Enric Palau, 58 anos, lembra-se bem da primeira edição do festival Sónar que organizou, com mais dois parceiros, em Barcelona, em 1994. A ideia era apostar em músicas mais experimentais, com uma grande atenção à cena da eletrónica de dança, que então se afirmava em várias cidades, sem perder de vista os avanços tecnológicos e a sua relação com as artes e a criação. Tinham só dois espaços: um para a programação diurna e outro para a noturna (uma separação que, mesmo com muitos mais palcos e salas, continua a fazer parte da identidade do festival), e a ambição foi logo a de fazer um “encontro internacional”.
Depois de dois anos de preparação, Enric recorda o primeiro grande impacto: “A sensação de que juntávamos públicos de âmbitos diferentes; houve uma mistura de um público mais académico e interessado em artes experimentais e de vanguarda com outro mais jovem, frequentador de clubes, à procura de música eletrónica de dança… Poderia parecer um choque, mas não, foi muito orgânico e natural.” Já lá vão quase 30 anos e, com um sorriso, Enric lembra que não havia ainda telemóveis e a internet era uma espécie de mistério ultraminoritário. Mas, com a tecnologia RDSI [Rede Digital de Serviços Integrados], conseguiram fazer uma sessão que juntou três músicos a tocar em simultâneo: um em Barcelona, outro em Paris e outro ainda em Roterdão. “Havia um delay de alguns segundos”, lembra. “Hoje, qualquer pessoa com um telemóvel na mão e o Skype ou o Teams consegue fazer isso facilmente!”
O Sónar cresceu, e muito. Com essa identidade híbrida mas bem definida, chegou, já neste século, a cidades como Bogotá, São Paulo, Buenos Aires, Tóquio, Hong Kong, Istambul e muitas mais (cerca de 50). Em 2022, vai acontecer finalmente em Lisboa. Entre esta sexta, 8, e domingo, 10, espalha-se por quatro espaços principais: o Hub Criativo do Beato (onde há exposições e instalações e acontece o Sónar +D, com um programa diurno de conferências sobre temas como Inteligência Artificial e Algoritmos, Intersecções entre Arte, Ciência, Ecologia e Alterações Climáticas, Tecnologias Criativas e Economias Digitais), o Centro de Congressos de Lisboa (ex-FIL), o Coliseu dos Recreios e o Pavilhão Carlos Lopes (estes três últimos, mais dedicados à programação musical, com o Carlos Lopes a ter também uma ocupação diurna).
Tudo começou com um email enviado para Barcelona por João Menezes, em janeiro de 2020. Ainda não o sabia, mas o momento era péssimo, com uma pandemia mesmo a chegar… Mesmo assim, o processo fez o seu caminho e vai concretizar-se, mais de dois anos depois, na primeira edição do Sónar Lisboa (há um acordo para que se repita nos próximos quatro anos). João trabalhou na reabilitação dos bairros do Intendente e da Mouraria, que foi uma das imagens de marca da presidência de António Costa na Câmara Municipal de Lisboa. “Fiquei com uma ligação próxima à ideia de transformação duma cidade que se questiona e revitaliza, orgulhosa das suas heranças. Foi uma experiência que permaneceu, que se entranhou”, conta à VISÃO.
Agora, acredita que o Sónar vem ocupar um lugar novo numa Lisboa que já tem uma grande oferta cultural: “Temos, por exemplo, a Web Summit e muitos festivais, mas faltava um momento que juntasse tudo: tecnologia, criatividade e música.” O seu grande objetivo é, 28 anos após a estreia do Sónar em Barcelona, ter as mesmas sensações que Enric teve ao ver uma grande mistura de públicos: “Que seja uma festa e experiência marcante para todos, artistas e músicos incluídos. Espero que desses cruzamentos até possam resultar projetos futuros.” E é com um misto de excitação e orgulho que fala do Sónar como “o primeiro grande festival pós-pandemia”, que vai acontecer quase sem restrições.
Ver programação completa aqui.
8 momentos a não perder no Sónar Lisboa
1. Training Virtual Dancers
Um espetáculo que põe em comunicação dois universos aparentemente tão díspares como a Inteligência Artificial e os movimentos dos corpos na dança. Os artistas visuais da empresa Hamill Industries (sediada em Barcelona), a coreógrafa Kiani del Valle e especialistas em Inteligência Artificial da universidade UPC – Barcelona Tech juntaram-se para criar um coletivo de dança em que seres artificiais aprendem com os humanos – ou será o contrário? Hub Criativo do Beato, Fábrica do Pão > sáb 9, 19h
2. Floating Points

O disco Promises (em colaboração com o saxofonista Pharoah Sanders e a Orquestra Sinfónica de Londres) esteve em praticamente todas as listas dos melhores do ano passado. Em Lisboa, Floating Points (nome artístico do inglês Sam Shepherd) deve apresentar um dos seus DJ Sets sempre abertos a música das mais diversas proveniências geográficas. Coliseu dos Recreios > sáb 9, 2h
3. Arca

Em 2021, editou não um, não dois, não três, mas quatro álbuns, praticamente em simultâneo. A sua identidade é difícil de definir, mas, muitas vezes comparada com Björk (com quem colaborou), esta artista de origem venezuelana é uma das mais estimulantes e influentes na cena atual das fronteiras entre pop, eletrónica e (muita) experimentação. A sua atuação é uma das mais esperadas deste Sónar, até porque com Arca (aliás, Alejandro; aliás, Alejandra) nunca se sabe bem o que esperar… Pavilhão Carlos Lopes > 8 abr, 00h15
4. Thundercat

Fez o percurso pouco habitual de passar de baixista virtuoso tocando com outros músicos a frontman, com discografia e concertos em nome próprio. Desde o início da carreira na banda Suicidal Tendencies, muito mudou, e a lista dos músicos com os quais já tocou (Kamasi Washington, Erykah Badu, Kendrick Lamar, Childish Gambino e muitos outros) mostra bem o poder do californiano Stephen Lee Bruner, mais conhecido como Thundercat, como baixista em diversos géneros. Pavilhão Carlos Lopes, sex 8, 22h
5. Nina Kraviz

Nasceu há 40 anos, na Sibéria, foi para Moscovo estudar para ser dentista mas… acabou por se tornar uma DJ com reconhecimento mundial. O seu percurso acompanhou, aliás, a explosão para o grande público da música eletrónica de dança popularizada por DJ que, sozinhos, se tornaram superstars. Como cabeça de cartaz em pistas apinhadas ou em lugares carismáticos, como a Torre Eiffel ou a Grande Muralha da China, é a mulher mais bem-sucedida no universo da música techno. Centro de Congressos de Lisboa > sáb 9, 4h30
6. Dengue Dengue Dengue

Por detrás das máscaras estão Felipe Salmon e Rafael Pereira, uma dupla sediada em Lima, no Peru. Dedicam-se tanto à música como ao design. Nas suas atuações, misturam-se ritmos latino-americanos e psicadelismo; vão da cúmbia ao dub ou da salsa ao techno enquanto o diablo esfrega um olho… Os seus dois discos mais recentes, em que é mais claro o interesse da dupla pelas raízes da música do seu país (com claros ecos africanos), têm a marca da lisboeta Enchufada, a editora fundada em 2006 por Branko e Kalaf Ângelo (dois ex-Buraka Som Sistema). A identidade do Sónar, um festival que aposta em noites longas, estará bem presente aqui: os Dengue Dengue Dengue começam o seu espetáculo às 4h45, convidando a danças hipnóticas pela madrugada fora… Pavilhão Carlos Lopes > sáb 9, 4h45
7. Nídia

Os programadores do Sónar Lisboa tiveram a preocupação de se sintonizar com o que se vai fazendo em Portugal, e isso é claro em vários momentos. Um dos projetos que mais os entusiasmou foi a editora Príncipe. E dentro desta música de dança eletrónica, sempre com um pé nos ritmos africanos, um dos nomes que se têm destacado nos últimos anos é o de Nídia, de uma família com origens na Guiné-Bissau mas hoje uma verdadeira cidadã do mundo, com atuações, e colaborações, um pouco por todo o lado. Pavilhão Carlos Lopes > sex 8, 23h05

8. Eu.Clides
Nasceu em Cabo Verde, em 1996, mas cresceu em Portugal, sempre com uma paixão pela música. Depois de ter tocado com a banda senegalesa Daara J Family e com Mayra Andrade, nos últimos anos tem-se afirmado como autor das suas próprias canções, em que os ecos da música do seu arquipélago se misturam com referências contemporâneas e uma eletrónica subtil e elegante. A atuação no Sónar acontece no momento em que se aguarda o seu álbum de estreia, o que só aguça ainda mais a curiosidade. Pavilhão Carlos Lopes > dom 10, 17h
