Talvez por uma questão de identificação geracional, ao abordar o misterioso mundo dos recrutamentos para o Estado Islâmico, André Téchiné cola o seu olhar a uma avó, desempenhada por Catherine Deneuve, e assim desdobra um filme angustiante em duas histórias de amor.
No primeiro plano, encontramos o amor radical entre Alex e Lila, religiosamente obsessivo, ao ponto de não ser carnal antes do casamento e do combate na Síria, um limbo intermédio rumo à vida eterna. Alex e Lila formam uma espécie de Bonnie & Clyde de mentalidade e de moralidade retorcidas. Esse amor é combatido e eventualmente superado pelo amor da avó, também corajoso e intransigente, que, apercebendo-se das secretas intenções do neto, tudo faz para evitar a sua desgraça. É um estranho mundo, em que os netos são mais pudicos do que os avós e em que os perigos não vêm da devassidão e da futilidade, mas antes da reação a ela através de um puritanismo extremo.
O veterano realizador francês procura aqui um traço atual e contemporâneo para o seu cinema, mas falha à tangente. Em 2020, a temática perde o fulgor da atualidade que poderia produzir um efeito semelhante ao de filmes como Casablanca, de Michael Curtiz, e ao de O Grande Ditador, de Charlie Chaplin, realizados ainda durante a II Guerra Mundial; ou mesmo, para dar um exemplo mais recente, As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, realizado em plena Troika. Mas se essa marca do presente ficou um pouco desfasada (já passou a onda de notícias de jovens europeus a juntarem-se ao Estado Islâmico na Síria e no Iraque), fica sempre o retrato de um tempo recente, que passa pela tentativa de desvendar mistérios e de compreender o outro.
O Adeus à Noite é uma história de amor e de obsessão, contada com eficácia e de forma minimamente cativante. Mas não deixa de ser uma obra menor de André Téchiné.
Veja o trailer do filme:
O Adeus à Noite > De André Téchiné, com Catherine Deneuve, Kacey Mottet Klein e Oulaya Amamra, 104 min.