
Fernando Teles volta a assombrar a vida do BPI
Nuno Fox
Era uma participação já existente, mas estava escondida e disseminada por três acionistas: 1,9 % estava diretamente nas mãos do BIC Angola; e a restante percentagem era detida por Fernando Teles, segundo maior acionista do BIC Angola (com 37,5%) e presidente do conselho de Administração, e Fernando Duarte, outro administrador do banco angolano.
Entendeu agora a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) que estas participações tinham de ser quantificadas em conjunto, pelo que fez cumprir a obrigação de a divulgar. Algo que acontece quando alguém ultrapassa a fasquia dos 2%, como aconteceu.
Esta participação faz do BIC Angola o quinto maior acionista do BPI, logo a seguir à Holding Violas Ferreira (com 2,5% do capital), reforçando assim o poder angolano dentro de um banco que tem o grande desafio de reduzir a sua exposição a Angola. Uma determinação imposta pelo Banco Central Europeu (BCE), que tem de ser cumprida até 10 de Abril.
Acontece que as soluções até aqui encontradas têm sido chumbadas pela Santoro, a empresa de Isabel dos Santos que controla cerca de 19% do BPI, mas que, devido à blindagem dos estatutos, que limita a capacidade de voto aos 20%, tem o mesmo número de votos que o La Caixa, o maior acionista, com mais de 44% do capital.
Está assim explicada a força que Isabel dos Santos tem tido nas votações das assembleias gerais do banco, que não tem aprovado as deliberações da administração. Foi assim com a proposta de cisão dos ativos africanos, no mês passado, em que o Banco de Fomento Angola (BFA), cuja maioria pertence ao BPI, mas com o restante capital nas mãos da Unitel, também de Isabel dos Santos, passaria para uma outra sociedade controlada por uma holding que replicaria a atual estrutura acionista do BPI.
E já foi assim com a desblindagem dos estatutos, que voltou a ser proposta pela administração de Ulrich, mas cuja assembleia não tem ainda data marcada.
A traição de Teles
Para além de parceiros de negócios, Fernando Teles e Isabel dos Santos são cúmplices. O banqueiro, antigo quadro do BPI, não deixou boas recordações na instituição portuguesa. Era ele o CEO do BFA, criado pelo BPI, no país de José Eduardo dos Santos. Na viragem do ano 2000, houve uma pressão das autoridades angolanas para que o BFA abrisse o capital. Fernando Teles sempre ambicionou ser banqueiro, mas o BPI não lhe entregou o poder.
Teles decidiu avançar com o seu próprio projeto e criar, em 2005, um banco concorrente: o BIC Angola, constituído com Isabel dos Santos e Américo Amorim. Mas, para pôr o novo banco a funcionar, vai buscar dezenas largas de quadros ao BFA, deixando-o, na altura, debilitado. Foi considerado uma traição.
Agora, Fernando Teles volta a ter um papel que pode ser importante nos destinos do banco liderado por Fernando Ulrich. O confronto com o poder angolano reforça-se e adensa-se e o Governo de António Costa já assumiu estar atento ao que possa acontecer. Mas, de acordo com os poderes envolvidos, será muito difícil sair do impasse sem que haja uma longa negociação e se chegue a uma consenso entre as partes.