A decisão do Governo em avançar com o modelo de Linha Circular para o Metropolitano de Lisboa, em detrimento do trajeto em “laço”, é um erro histórico de planeamento, uma afronta direta às populações das cidades a norte da capital e um desrespeito por todos aqueles que acreditaram nas promessas do PSD.
Ao decidir romper a ligação direta que a linha amarela assegura entre Odivelas e o centro financeiro e cultural de Lisboa, a opção política revela uma visão centralista que prioriza a mobilidade urbana de curta distância e os fluxos turísticos em detrimento das centenas de milhares de cidadãos que diariamente se deslocam para trabalhar e estudar.
Atualmente, a linha amarela absorve o fluxo contínuo de utilizadores oriundos das estações de Odivelas, Senhor Roubado, Ameixoeira, Lumiar e Quinta das Conchas, transportando em massa esta população diretamente para eixos fundamentais como Entrecampos, Saldanha, Marquês de Pombal e Rato. É comum que as carruagens do metropolitano saiam repletas logo na segunda estação, ainda antes de passar pela populosa freguesia do Lumiar.
Com a introdução da Linha Circular, todo este volume humano deixa de ter acesso direto ao coração da cidade, sendo forçado a fazer um transbordo, obrigatoriamente, na estação do Campo Grande.
O cenário antevisto no Campo Grande é operacionalmente antecipavel. Trata-se de uma interface que já hoje opera no limite da sua capacidade nas horas de ponta. Impor que dezenas de milhares de passageiros vindos de Odivelas saiam dos comboios para tentar entrar numa Linha Circular cujas carruagens já chegarão lotadas de outras proveniências é criar um autêntico funil e um estrangulamento na rede.
O absurdo do planeamento atinge o seu ponto alto ao perspetivar a futura Linha Violeta (LRT), destinada a prolongar a rede até ao concelho de Loures. Quando essa infraestrutura estiver concluída, os residentes de Loures que pretendam deslocar-se ao centro da capital serão submetidos à ridícula exigência de realizar dois transbordos consecutivos numa única viagem: primeiro na transição do metro ligeiro para a Linha Amarela e, logo em seguida, no Campo Grande para a Linha Circular.
Esta desconsideração fica mais evidente quando os autarcas sabem desta decisão através da comunicação social, ao arrepio de todas as promessas eleitorais e posições políticas do PSD.
A Câmara Municipal de Odivelas tem liderado a oposição a este desenho de rede, defendendo de forma clara e fundamentada a solução do trajeto em “laço”, uma alternativa técnica viável e que atenuaria os efeitos barreira que uma linha circular tão próxima do CBD da capital naturalmente vai criar.
O caminho seguido em Lisboa contrapõe-se de forma gritante às lições aprendidas e aplicadas no resto da Europa. Grandes metrópoles europeias já abandonaram ou reformularam o conceito de linhas circulares fechadas no interior das suas redes radiais devido às barreiras de mobilidade que criam.
O caso de Londres é emblemático: a famosa Circle Line provocou durante anos estrangulamentos crónicos de capacidade e atrasos em cadeia por toda a rede, o que levou a Transport for London a quebrar a circularidade em 2009, transformando a operação num modelo em espiral para priorizar a fiabilidade das linhas de penetração periférica. Por sua vez, capitais como Madrid (com a Línea 6) ou Berlim (com a Ringbahn) desenharam as suas linhas circulares para orbitalmente conectar periferias e linhas radiais externas, e nunca para cortar a entrada direta no centro da cidade.
Ao optar pelo fecho da Linha Circular no interior da capital, o Governo português obta por construir barreiras físicas à coesão territorial, com um transbordo que não existe atualmente e hipotecando a expansão do metropolitano que já prevê um outro transbordo entre Loures e Odivelas.
O tempo demonstrará que o Metropolitano de Lisboa deverá acompanhar os movimentos pendulares atuais da AML, expandindo-se para onde vivem os trabalhadores de Lisboa, não se fechando nesta.
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