Nas últimas semanas, voltou a falar-se com insistência da subida da Euribor. A instabilidade geopolítica e as incertezas económicas internacionais levaram a que estas taxas registassem novos aumentos, o que rapidamente gerou preocupação entre muitas famílias com crédito à habitação.
A reação é compreensível. Em Portugal, a grande maioria dos empréstimos para aquisição de habitação está associada a taxa variável, o que significa que a prestação mensal depende diretamente da evolução da Euribor.
Mas, sempre que este tema regressa às notícias, surgem também vários equívocos — alguns deles com um tom alarmista que nem sempre corresponde à realidade.
Convém, por isso, esclarecer alguns pontos essenciais.
Antes de mais, importa perceber o que é a Euribor. A sigla significa Euro Interbank Offered Rate e corresponde à taxa média a que os bancos da zona euro estão dispostos a emprestar dinheiro entre si no mercado interbancário.
Esta taxa funciona como indexante de muitos contratos de crédito à habitação. A ela é acrescentada uma margem definida pelo banco no momento da contratação do empréstimo, chamada spread. A soma da Euribor com o spread determina a taxa de juro efetivamente aplicada ao crédito.
Por exemplo, se um contrato tiver um spread de 1% e a Euribor estiver em 3%, a taxa aplicada ao empréstimo será de 4%.
Outro ponto que muitas vezes gera confusão é o prazo da Euribor utilizada no contrato.
Existem diferentes prazos de referência aplicados nos contratos de crédito à habitação: 3 meses, 6 meses e 12 meses. Nos contratos mais recentes, os indexantes mais comuns são a Euribor a 6 meses e a 12 meses, embora muitos contratos mais antigos estejam associados à Euribor a 3 meses.
O prazo é muito importante porque determina a frequência com que a prestação é revista — e também porque cada prazo pode apresentar valores diferentes.
E aqui surge um dos equívocos mais frequentes: a ideia de que a prestação da casa muda todos os meses quando a Euribor sobe ou desce.
Na realidade, isso não acontece.
A revisão da prestação é feita apenas na data prevista no contrato e depende do prazo do indexante. Se o crédito estiver associado à Euribor a 3 meses, a revisão ocorre trimestralmente. Se estiver indexado à Euribor a 6 meses, a revisão acontece duas vezes por ano. E, no caso da Euribor a 12 meses, a atualização é feita apenas uma vez por ano.
Isto significa que as variações da Euribor que surgem diariamente nas notícias não se refletem imediatamente na prestação da casa. O impacto apenas ocorre na data de revisão prevista no contrato.
Para além da taxa variável, existem também outras modalidades de taxa de juro que importa compreender.
No caso da taxa fixa, a taxa de juro definida no contrato mantém-se igual durante todo o prazo do empréstimo. Isso significa que a prestação mensal não é afetada pelas oscilações da Euribor ao longo dos anos.
Já nas taxas mistas, o empréstimo divide-se em dois períodos distintos. Num primeiro momento existe uma taxa fixa, que se mantém estável durante um determinado número de meses ou anos. Terminado esse período inicial, o contrato passa para taxa variável, ficando então indexado à Euribor durante o restante prazo do crédito.
Compreender em que regime de taxa se encontra o empréstimo é fundamental para perceber como poderão evoluir as prestações no futuro e de que forma as oscilações da Euribor poderão impactar o crédito.
Para quem tem crédito à habitação em taxa variável, há um aspeto particularmente importante: saber exatamente quando ocorre a próxima revisão da taxa. É essa data que determinará quando a evolução da Euribor será refletida na prestação mensal.
Para o perceber, é necessário conhecer o prazo do indexante e o mês em que foi realizada a escritura do contrato. Por exemplo, para escrituras realizadas em março, as revisões ocorrerão nas seguintes datas:
- Euribor a 3 meses: junho, setembro, dezembro e março
- Euribor a 6 meses: setembro e março
- Euribor a 12 meses: março
Conhecer esta informação permite antecipar cenários e preparar o orçamento familiar com maior tranquilidade.
Em matéria financeira, a melhor estratégia é quase sempre a proatividade. Acompanhar a evolução das taxas, perceber o impacto potencial no crédito e avaliar atempadamente as opções disponíveis permite tomar decisões com maior clareza.
Quando as pessoas só reagem depois de as prestações aumentarem de forma significativa, muitas vezes acabam por tomar decisões sob pressão. E decisões tomadas sob pressão raramente são as mais ponderadas.
Informação e vigilância são, por isso, essenciais. Mas devem andar lado a lado com uma abordagem equilibrada.
Períodos de subida ou descida da Euribor fazem parte do funcionamento normal dos mercados financeiros. Ao longo dos anos, as taxas de juro têm alternado entre ciclos de subida e descida, refletindo as condições económicas e as decisões de política monetária.
Para quem tem crédito à habitação, o mais importante é compreender como funciona o contrato que assinou, acompanhar as datas de revisão e manter uma gestão financeira prudente.
Ter finanças com cabeça não significa antecipar tudo o que pode acontecer na economia. Significa estar informado, agir com antecedência e tomar decisões conscientes.
Porque, quando se trata de crédito à habitação, a diferença entre preocupação e tranquilidade está muitas vezes em algo muito simples: perceber bem como tudo funciona.
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