
Marta Carreiras
A história desta peça já tem mais de cinco anos, quando a atriz Maria Rueff confessou ao encenador Miguel Seabra ter vontade de trabalhar em torno do universo literário de António Lobo Antunes, que tantas vezes a inspira nos seus “bonecos” televisivos – uma “poética tragicómica” que a aproximava do imaginário do Teatro Meridional. Coube a Rui Cardoso Martins o “trabalho de cosedura”, como descreve Miguel Seabra, de transformar crónicas e excertos de romances de Lobo Antunes numa peça de teatro. Em António e Maria, Maria Rueff sobe sozinha ao palco e dá corpo a uma multiplicidade de “vozes femininas mutantes que partem de uma só” – e o encenador abre um parêntesis para elogiar a “plasticidade emocional incrível” e a “amplitude de interpretação notável” da atriz. Em cena, fala-se de morte, amor, abandono, sexualidade, descoberta do mundo, perda de inocência… e passa-se de uns aos outros sem ligação aparente, apesar de estar tudo ligado. “Como na escrita de Lobo Antunes”, sublinha Miguel Seabra, que, mais uma vez, leva para o teatro um texto não teatral. “António Lobo Antunes conhece as pessoas por dentro, é um observador nato dos pormenores da vida, vê coisas que as pessoas não veem mas que estão à vista, e é isso que o torna desconcertante”, diz o encenador. Há uma frase do escritor que daria um belo título, diz Miguel Seabra, em tom de resumo: “Olhar para dentro de uma bota porque às vezes há coisas”. E não é que há? E não é que deu?

Nuno Figueira
António e Maria > De Rui Cardoso Martins, a partir de António Lobo Antunes > Encenação de Miguel Seabra > Com Maria Rueff > Teatro Meridional > R. do Açúcar, 64, Beco da Mitra, Lisboa > T. 21 868 9245/ 91 804 6631 > 14 jan-7 fev, qui-sáb 21h30, dom 16h > €5 a €10

Marta Carreiras