Ao pisar solo qatari, chegamos a duvidar de que o sol que brilha e escalda o inverno do Golfo Pérsico seja o mesmo que, deste lado do mundo, permanece escondido numa camada cinzenta de nuvens chuvosas. Ao vislumbrar a capital, Doha, chegamos a pensar que os arranha-céus de West Bay, recortados no horizonte, como gigantes adornados numa pista de dança, não passam de uma imagem de postal de ocasião colada à parede. Ao caminhar pelas ruas da cidade velha, cruzando-nos com centenas de pessoas de todas as cores, chegamos a questionar se estamos mesmo no segundo país árabe mais pequeno (só o Bahrein é menor) ou se, pelo contrário, passeamos no coração de uma grande metrópole cosmopolita, como Nova Iorque ou Paris. Ao entrar na mesquita Fanar, no Centro Cultural Islâmico, chegamos a duvidar do peso que a religião tem neste país. Ao explorar os labirintos de Souq Waqif, o mercado tradicional de Doha, passando por dezenas de mulheres de cabelo solto ocupadas com as suas vidas, apressadas ou simplesmente sentadas na esplanada de um café a conversar e a fumar, chegamos a questionar se estamos no conservador Qatar ou se todas as descrições feitas, ao longo dos últimos anos, pelos média e ativistas ocidentais, sobre o regime político, social e religioso do primeiro país do Médio Oriente a receber um Mundial de futebol não terão sido, afinal, precipitadas ou mesmo exageradas. Curiosamente, ao mesmo tempo, não são precisas tantas horas em Doha para compreender que as respostas à maior parte das perguntas que este país nos coloca estão todas corretas, mas, ao mesmo tempo, também erradas. Estamos num país que é, de facto, profundamente complexo e confuso. E isso acontece porque, nesta pequena nação peninsular, com pouco mais de 11 mil quilómetros quadrados, não existe apenas um Qatar, mas vários. E a resposta certa a qualquer uma das perguntas que se faça dependerá sempre de quem esteja com dúvidas.
Qataris no topo da pirâmide, mas nem todos os estrangeiros são iguais
