A Cova da Moura talvez seja o maior monstro papão da sociedade portuguesa. Por que a resolveu filmar?
Rui Simões: Com a idade começo a achar que tenho uma costela de militante, apesar de nunca ter sido militante de coisa nenhuma. A dado momento apercebi-me de que ia haver uma operação imobiliária na Cova da Moura, para deitar aquilo abaixo e construir outra coisa. A Cova da Moura sempre foi muito tratada pela televisão e pela imprensa em geral, mas sempre por causa da droga e de histórias de polícias e ladrões. Por isso, seria muito fácil bater naquilo.
O que seria injusto?
Mais uma vez, pareceu-me possível ajudar com o cinema a perceber o que realmente se passa. Então, fui lá, comecei a falar com as pessoas, conheci o Moinho da Juventude. Achei que era um absurdo destruir aquele património, uma comunidade de emigrantes capaz de se reinventar como se estivesse em Cabo Verde – reconstruir as suas casas, o seu urbanismo, a sua forma de vida, o seu habitat, com festas tradicionais, gastronomia… E transpor isso tudo para a Buraca, que é um sítio insuportável, criando um bairro dinâmico e agradável, em que as pessoas vivem em comunidade, com a sua cultura original, pacificamente, independentemente da história do tráfego que existe por todo o lado, nos bairros todos. Comecei a contactar as pessoas, a interessar-me cada vez mais, e a fazer daquela a minha causa, com toda a naturalidade. O projecto começou há três, quatro anos, quando houve o arrastão e outras coisas, e pareceu-me que a imprensa não estava a tratar daquilo bem.
Foi fácil entrar no bairro?
Sim, a partir do momento em que explicámos o que queremos fazer…respeitamos as pessoas e as pessoas também nos respeitam. A troca começa a fazer-se. Sempre fui bem tratado em Cabo Verde, sempre fui bem tratado na Cova da Moura. Não tenho razão de queixa absolutamente nenhuma, andei com a minha equipa por ali, com as máquinas, os equipamentos, dias e dias. Nos últimos três quatro anos, filmei regularmente ali.
Procurou olhar para a Cova da Moura das mais diferentes perspectivas…
Sim, tentei evitar apenas aquela especulação sobre o tráfico. Não me interessa para nada, mas está lá. O filme, de resto, começa com a habitual notícia de televisão, sobre a Cova da Moura, mas depois vai-se desconstruindo, à medida que vou descobrindo as pessoas. Quis mostrar que é um bairro onde vive gente e se construiu um universo, que é um património português. E eu tenho direito àquele património. Muito perto de minha casa, posso chegar a um ambiente com hábitos e costumes diferentes dos meus, e que vive como uma comunidade, segundo a tradição de um país que foi colonizado pelo meu durante centenas de anos. Hoje aquilo está ali e eu tenho que o respeitar.
Qual é a próxima investida?
Tenho um segundo filme, em fase de montagem, que surgiu da minha relação com a Cova da Moura. Convidaram-me para apadrinhar um grupo de dança, os Cola Sanjon. O Moinho do Juventude organizou uma viagem do grupo da Cova da Moura à ilha de Santo Antão, onde se celebra a festa de São João Baptista. Acompanhei-os e fiz um filme da viagem destes emigrantes que vão ter com as suas famílias. E também da própria festa religiosa, que é uma procissão em que vai toda a gente a dançar.