Dolly Parton morreu aos 80 anos e, com ela, desaparece uma dessas raríssimas figuras que pareciam ter conseguido um acordo privado com a cultura popular: podia ser excessiva sem ser ridícula, sentimental sem ser piegas, milionária sem fingir que o dinheiro não lhe interessava, profundamente americana sem deixar de pertencer ao mundo inteiro. Tinha perucas maiores do que muitos egos de Hollywood, decotes capazes de produzir literatura própria e a inteligência suficiente para chegar primeiro à piada. Quando dizia que era preciso muito dinheiro para parecer tão barata, não estava a diminuir-se. Estava a impedir que alguém o fizesse antes dela.
A morte foi anunciada esta terça-feira, 25 de Agosto, pela família. Não foi divulgada uma causa. Morreu em Nashville, onde chegara em 1964 vinda de uma pobreza que nunca transformou em folclore decorativo. Era a quarta de doze filhos de uma família das montanhas do Tennessee e fez dessa origem matéria-prima para algumas das canções mais autobiográficas da música americana. Não precisou de inventar uma infância difícil. Teve-a. O extraordinário foi não permitir que ela a definisse.
Dolly percebeu cedo que uma personagem pública também pode ser uma criação artística. Construiu-se em lantejoulas, cabelo impossível, saltos altos, curvas ostensivas e um sorriso que parecia dizer ao puritanismo americano para ir tratar da sua vida. A sensualidade fazia parte do espectáculo, mas nunca foi submissão. Recusou a velha escolha oferecida às mulheres famosas: ou ser desejável ou ser levada a sério. Ela decidiu ser as duas coisas.
E depois havia as canções. Jolene, Coat of Many Colors, I Will Always Love You, 9 to 5. Histórias de ciúme, pobreza, despedida, trabalho e sobrevivência escritas com uma simplicidade que só os grandes compositores conseguem. I Will Always Love You tornou-se um fenómeno planetário na voz de Whitney Houston, mas antes disso já era Dolly: uma despedida escrita para Porter Wagoner quando decidiu seguir sozinha.
O cinema percebeu rapidamente que aquela mulher não precisava de aprender a entrar em cena: já vivia em grande plano. Em Das 9 às 5 (1980), de Colin Higgins, ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin, interpretou Doralee Rhodes, secretária de um chefe machista e mulherengo. O filme era uma comédia, mas quarenta e seis anos depois continua desconfortavelmente contemporâneo: assédio, desigualdade, chefias masculinas incompetentes e mulheres obrigadas a ser duas vezes melhores para receber metade do crédito. Dolly escreveu ainda a canção-tema e transformou o bater das unhas acrílicas numa máquina de escrever musical.
Dois anos depois apareceu com Burt Reynolds em A Melhor Casa de Prazer do Texas (1982), também de Colin Higgins, como Mona Stangley, proprietária de um bordel ameaçado pela moral televisiva. Era quase um papel escrito para ela: uma mulher sensual, popular e muito mais digna do que aqueles que pretendiam salvar a moral pública. Em Flores de Aço (1989), de Herbert Ross, entre Sally Field, Shirley MacLaine, Olympia Dukakis, Daryl Hannah e Julia Roberts, foi Truvy Jones, dona de um salão de beleza onde o verniz e a conversa escondiam dores mais fundas. Dolly tinha uma qualidade rara como atriz: nunca parecia estar a tentar provar que sabia representar. Em A Locutora Endiabrada (1992), de Barnet Kellman, ao lado de James Woods, voltou a usar a sua personalidade popular como arma cómica.
Mas reduzir Dolly Parton à música e ao cinema seria perder talvez a parte mais bonita da história. Em 1995 criou a Imagination Library porque o pai não sabia ler. O programa começou no Tennessee e, até ao final de 2025, já tinha distribuído mais de 300 milhões de livros gratuitos a crianças. Hoje envia mais de três milhões por mês. Durante a pandemia, ofereceu um milhão de dólares à investigação da Universidade Vanderbilt, dinheiro que ajudou trabalho científico ligado ao desenvolvimento da vacina da Moderna. Há estrelas e figuras públicas que criam fundações para ficarem bem na fotografia. Dolly criou uma para pôr livros nas mãos de crianças.
Também construiu Dollywood, tornou-se empresária, escreveu milhares de canções e entrou para o Rock and Roll Hall of Fame depois de inicialmente dizer que não sabia se merecia estar ali. Claro que merecia. Dolly sempre foi mais rock’n’roll do que boa parte dos homens de blusão de cabedal que passaram a vida a tentar parecê-lo.
O marido, Carl Dean, com quem esteve casada quase seis décadas, morreu em Março de 2025. Talvez tenha sido o último grande golpe privado numa vida passada a transformar perdas em canções.
Dolly deixa uma obra, mas deixa sobretudo uma maneira de estar no mundo. Podia ser cristã sem transformar a fé numa arma, rica sem desprezar os pobres, sensual à sua maneira, feminista sem usar a palavra como cartão de visita e popular sem confundir popularidade com estupidez e boçalidade. Numa América cada vez mais especializada em escolher trincheiras, conseguia uma coisa incrível: ser amada por gente que provavelmente não suportaria estar sentada à mesma mesa.
A rapariga pobre do Tennessee que parecia saída de um salão de beleza fuleiro e impossível acabou por escrever algumas das canções mais belas do século XX, fazer rir no cinema, financiar ciência, pôr milhões de crianças a ler e ensinar-nos que inteligência e lantejoulas nunca foram incompatíveis.
Adeus, Dolly. O céu, se existir, que se prepare: vai precisar de mais luzes, mais cabelo e, sobretudo, muito melhor música.