Mesmo após as humilhações na Polícia Judiciária (PJ), e já com a PIDE a vigiá-lo, Cesariny nunca travou a pulsão erótica e transgressora: ao final da tarde, continuou a ir ao Cais do Sodré esperar as embarcações da Marinha, que traziam os marujos da Escola Naval do Alfeite, e a enrolar-se com algum no quarto de uma pensão rasca. “Eles tinham obrigatoriamente de andar fardados e, quando recebiam a farda, iam à costureira para aquilo ficar bem, bem, bem ajustadinho. Era uma coisa! Só faltava não terem mesmo calças, não é?”, comentou, em Verso de Autografia (Assírio & Alvim), livro-complemento ao documentário de Miguel Gonçalves Mendes, que reúne conversas excluídas do filme.
Estivera preso, a primeira vez, em 1953, no Torel, depois de fisgado pela polícia dos costumes por vagabundagem. Durante cinco anos, obrigaram-no a apresentações periódicas na PJ, atado a suspeitas sem fim. “Uma vez, disse-lhes: ‘Sim, senhor, eu sou homossexual, escreva aí.’ Mas o outro não quis escrever, porque com a confissão acabava-se a fita.” Ao princípio, até levara aquilo com “certa alegria, achava graça”. Dentro do “odioso”, claro. “Tinha de lá ir todos os meses como as putas”. Na verdade, destroçou-o. “Nada de grandioso”, admitiu, recusando confundir-se com “gente, que levou uma vida de luta política direta e que foi presa, castigada, perseguida por motivos ideológicos”, pela qual tinha “muito respeito” e “orgulho”.
