Berlim já viu de tudo. Já viu revoluções, já viu muros a cair, já viu cineastas a discutir Tarkovski às três da manhã com vodka morna na mão. Mas ontem viu outra coisa: viu a Berlinale viver o seu “Brat Moment”. E, por umas boas duas horas, o Palast deixou de ser alemão, europeu ou político, passou a ser verde-lima fluorescente, pelo menos em espírito. A apresentação de The Moment foi, assumidamente, um ato performativo. Não apenas a estreia de mais um filme — neste caso integrado na secção paralela Panorama, portanto fora de qualquer competição — mas o prolongamento do próprio fenómeno Brat. Ou melhor: o seu funeral coreografado. Porque é disso que estamos a falar. De um filme concebido por Charli xcx — Charlotte Emma Aitchison, britânica, nascida em Cambridge, Inglaterra, em 2 de agosto de 1992, conhecida no messenger por “Kiss Charli Kiss” — escrito e realizado pelo amigo fotógrafo escocês Aidan Zamiri e por Bertie Brandes, que imaginam uma realidade alternativa onde a artista cede à pressão corporativa e compromete a sua visão artística. O filme The Moment (2026), idealizado e protagonizado pela própria Charli xcx, tem produção da famosa A24 — a produtora responsável por grandes êxito do momento, como Marty Supreme, por exemplo — e apresenta um elenco incrível composto por nomes como Kylie Jenner, Alexander Skarsgård (Johannes Godwin), Rachel Sennott, Rosanna Arquette (Tammy Pitman), Kate Berlant (Molly Jean Bush), Jamie Demetriou (Tim Potts), Arielle Dombasle e Julia Fox. E sobretudo, um “e se” cruel e satírico, meio Cisne Negro (2010), de Darren Aronofsky — filme perturbador que nos empurra para territórios de psicanálise —, meio mockumentary pop. Mas vamos por partes. Porque isto merece.
Da margem ao centro
Charli xcx assume-se agora como a artista que saiu das margens e ficou com medo do centro. Na conferência de imprensa, foi aliás surpreendentemente honesta. Disse aquilo que muitos artistas pensam, mas raramente verbalizam com esta clareza: “Durante anos fui uma artista nas margens. Depois do Brat, abri-me a uma audiência muito maior. E com isso veio uma sensação estranha de perda de controlo.” É uma frase simples, mas quase herética no universo pop. A história é conhecida: Brat deixou de ser apenas um álbum de música para se tornar estética, meme, vibração, palavra do ano de 2024. A cultura absorveu-o. As marcas absorveram-no. A política piscou-lhe o olho. E aquilo que nasceu como manifesto hedonista e vulnerável passou a ser produto exportável. Charli xcx, que sempre jogou com a própria imagem, começou a sentir aquilo que descreveu como “a tensão de ficar demasiado tempo”. A pergunta não é nova: quando um artista sai da margem e entra no mainstream, quem é que ganha? E quem é que se perde? The Moment nasce precisamente dessa inquietação.
Um espelho deformado da indústria
Apesar de anunciado como mockumentary, The Moment é muito menos do que um This Is Spinal Tap — o célebre mockumentary (falso documentário) dirigido pelo malogrado Rob Reiner, que satiriza os excessos, clichés e comportamentos absurdos das bandas de heavy metal nos anos 80, acompanhando a digressão americana de uma banda britânica fictícia, os Spinal Tap — e mais um delírio ansioso. Há câmaras nervosas, verité estilizado ao estilo do diretor de fotografia Sean Price Williams, que costuma trabalhar com os irmãos Josh e Bennie Safdie (realizadores de Marty Supreme e Smashing Machine – Coração de Lutador, respetivamente), bastidores saturados e sobretudo uma pop star à beira do colapso, à perna com um realizador corporativo interpretado por Alexander Skarsgård, que parece ter saído de um workshop sobre “como transformar subversão em produto Amazon”. No filme, a editora Atlantic Records pressiona para eternizar o “Brat Summer”. Surgem ideias como um cartão de crédito verde-lima — metáfora óbvia e deliciosa do capitalismo a sugar o hedonismo queer — e um filme-concerto “apetecível” para a plataforma da Amazon. Charli sabe que aquilo é uma armadilha. Mas também sabe que a máquina não para. Na conferência de imprensa, disse algo essencial: “Em que momento é que a arte deixa de nos pertencer?” Não é uma pergunta retórica. É o centro do filme.
Uma das maiores gargalhadas da sessão veio com a referência à participação de Kylie Jenner — também conhecida por ser a namorada de Timothée Chalamet — como versão ficcional de si própria. O realizador Aidan Zamiri explicou que queria confundir os “arqueólogos do futuro”. O filme joga constantemente com essa ambiguidade: o que é real? O que é encenado? O que é auto-paródia? O que é documento? Kylie surge como mitologia pop encarnada. Skarsgård, por sua vez, é o génio auto-importante que suaviza a estética suja e hedonista de Charli para a tornar palatável às massas. Ele entra de gorro e já é engraçado. Nem precisa de falar. Temos ainda Rosanna Arquette, muito séria, a interpretar Tammy Pitman, executiva da editora Atlantic Records. E depois há os momentos silenciosos. A mística esteticista — interpretada pela decana, cantora e atriz franco-americana Arielle Dombasle — que lhe diz: “Estás relaxada no corpo, mas fechada no coração.” Brutal, como o próprio Zamiri admitiu. É nesses instantes que o filme quase abandona a sátira e entra numa zona mais interessante, quando a estrela fica sozinha com a própria insegurança.
Há algo ainda curioso em The Moment. É inteligente. É auto-consciente. É culturalmente fluente. Mas nem sempre é verdadeiramente mordaz. Funciona melhor quando desacelera, quando Charli xcx está cansada, vulnerável, a tentar perceber se vender um cartão de crédito com o nome do álbum é ironia pós-moderna ou apenas rendição. O problema é que, como sátira, morde pouco. Ri da indústria, mas não a desmonta. Questiona o sistema, mas não o explode. Talvez porque o sistema está lá a financiar o próprio riso.
O fim do “Brat Summer”
Na conferência, alguém perguntou se o filme era uma forma de encerramento. Charli xcx respondeu: “No filme, a Charli decide matar o Brat. E sabíamos que isto marcava o fim real dessa campanha.” É uma frase que ecoa, porque há aqui um gesto raro: um artista pop a declarar que quer sair antes de se tornar caricatura de si próprio. Num tempo em que a cultura vive de prolongar ciclos até à exaustão, há algo quase revolucionário em assumir que o hype tem prazo de validade. Mas há também ironia, porque matar o Brat num filme é, simultaneamente, capitalizar sobre o seu próprio cadáver.
O filme estreou no Sundance Film Festival primeiro. Berlinale veio depois. Charli xcx foi clara: “São os espaços onde queremos estar. Filmes com algo a dizer.” E aqui há uma mudança interessante. Não estamos perante mais um filme-concerto ou produto promocional. Estamos perante uma tentativa — sincera, ainda que irregular — de dialogar com o cinema enquanto linguagem. Zamiri falou da câmara como personagem, da necessidade de parecer espontânea, de não antecipar falas. Há ambição formal. Há desejo de não fazer apenas um spin-off audiovisual. O resultado? Irregular, sim. Confuso por vezes. Mas muito vivo.
The Moment não é um clássico do cinema e jamais será. Não é devastador. Não é genial. Mas também não é um objeto vazio. É um filme sobre o medo de perder controlo quando finalmente se ganha o mundo, sobre a ansiedade de ser absorvido pela própria fama, sobre o dilema eterno: ser rebelde ou rentável? Charli ri. Zamiri estiliza. O sistema continua. Mas, por duas horas, Berlim foi “Bratlinale”. E isso, goste-se ou não, é sintoma de uma coisa: a cultura pop também entra nos cinemas, da Berlinale. Entra pela porta principal, de salto alto fluorescente verde, e senta-se na fila da frente. Se vai ficar? Ou se é apenas mais um momento? Bem… como a própria Charli xcx disse, não se pode fugir do fim quando ele chega.