com o objetivo de ver cumpridas as suas promessas em matéria de educação, saúde e qualidade de vida, para os seus conterrâneos e para as comunidades migrantes que se instalam no Arizona. E vai, sobretudo, evitar, como ela própria destaca no seu site, que se repitam iniquidades judiciais e atropelos aos direitos humanos, como os que ocorreram durante o legado de Joe Arpaio (1993-2017), o tristemente famoso “xerife mais duro dos EUA”.
Ainda não tinham passado 24 horas sobre o encerramento das urnas, quando Donald Trump veio reivindicar uma “vitória histórica” para si e para os republicanos. Como de costume, enganou-se ou quis enganar quem o ouvia. Os republicanos conseguiram, de facto, manter a maioria no Senado, mas perderam a maioria na Câmara dos Representantes, registando um claro recuo em alguns dos seus bastiões tradicionais.
Os democratas não conseguiram protagonizar a vaga azul (a cor do partido) como desejavam, mas acabaram por beneficiar de uma autêntica vaga rosa: um número inédito de mulheres quis lançar-se na política (mais de oito mil) e muitas delas, mesmo sem experiência, foram eleitas de forma histórica para diferentes níveis da Administração federal e estadual. A começar pelo sítio onde quase tudo se decide, em Washington DC., a capital.
Pela primeira vez, as mulheres ocupam mais de 23% dos lugares no Congresso (a Câmara de Representantes e o Senado). De acordo com as estimativas do Center for American Women and Politics, da Universidade de Rutgers, em New Jersey, foram batidos todos os recordes de participação feminina. Um feito que leva já alguns analistas a falar em 2018 como “o ano das mulheres”, a exemplo do que sucedeu nas eleições de 1992, quando 51 novas legisladoras se instalaram na cidade e duplicaram a representação feminina nas duas câmaras do Parlamento federal dos EUA
Ondas de choque no sistema
Há 26 anos, considerou-se que esse resultado era uma das consequências do escândalo de assédio sexual protagonizado por Clarence Thomas, o então recém-nomeado juiz do Supremo Tribunal que molestou uma jovem académica afro-americana, Anita Hill. Agora, a inesperada chegada de 128 novas congressistas também é interpretada como uma reação direta a três fatores: o discurso e as práticas misóginas de Donald Trump; o movimento #metoo; e o caso Brett Kavanaugh, o juiz nomeado para o Supremo Tribunal acusado de ter agredido Christine Ford, quando ambos eram adolescentes.
Para Kelly Dittmar e Elizabeth C. Tippett, investigadoras e especialistas em questões de género, haver mais congressistas, governadoras ou autarcas na política norte-americana é apenas uma resposta às desigualdades na área do poder. Elas representam 53% da população total do país e continuam em clara minoria no Congresso, controlado por indivíduos do sexo masculino, de meia-idade e maioritariamente milionários. Daí a surpresa pela eleição de tantas mulheres que vão quase de certeza obrigar a ajustes institucionais. Na campanha eleitoral, por exemplo, várias candidatas conseguiram alterar a legislação e canalizar fundos para suportarem as despesas com filhos menores ou com as horas extraordinárias nos infantários. No entanto, tal impacto pode ser muito mais extenso e estrutural: “Estas mulheres vão provocar ondas de choque no Governo – e não só pelo facto de as legisladoras chamarem mais a atenção para as diferenças salariais, as políticas familiares, o assédio sexual, os abusos infantis ou outros temas essenciais que as afetam de forma desproporcional (…). Será muito bom haver mais mulheres no Congresso por uma razão fundamental. Elas podem fazer com que o sistema volte a funcionar”, escreveram Wendy K. Smith e Terry Babcock-Lumish no site académico The Conversation. Acabar com as divisões, negociar com seriedade, chegar a consensos – eis a receita e a promessa de muitas das novas figuras que vão sentar-se no Capitólio dentro de seis semanas. Há, no entanto, algumas exceções. A muçulmana Rashida Tlaib, filha de palestinianos, quer tomar posse e fazer juramento com um exemplar do Corão que pertenceu a Thomas Jefferson (Presidente dos EUA entre 1801 e 1809), além de se propor a acabar com o apoio dos EUA a Israel. Deb Haaland, ameríndia de 57 anos, ainda está a pagar o seu curso universitário e diz-se pronta para defender os povos nativos e destituir Donald Trump. Kyrsten Sinema tornou-se, nesta segunda-feira, 12, a primeira senadora do país a assumir-se como bissexual e vítima de bullying e violação. A lista inclui 128 nomes, outras tantas experiências de vida – e um desígnio comum: mudar os EUA.