Nasceu a 20 de janeiro do século passado, o homem feérico, fenomenal, formidável, fabuloso, fogoso, fazedor, feliz, fecundo, felino, faraónico. Mas quantos adjetivos, superlativos e piruetas verbais são mesmos necessários para abraçar o universo cinematográfico de Federico Fellini (1920-1993)? Ainda que certeiros, todos poderiam ser centrados, como num lento travelling, nessa única palavra: felliniano. Poucos realizadores de cinema, se é que mais algum, poderão vangloriar-se de ter alcançado a honra de entrada nos dicionários; a criação de um termo que traduz instantaneamente a obra profundamente autoral do cineasta italiano, sempre a saltitar entre os cenários barroquizantes e as ruas desbragadas, italianissimas. Condição humana, pois, mas filmada com um olhar inconfundível que não perde de vista o lado onírico, a sátira implacável, o exagero, a generosidade dos corpos, até quando estes eram filmados no limiar da decadência.

Um Fellini é essa cena maravilhosa ancorada n’O Navio (1983), quando o jornalista Orlando (interpretado por Freddie Jones) conduz o público à descoberta de um concerto de copos de cristal a acontecer na cozinha do luxuoso navio fretado para o funeral de uma cantora de ópera: os músicos deslizam os dedos na borda das delicadas taças, interpretando o Momento Musical nº 3 em Lá menor de Franz Schubert, para uma assistência de criadagem enfarinhada em fardas brancas, a rodar as colheres nas panelas gigantes, ao lado de uma pirâmide de gaiolas com galinhas. Felliniano é o corpo desmesurado da diva Anita Ekberg, decote vertiginoso e cabelos loiros, a banhar-se na Fontana di Trevi, em La Dolce Vita (1960), e a exigir ao jornalista que a acompanha (um sedutor-seduzido Marcello Mastroianni que usa óculos escuros até sob as luzes noturnas) que descubra leite para alimentar um gatinho vadio encontrado na rua. Irredutivelmente felliniano é o parque de diversões, com poço da morte incluído, por onde escorrega Snàporaz (ainda o velho cúmplice Mastroianni) numa cena de A Cidade das Mulheres (1980), bem como as rodas luminosas a enquadrar as recordações das mulheres de seios fartos que marcaram a sua juventude – sem esquecer o delirante congresso feminista com patinadoras agressivas que perseguem o protagonista nesta película dita autobiográfica e que Freud adoraria explicar. E alguém se lembraria alguma vez de definir a Gelsomina, palhaça pobre do terno drama em fundo circense A Estrada, como rosselliniana ou viscontiana ou bertolucciana?

Este gosto pela extravaganza, quase sempre presente numa carreira longa, a roçar as cinco décadas, foi amplamente reconhecido. Rezam os encómios estatísticos que Federico Fellini teve 12 nomeações aos Oscars, tendo arrebatado por quatro vezes a estatueta para o melhor filme estrangeiro, atribuída às películas exemplarmente fellinianas: A Estrada (1954), As Noites de Cabíria (1957), 8 1/2 (1963) e Amarcord (1973). Um currículo que faz dele o realizador com mais Oscars ganhos nesta categoria (pódio partilhado com um conterrâneo, o elegante Vittorio de Sica, realizador do neorrealista Ladrões de Bicicletas). A esta galeria de troféus, o realizador e argumentista juntou igualmente o Oscar de Carreira (recebido em 1993) e a Palma de Ouro do Festival de Cannes para La Dolce Vita (1960), fora os elogios de revistas-tribunas, como a Cahiers du Cinéma e a Sight & Sound, que arrumaram várias obras suas nas listas de melhores filmes de todos os tempos. E qualquer amante de cinema jura pela originalidade, ainda intacta, desta galáxia cinematográfica: Martin Scorsese, por exemplo, declarou que todos os anos revê 8 1/2.
O centenário do seu nascimento, assinalado a 20 de janeiro, é uma passadeira vermelha para desenrolar todos os fios da obra de Federico Fellini: Itália prepara-se para inaugurar um museu dedicado ao mestre das narrativas cinematográficas, há uma exposição itinerante para ver (sem datas marcadas para Portugal) e anunciam-se retrospetivas de filmes em muitas latitudes. Em Lisboa, a Cinemateca Portuguesa assinala o centésimo aniversário do nascimento do mestre com a passagem do documentário Ciao, Federico!, realizado em 1969 por Gideon Bachmann. Este cineasta alemão (1927-2016), que, ao conhecer Fellini no fim dos anos 50 do século XX, ambicionou escrever um livro sobre o cineasta italiano, acabaria por documentar, em fotografia e em vídeo, as rodagens de 8 1/2, Julieta dos Espíritos e Satyricon. E é sobre este último filme que se debruça o documentário agora apresentado na capital portuguesa. Neste, vê-se Fellini, gigante possante com o chapéu na cabeça, por entre microfones da Imprensa e visitas ao set de rodagem (como foi o caso de Roman Polanski e a então mulher, Sharon Tate, claramente dominados pela presença afetuosa e extrovertida do italiano). Federico caminha como quem foge da câmara, perseguido pela voz off que o descreve assim: “Não creio que tenha medo de Deus. Tem medo do sobrenatural. Fascina-o. É crente… À noite, tem medo de estar só. Um menino sem defesa. Sempre partiu da sua fantasia transbordante.”
Regresse-se ao trapézio dos adjetivos. Transbordante, fulgurante… Antes de Federico ser Fellini, foi um menino nascido em Rimini, a 20 de janeiro de 1920, na indiferente Via Dardanelli. A sua família de classe média mudaria depois para o Palazzo Ripa e para o Palazzo Ceschina, até desaguar finalmente, premonitoriamente, na Via Dante. Filho de um padeiro tornado vendedor ambulante e de uma burguesa católica, cuja família não perdoou a descida na escada social por via da fuga do casal, Federico viveu a infância com dois irmãos: Ricardo, que cresceria para ser realizador no canal de televisão RAI, e Maria Maddalena, responsável pela criação da Fundação Federico Fellini, em 1995, dois anos após a morte do irmão artista. A cidade natal funcionou como um modelo usado nos lugares imaginários da sua cinematografia; ou, como caracterizam os curadores da exposição Fellini 100. Genio Imortale, foi aí que “ele começou por criar a mitologia da infância que pode ser encontrada em todas as suas obras”. Fellini repudiava as “classificações apressadas” que insistiam em tintar todas as suas películas como objetos autobiográficos. Mentia a quem tentava escrever umas linhas sobre ele, ou escapava-se: “Sabe-se lá que mulher maravilhosa irá atravessar a Piazza di San Silvestro… Porque não vamos ver em vez de estares aqui a entrevistar-me?”, atirou ao jornalista Giovanni Grazzini no volume-entrevista Fellini por Fellini (1983). “Sou um grande mentiroso, a minha verdade é inventada”, proclamava o realizador. Preferia afirmar-se como um demiurgo da imaginação que tudo (re)inventara pelo simples prazer criativo – incluindo as memórias de infância. Mas reveja-se, por exemplo, Amarcord e as pontas soltas começam a atar-se…

O realizador descreveria a sua Rimini como “caótica, confusa, medrosa, terna”. Mas, para ele, a pequena cidade incendiava-se nas matinés do velho cinema Fulgor, no nº 162 da Corso d’Augusto. Na sala, ainda despida dos ricos veludos vermelhos e candelabro de cristal pendurado no pós-restauro de 2018, Federico viu o primeiro de muitos filmes: Maciste all’Inferno (1925), de Guido Brignone, exemplar do chamado género peplum, com uma personagem da Antiguidade, Maciste, que antes aparecera igualmente no épico Cabíria (1914) de Giovanni Pastrone. Estes fios todos haveriam de cruzar-se no futuro. A primeira experiência cinematográfica enquanto espectador, uma revolução, seria evocada em Roma (1972), filme dedicado à cidade para onde Fellini foi viver aos 18 anos, matriculado numa escola de Direito onde nunca pôs os pés. Ainda não o sabia, mas iria entrar no cinema por uma porta grande, estreando-se como argumentista de Roma, Cidade Aberta (1945) de Roberto Rossellini.
Antes disso, foi pobre e provinciano, confessando no acima citado Fellini por Fellini que, no seu “muito breve” período boémio, inventou “fugas de hoteizinhos com a mala atirada pelas janelas”. Mas experimentou o jornalismo, rapidamente trocando-o pela escrita humorística em revistas e pela criação de sketches burlescos na rádio. Aqui, teve o encontro da sua vida: Giulietta Masina. O casamento entre o portentoso Federico e a delicada Giulieta durou 50 anos – o cineasta morreu a 31 de outubro de 1993, no dia a seguir à comemoração das bodas de ouro. O coração, esse grande companheiro da sua cinematografia, atraiçoou-o (e a mulher seguiu-o, cinco meses depois). Masina fez entoar uma música especial no funeral de Fellini: Improvviso dell’Angelo, retirado de A Estrada e composto por Nino Rota (1911-1979). O compositor assinara todas as bandas sonoras dos filmes fellinianos e, tal como o poeta e guionista Tonino Guerra (1920-2012), é uma figura fundamental na construção da mitologia cinematográfica felliniana.

Mas a mulher que deu o rosto a tantos dos seus filmes era quem Federico Fellini temia perder, como revelou em incontáveis desenhos do seu célebre Livro dos Sonhos; num deles, o realizador retrata-se a chorar, contemplando Giulietta morta, transfigurada como a fada azul de Pinóquio. Também nos cadernos oníricos, emerge o lado negro deste bom gigante: cenas em que se via preso a carris de comboio, ameaçado por bombas atómicas, envolvido em cenas escatológicas, roubado da sua imaginação, cheio de autodesprezo. Poucos outros foram tão implacáveis com Fellini como ele próprio: mas a BBC recordou recentemente a crítica da norte-americana Pauline Kael sobre 8 1/2, que achava ser “surpreendentemente parecido com os sonhos das heroínas de Hollywood, levado por ideias de ansiedade freudianas e realização de desejos”. Espécie de Hollywood? Talvez só no aeroporto de Lisboa, quando o casal Fellini foi recebido em apoteose, em 1957, e Federico, o Grande, respondeu com finura de star que sentiu ser o seu dever vir agradecer o acolhimento dado a Cabíria por parte do público português.

As comemorações do centenário de nascimento de Federico Fellini têm dois trunfos: o primeiro museu dedicado ao realizador italiano inaugura em dezembro em Rimini, a cidade onde nasceu, com a ambição de ser um lugar “sem paredes”, um museu aberto à rua e aos lugares icónicos da biografia e da cinematografia do gignate da 7ª Arte. O projeto do Museu Internacional Fellini materializa-se em três pólos diferentes: o Fulgor Casa del Cinema (cinema da infância de Federico, reinaugurado em 2018, com projeto do cenógrafo três vezes oscarizado Dante Ferretti); o Castelo Sismondo, grande estrutura renascentista onde estará a “espetacular máquina de ilusões” do realizador; e uma “praça de sonhos” chamada CircAmarcord que terá obras de arte ao ar livre.
Vista como uma antecipação deste novo museu, a exposição Fellini 100. Genio Immortale, inaugurada precisamente em Rimini em dezembro passado, organiza, à imagem de cenários de cinema, três grandes temas (a História de Itália nas décadas de 1920-30; os cúmplices do realizador; o projeto final do novo museu). Aí se revela uma arca quase inesgotável de materiais: películas, adereços e figurinos, documentários e material documental (guiões, cartas pessoais, mensagens de trabalho aos cúmplices e aos atores, partituras, entrevistas…). Tudo para ver até 15 de março; depois, a mostra segue para as cidades de Roma, Moscovo e Berlim.





