E não é que parece que somos mesmos nós, os portugueses? Este povo fantasista lusitano, carregado de melancolia e menosprezo continua a exercer algum magnetismo sobre realizadores com Raoul Ruiz. Pelo menos, é o que o franco-chileno, 69 anos, autor de mais de 100 obras (em vários formatos e suportes) tem dito em entrevistas em França, a propósito das 600 páginas dos folhetins de Camilo Castelo Branco,
Os Mistérios de Lisboa, reduzidas (o verbo reduzir é mesmo para gerar contraste…) a quatro horas e meia de filme (estreia-se hoje, dia 21) e a seis episódios de série televisiva (no canal ARTE em Abril de 2011). Misterioso, de facto. Parece que há qualquer coisa no nosso silêncio. Nas pausas que fazemos quando falamos. Um certo ritmo langoroso que nos impõe a língua e o sentido de ser português. Por isso é que quando lhe Paulo Branco (com quem já colaborou em diversas ocasiões) lhe propôs os Mistérios de Lisboa (1854), de Camilo Castelo Branco, ou um romance de Don Delilo, Ruiz escolheu logo a obra do nosso mais truculento, reaccionário e genial escritor do romantismo. Ao realizador interessava-lhe em termos cinematográficos os tais “silêncios”, queria mostrar o ritmo da conversação portuguesa, tão diferente, diz ele, da língua francesa que dá um peso diferente aos diálogos e às palavras. O francês é mais peremptório, o português admite uma forma especial de divagar, de conversar erraticamente, o que, ainda segundo Ruiz, faz parte da vida e do carácter das gentes. As nossas.
Daí ter Ruiz (Tempo Reencontrado, 1999, ou Klimt, 2006) mergulhado neste universo exarcebado de amores de carnalidade pecaminosa, de heroínas febris com olheiras maceradas que sofrem ultrajes e ignomínias, de reclusões conventuais, de filhos enjeitados e bastardos inglórios, de fidalgos que se batem pela honra, de padres atormentados e piratas redimidos… Contava então Camilo 29 anos, os Mistérios era a sua segunda incursão literária, a escrita, ainda não apurada, desfiavam-se em folhetins num diário portuense. Tão distante ainda da perfeição alcançada em Amor de Perdição, já obra da maturidade, aos 35 anos, escrita, aliás, romanticamente nas masmorras, negando o réu Camilo a pés juntos a sua relação ilícita com Ana Plácido. Só que o que em Amor de Perdição era hipérbole, em Mistérios de Lisboa é caricatura. Das suas páginas pigam lágrimas, lamentos e sentimentalismo. É impossível levar a sério o que seria uma espécie de telenovela à século XIX, de consumo pouco exigente. Daí o inteligente estratagema de, no filme, colocar-se em campo um teatrinho de brinquedo. Onde se vai, a cada mistério, acrescentando mais uma personagem. É um assumir do artificialismo. O filme segue a lógica coral e folhetinesca dos Mistérios, de uma forma desconcertantemente linear e metódica. A cada personagem, se abre como que um novo capítulo, muda-se de narrador, de ponto de vista e de voz off. Nem uma gota do vale de lágrimas que se esvai pela tela nos atinge, a emoção não passa, mas tudo está filmado com predominância dos planos-sequência, sem a habitual gramática dos campos e contra-campos. Aliás, às vezes, Ruiz abre tanto o ângulo que apanha grandes quadros, objectos, um papagaio, velas em primeiro plano, personagens ao fundo, transparências e duplos enquandramentos, através de janelas, portas entreabertas, ou as portinholas das caleças. Os décors, os figurinos, a direcção de actores estão a um nível a que não estamos habituados em produções de época nacionais. Os Mistérios enchem o olho, mas no bom sentido. No do bom gosto, pelo menos. E têm a prudência de estacar ainda antes de soar os alarmes do sentido do ridículo. Mas Ruiz não acha que o sentimentalismo do romance seja uma extravagância. Durante uma longa estadia em Portugal, a convalescer de uma doença, convenceu-se que nós éramos mesmo assim. As pessoas choram imenso, em Portugal, comentou. Um homem chorar é, entre nós, a coisa mais normal do mundo, concluiu. Padecemos de melancolia congénita: “Todos os computadores têm memória, os de Portugal têm uma vaga lembrança”. E nota que na televisão portuguesa se vêem séries como os Tudors, em que os episódios vão passando aleatoriamente: ou seja num episódio corta-se a cabeça a Henrique VIII e na semana seguinte ela já está de novo em cima dos seus ombros – o que dá um interesse, comenta, tarantinesco à medíocre série. Somos gente estranha, portanto. E Ruiz até encontrou algumas semelhanças entre os portugueses e os chilenos: o mesmo olhar vago. Aliás, conta a mesma piada em relação a ambos os povos. Como costumam ver filmes legendados, quando um estrangeiro os aborda na rua, eles olha para abaixo, para a linha dos ombros à procura da legenda.