1. Portas, Marisa Monte

Parece impossível: há dez anos que não havia um disco com canções novas de Marisa Monte (desde O que Você Quer Saber de Verdade, de 2011). Muito mudou desde aí, especificamente no Brasil, mas não a voz inconfundível da cantora carioca e o seu talento para assinar canções que parecem clássicos instantâneos de MPB. Ao todo, são 16 os temas novos neste disco com coprodução de Arto Lindsay, velho cúmplice de Marisa. Este não é um álbum marcado diretamente pelos tempos estranhos e assustadores que atravessamos, mas não há como evitar pensar no muito que temos de superar quando, em Calma, ouvimos Marisa Monte dizer-nos ao ouvido: “Calma, que eu já estou pensando no futuro…” Gravado com muitas distâncias pelo meio, muitas ligações via Zoom, o disco reflete o prazer de, demoradamente, escolher os instrumentos e os arranjos certos para servirem cada canção. Contas feitas: boas energias que nos chegam do lado de lá do Atlântico.
2. Requiem for Empathy, Moullinex

Depois de Flora (2012), Elsewhere (2015) e especialmente do aclamado Hypersex (2017), que o tornou um dos mais celebrados artistas da cena eletrónica lisboeta, da qual foi um dos impulsionadores, em parceria com Xinobi, com a criação da editora Discotexas, Requiem for Empathy apresenta uma outra faceta, mais introspetiva, de Moullinex, um artista muito mais conhecido pela capacidade de colocar multidões a dançar. Não que isso não possa acontecer também agora, como se pode comprovar ouvindo temas como Minina di Céu, cantado por Sara Tavares, ou Ngoma Nwana, interpretado por Selma Uamusse, dois exemplos perfeitos deste “jogo de luz e sombras” travado entre a frieza dos sintetizadores e o calor das vozes.
3. Bem Bom, a Banda Sonora, Vários

À boleia do sucesso de um filme, hits de verões há muito passados vão voltar a ouvir-se repetidamente este ano. A banda sonora da longa-metragem de Patrícia Sequeira dedicada à carreira das Doce tem uma particularidade que não é habitual neste tipo de formatos: todas as canções são, aqui, cantadas pelas atrizes que dão corpo e voz às integrantes do grupo – Carolina Carvalho (no papel de Helena Coelho), Bárbara Branco (Fátima Padinha), Lia Carvalho (Teresa Miguel) e Ana Marta Ferreira (Laura Diogo). A ideia foi mais a de recriar, como quem constrói um cenário para imitar um original, do que a de fazer versões diferentes. Se houver uma irreprimível vontade de ouvir mesmo as Doce, também foi relançada recentemente uma coletânea com os grandes êxitos. Agora todos: “Quente, quente, quente… até queimar!”
4. Peace or Love, Kings of Convenience

Regresso destes velhos amigos noruegueses com uma paixão irreprimível pela bossa nova e bandas sonoras de cinema italiano antigo (e também, sim, pelo verão português). A verdade é que Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe, os Kings of Convenience, não lançavam um disco há 12 anos (desde Declaration of Dependence, de 2009). Mas aqui estão eles, iguais a si próprios. Ou seja, trazendo canções como brisas de vento, que se podem ouvir num fim de tarde quente, dormitando, de Porto tónico na mão… Imaginamos que as próprias sessões de gravação, boa parte delas feitas na casa de Erlend, na Sicília, Itália, tenham decorrido assim. Uma ideia que eles até se esforçam por contrariar: “É muito, muito difícil fazer qualquer coisa soar simples”, diz Bøe na apresentação deste álbum. Destaque para os dois belíssimos temas com a voz da canadiana Feist, que assenta aqui na perfeição: Love Is a Lonely Thing e Catholic Country.
Playlist de… Inês Meneses, Comunicadora

“Inventando o verão num tropicalismo entre suor e lágrimas”
• Maré, Rodrigo Amarante
• Primeira Rodada, Expresso Transatlântico
• Lágrimas Negras, Gal Costa
• Só Nós Dois, Tim Bernardes
• The Outsider, Sweet Psychedelics
• A Língua dos Animais, Marisa Monte
• Olá, Então Como Vais? B Fachada e Benjamim (versão a sair em breve no Tributo a Tozé Brito)
5. M’Berra, Khalab& M’Berra Ensemble

Este disco é, também, uma história. A do encontro do produtor e DJ italiano Raffaele Costantino (mais conhecido como Khalab) com o grupo de músicos malianos M’Berra Ensemble, do campo de refugiados M’Berra, no Sudeste da Mauritânia. Mali tem das tradições musicais mais ricas de África, e as suas cordas hipnotizantes, de guitarras elétricas ou instrumentos tradicionais, que evocam o calor de Timbuktu, misturam-se aqui com as batidas e subtilezas eletrónicas do DJ Khalab.
6. Drama, Rodrigo Amarante

Apesar da pródiga carreira enquanto membro de grupos como Los Hermanos, Orquestra Imperial e Little Joy ou enquanto colaborador de gente tão variada como Gal Costa, Norah Jones e Gilberto Gil, foi em nome próprio, com o aclamado Cavalo, editado já em 2013, que este músico e cantor carioca se tornou uma referência da nova música popular brasileira, à boleia de uma aparente simplicidade das canções – e na verdade, já se sabe, isso é mesmo o mais difícil de conseguir com uma marca própria. Em Drama, o novo álbum a solo, há mais complexidade envolvida, no modo como Rodrigo Amarante se reconstrói enquanto artista, através de um conjunto de canções pessoais, cantadas em português e inglês (mas que, ao mesmo tempo, soam familiares a quem as ouve). “É um álbum que reflete os meus sentimentos sobre o mundo onde vivo”, explica, justificando assim a diversas camadas sonoras (teclas, cordas, sopros, sintetizadores…) e emocionais de um álbum assumidamente pop, embora salpicado de muitas outras coisas. E que, não sendo abertamente político, tem sempre bem vincada uma mensagem de empatia para com o(s) outro(s).
7. Life, Sean Riley & the Slowriders

Mantendo o azimute folk rock que desde o início norteou a banda, este álbum aponta também para novas direções, com mais beats e menos guitarras. O resultado é um conjunto de belas canções, ora nostálgicas, ora (quase) de festa, sem se perceber bem se representam o fim ou o início de algo. Talvez ambas as coisas. Afinal, trata-se do primeiro trabalho editado desde o disco homónimo de 2016, ano marcado pelo desaparecimento do baixista Bruno Simões, um dos membros fundadores da banda. Life, explica o vocalista Afonso Rodrigues, “foi a palavra maior que encontrámos com a possibilidade de abraçar todas as histórias, sentimentos e emoções”.
Playlist de… Afonso Cruz, Escritor
“Temas com tanto calor interior que, por comparação, refrescam o ambiente”

• The Cage, Vera Sola
• This World is Crazy, Lonely Drifter Karen
• Jungle Lullaby, C. W. Stoneking
• Help Me, Sonny Boy Williamson
• All About That Bass, Scott Bradlee’s Postmodern Jukebox
• When You Wish Upon a Star, Leon Redbone
• Ain’t No Grave, Johnny Cash
8. Ao Vivo nos Aliados, Marta Ren e Orquestra de Jazz de Matosinhos

Gravado a 28 de dezembro de 2019, este álbum regista o concerto conjunto (e até agora único, mas a repetir mais vezes no futuro, tal como ambas as partes já assumiram) da rainha do soul-funk nacional, Marta Ren, com uma das maiores big bands de jazz da Europa, a Orquestra de Jazz de Matosinhos. Aqui foi revisitado, com novos e grandiosos arranjos, o aclamado disco de estreia da cantora, Stop, Look, Listen, bem como alguns clássicos do cancioneiro americano. Ou como resumiu, com indisfarçável entusiasmo, o maestro da orquestra, Pedro Guedes, são “dezassete músicos a amplificar a potente voz de Marta Ren. Agarrem-se!”
9. Primeiro Disco, José

Assina simplesmente José e assina este Primeiro Disco. Depois de alguns minutos, desconfia-se que não deve ser um estreante… E não é. José Reis Fontão fundou em Paris, em 2002, com sucesso, a banda de rock Stuck in the Sound. Aqui, marca uma espécie de recomeço mais ligado às suas raízes portuguesas (até há uma música chamada FACIF, nome da estival feira agrícola e industrial do Fundão). Cada tema parece saído de um disco diferente: vai, num ápice, da música popular portuguesa com som vintage à eletrónica ou aos arranjos pop minimais… A descobrir.
10. Buraka 4 Ever, Buraka Som Sistema

Há um antes e um depois dos Buraka, na música portuguesa. E sempre foi em palco, mais do que nos discos, que este coletivo mostrou a sua força e energia. “Nós somos os Buraka Som Sistema, da Amadora, e este é o nosso último concerto”, ouve-se, a meio do tema Sente, no início deste disco. A seguir vem o registo da festa que aconteceu no dia 1 de julho de 2016 junto à Torre de Belém, em Lisboa. Se fecharmos os olhos, vemos corpos suados em movimento, sem nenhum distanciamento social…
11. Hella Love, Marinero

A uma primeira audição, os primeiros acordes do instrumental Fanfare, tema de abertura de Hella Love, poderão transportar o ouvinte para uma latitude mais a sul do que a Califórnia, onde o seu criador nasceu. Tal como a segunda faixa nos poderá fazer pensar que Marinero é um músico especialista em bossa nova. Mas trata-se do alter-ego de Jess Sylvester, um talentoso músico de São Francisco, que fez deste registo de estreia uma bonita declaração de amor à cidade onde cresceu – que, devido à gentrificação, se transformou muito nos últimos anos –, antes de se ter mudado, recentemente, para Los Angeles. Algures entre o soft rock e a música latina vintage (que cresceu a ouvir por influência da mãe, de ascendência mexicana), Hella Love é um exemplar exercício de nostalgia musical, e um álbum perfeito para as lânguidas tardes de verão à beira-mar que se avizinham.
12. Daddy’s Home, St. Vincent

É já uma imagem de marca de St. Vincent, alter-ego musical da norte-americana Annie Clark, esta tendência para, a cada álbum (e já vai no sexto) apresentar sempre uma sonoridade e um visual diferentes – mantendo–se sempre, claro, o som muito próprio que ela arranca das suas guitarras elétricas. Neste Daddy’s Home, St. Vincent viaja até aos anos 70, através das suas próprias memórias familiares, mas também do imaginário musical clássico dessa época, que tanto passa pelo funk e soul de Stevie Wonder e dos Sly and the Family Stone como pelo psicadelismo de uns Pink Floyd ou até pelas excentricidades pop de David Bowie e pela doçura folk dos Fleetwood Mac. No meio desta aparente cacofonia de referências, com tudo para correr mal, sobressai um álbum com sentido do início ao fim, porventura o mais completo e abrangente de St. Vincent até à data.
Playlist de… Cláudia Pascoal, Cantora
“Sou suspeita, porque entro nela, mas para mim a música deste verão saiu no inverno: Honesty Bar”

• Mau Feitio, Joana Espadinha
• Dumb Dumb, Mazie
• Certeza (Sol Posto, 2020), Capitão Fausto
• Razão, Filipe Karlsson
• Cleopatra, Yanagui, Left. & Extrazen
• A Próxima Viagem, Cassete Pirata
• Honesty Bar, D’Alva & Cláudia Pascoal