Entre o cinema político, o escândalo judicial e a lenda negra de Gilles de Rais, o advogado Juan Branco estreia-se na realização com um filme que é simultaneamente julgamento histórico, manifesto pessoal e provocação cinematográfica.
A maioria dos filmes nasce de uma obsessão estética do seu realizador ou autor. Porém, O Massacre de Gilles de Rais nasce de algo ainda mais raro: ou seja de uma necessidade política e sobretudo de um cruzamento entre paranoia jurídica, cinefilia de infância e vontade de incendiar o mundo ou pelo menos de o discutir. O responsável por este pequeno artefacto cinematográfico chama-se Juan Branco: advogado, ensaísta, polemista, militante político, inimigo declarado de Emmanuel Macron, defensor de Julian Assange, autor do best-seller panfletário Crépuscule, acusado em França de vários crimes de violência sexual que continuam a ser investigados pela justiça e, detalhe não despiciendo, filho do produtor português Paulo Branco. Com esta biografia, digamos assim… carregada, seria quase impossível fazer um filme tranquilo. Pois, não é o caso. O Massacre de Gilles de Rais é a primeira longa-metragem de Juan Branco e, de certa forma, parece ter sido concebida como um prolongamento natural da sua própria vida: um tribunal permanente onde ninguém sabe muito bem quem é culpado, quem acusa e quem está apenas a assistir.
O monstro que inspirou Barba Azul
Para perceber melhor este filme O Massacre de Gilles de Rais é preciso voltar quase seis séculos atrás na História da França. Gilles de Rais foi um nobre francês do século XV, herói de guerra ao lado de Joana d’Arc e posteriormente acusado de crimes tão grotescos que ainda hoje parecem saídos de um pesadelo medieval: violação, tortura e assassinato de dezenas — ou centenas — de crianças. A sua execução em 1440 transformou-o numa figura mítica da cultura europeia. Muitos historiadores acreditam que foi ele quem inspirou a lenda de Barba Azul, o aristocrata assassino do conto de Charles Perrault. Mas há um detalhe curioso: ao longo dos séculos nunca houve consenso absoluto sobre a sua culpa. Alguns investigadores sustentam que o processo foi uma conspiração política para eliminar um nobre poderoso e endividado. Outros defendem que as confissões finais — arrancadas sob ameaça de tortura — não podem ser consideradas prova. Ou seja: cinco séculos depois, Gilles de Rais continua no banco dos réus. É precisamente esse limbo histórico que interessa a Juan Branco.
Um julgamento filmado numa casa de campo
O dispositivo cinematográfico do filme é deliberadamente minimalista: um jovem casal — interpretado pelos atores portugueses Inês Pires Tavares e João Arrais — decide reencenar o julgamento de Gilles de Rais enquanto vive isolado num espaço fechado. O que começa como um exercício intelectual transforma-se gradualmente num jogo de poder, dominação e dúvida moral. O filme funciona em três níveis simultâneos: o julgamento medieval, baseado nos arquivos históricos traduzidos por Georges Bataille; a relação entre os dois atores, que se confundem progressivamente com as personagens que interpretam; a própria filmagem, improvisada, escrita e reescrita durante a rodagem e segundo consta diariamente enviada por baixo da porta do quarto dos atores . O resultado é um cinema austero, quase ascético, que lembra por momentos a aridez formal de Straub-Huillet ou certos exercícios tardios de Pasolini. O texto domina tudo. A câmara aproxima-se obsessivamente dos rostos. As palavras tornam-se quase uma forma de tortura. Mas há também algo profundamente contemporâneo na premissa: a ideia de que hoje qualquer julgamento pode acontecer fora dos tribunais. Na televisão. Nas redes sociais. Na imprensa. Ou mesmo numa sala de cinema.
O cinema como tribunal
E aqui o filme começa a tornar-se mais interessante e mais incómodo do ponto de vista jurídico e político.Porque O Massacre de Gilles de Rais não fala apenas de um processo medieval. Fala também do presente. Vivemos numa época em que a reputação pública de uma pessoa pode ser destruída em poucas horas, antes de qualquer decisão judicial. O #MeToo, as redes sociais, as guerras mediáticas: tudo isto transformou a opinião pública numa espécie de tribunal permanente. Juan Branco conhece bem esse ambiente. Nos últimos anos tornou-se uma das figuras mais controversas da vida pública francesa. Denunciou elites políticas, atacou os média tradicionais, defendeu causas radicais, representou juridicamente membros dos “coletes amarelos” e publicou livros que acusam o poder parisiense de corrupção sistémica. Mas também se tornou alvo de investigações judiciais graves. Várias mulheres acusaram-no de agressão sexual e violação. Em 2021 foi formalmente indiciado por um juiz de instrução em Paris e colocado sob supervisão judicial. Mais tarde seria suspenso da Ordem dos Advogados após divulgar documentos e informações sobre as denunciantes nas redes sociais. Ou seja: enquanto filmava um julgamento histórico sobre a possível injustiça cometida contra Gilles de Rais, o próprio realizador encontrava-se envolvido em processos judiciais contemporâneos. É impossível ignorar esta coincidência.
Um filme sobre poder
Talvez por isso o filme esteja impregnado de uma tensão particular. A relação entre os dois protagonistas — que alternam entre acusação, defesa e confissão — transforma-se numa metáfora sobre poder masculino, consentimento e dominação. Há momentos em que o filme parece discutir diretamente a lógica do #MeToo: até que ponto a sociedade tem o direito de julgar antes da justiça? O que acontece quando a opinião pública substitui os tribunais? Branco não oferece respostas fáceis. Nem sequer tenta. O filme é deliberadamente ambíguo, desconfortável, às vezes quase hermético. O espectador é obrigado a posicionar-se moralmente a cada momento. E essa talvez seja a sua maior qualidade.
Um gesto radical de cinema
Do ponto de vista cinematográfico, O Massacre de Gilles de Rais é também um manifesto contra o cinema institucional. Rodado com uma equipa mínima, quase sem financiamento e com um dispositivo formal extremamente simples, o filme recorda uma tradição que parece cada vez mais rara: a do cinema como gesto radical. Curiosamente, esse espírito aproxima-o do percurso do próprio pai do realizador, Paulo Branco, um produtor que durante décadas tentou provar que era possível fazer cinema de autor fora das regras industriais dominantes. O filho parece ter herdado essa obstinação.Mas levou-a ainda mais longe: queria lançar o filme online, para contornar os circuitos tradicionais de distribuição e atingir um público que normalmente nunca veria cinema de autor. Para ele, a ideia é simples: o cinema deve voltar a ser um choque. Mas afinal o filme vai estrear nas salas esta semana, com algumas sessões comentadas pelo realizador, no Cinema Nimas.
Um filme imperfeito e necessário
O Massacre de Gilles de Rais está longe, de facto, de ser um filme perfeito ou uma obra-prima do cinema de autor. É irregular, excessivamente textual, por vezes demasiado abstrato. Em certos momentos parece mais um ensaio filosófico filmado do que uma narrativa cinematográfica. Mas talvez seja precisamente essa imperfeição que o torna fascinante e contra-corrente. Num panorama cinematográfico cada vez mais polido, calculado e previsível, há algo refrescante num filme que prefere levantar perguntas incómodas em vez de oferecer respostas tranquilizadoras. E nesse sentido Juan Branco conseguiu algo raro: fazer um primeiro filme que é simultaneamente cinema, provocação e confissão involuntária.
No fundo, a pergunta é simples
Cinco séculos depois da execução de Gilles de Rais, ainda não sabemos se ele foi culpado ou vítima de uma conspiração. Talvez nunca saibamos. Mas o filme de Juan Branco lembra-nos de uma coisa perturbadora: a justiça — histórica ou contemporânea — raramente é tão clara como gostaríamos de acreditar. E no mundo atual, onde todos somos juízes e acusadores ao mesmo tempo, talvez seja essa a verdadeira história que O Massacre de Gilles de Rais quer contar. Não a do monstro medieval. Mas a do tribunal permanente em que se transformou a nossa própria sociedade e a opinião pública.