Exmo. Sr. Ministro da Educação,
Dr. Fernando Alexandre,
Chamo-me Mafalda Miranda.
Escrevo-lhe a presente mensagem para manifestar a minha profunda preocupação e lamentar a deplorável situação em que nos encontramos.
Peço-lhe que, ao ler este e-mail, se coloque no meu lugar: uma jovem que completou recentemente 18 anos e que estudou, trabalhou e dedicou grande parte do seu tempo e energia à escola, em especial nos últimos meses. Tudo isto com um único objetivo: candidatar-me ao Ensino Superior.
Contudo, eis o que aconteceu.
Em primeiro lugar, foi implementado um novo sistema de classificação que, ao que tudo indica, não foi suficientemente testado antes da sua aplicação em larga escala, o que levantou uma enorme polémica junto da comunidade educativa. Ainda assim, cumprimos o nosso dever e continuámos a preparar-nos da melhor forma possível para aqueles que são, provavelmente, os momentos de avaliação mais importantes do nosso percurso escolar, até ao momento.
Findos os exames nacionais e iniciado o período de classificação das provas, começaram a surgir inúmeros problemas: a plataforma ficou indisponível, apareceram exames incompletos, folhas mal digitalizadas, professores receberam provas de disciplinas diferentes daquelas que lhes estavam atribuídas, entre outras falhas técnicas, logísticas e organizacionais.
Perante esta sucessão de problemas, o Ministério da Educação entendeu que a solução passaria por adiar a divulgação das classificações e alterar o calendário da segunda fase dos exames nacionais.
As consequências destas decisões recaem, inevitavelmente, sobre os alunos e as suas famílias, que em nada contribuíram para os problemas verificados. Muitos tinham férias marcadas há vários meses, viagens reservadas ou outros compromissos inadiáveis que implicaram pagamentos antecipados, como estágios de verão, programas de intercâmbio, cursos, campos de férias ou até tratamentos e consultas médicas agendadas para este período. Alterar estes planos, em muitos casos, significa perder quantias significativas de dinheiro ou, simplesmente, não ter qualquer possibilidade de os remarcar.
Para além disso, o adiamento da divulgação das classificações reduz drasticamente o tempo disponível para que os alunos possam analisar os seus resultados, ponderar com serenidade a necessidade de realizar exames na segunda fase e, caso essa decisão se revele necessária, preparar-se devidamente para eles. Em vez de disporem de um período razoável para refletir e estudar, os alunos veem-se obrigados a tomar decisões importantes sob enorme pressão e com um tempo manifestamente insuficiente para uma preparação adequada.
Como se tudo isto não bastasse, assistimos, nos últimos dias, a uma sucessão de decisões contraditórias que apenas contribuíram para aumentar a incerteza e a ansiedade de milhares de alunos.
Num primeiro momento, foi anunciado que as provas corrigidas ficariam disponíveis online para todos os alunos, medida que considerei positiva, por promover maior transparência e permitir uma análise célere das classificações, dado o contexto atual. Contudo, essa decisão foi alterada, passando a ficar ao critério de cada escola a disponibilização das provas por via digital ou a obrigatoriedade de apresentação de um pedido documentado.
Esta mudança gera novos problemas. Há escolas sem planos estruturados, devido à instabilidade da situação. Em muitas, as secretarias encerram antes da divulgação dos resultados. Sendo estes conhecidos numa sexta-feira, muitos alunos apenas poderão requerer a consulta da prova na segunda-feira, precisamente o dia em que tem início aorganização da segunda fase dos exames nacionais, a começar na terça. Ou seja, aquilo que deveria ser um procedimento simples transforma-se num imenso obstáculo burocrático.
Mesmo admitindo que seja possível solicitar a prova no próprio dia da divulgação dos resultados, o tempo disponível para analisar cuidadosamente a correção, refletir sobre a conveniência de apresentar um pedido de reapreciação e reunir os fundamentos necessários é praticamente inexistente. Caso o aluno opte por pedir a reapreciação, a decisão apenas será conhecida já durante o período da segunda fase, obrigando-o, por precaução, a inscrever-se e, eventualmente, a realizar um exame que poderá revelar-se desnecessário. Tal situação implica um desgaste emocional acrescido, custos adicionais para as famílias e uma enorme incerteza num momento que deveria pautar-se pela estabilidade e previsibilidade.
A tudo isto soma-se a ausência de um plano de contingência claro e uniforme. As escolas recebem orientações em momentos diferentes, interpretam-nas de forma distinta e transmitem informações que nem sempre coincidem. Os alunos e as famílias veem-se obrigados a procurar respostas junto das escolas, dos diretores, dos serviços administrativos e dos meios de comunicação social, recebendo, agora quase sempre, a mesma resposta: Todas as provas estão corrigidas. As classificações saem durante a tarde. Mas se considerarmos que a tarde apenas acaba às 19:59, é suposto estar ainda uma equipa dominada pela incerteza, preparada a essas horas para tratar de todo o processo exaustivo que é lançar essas notas…?
Ninguém sabe, ao certo, qual o procedimento correto a seguir.
Pergunto-lhe se caso as notas não sejam partilhadas ainda hoje e se houver dúvidas sobre a confiabilidade das classificações, qual é o plano de contingência? Qual será o novo discurso e a nova posição do Sr. Ministro?
Apesar dos sucessivos apelos à tranquilidade, é difícil compreender como poderão os alunos sentir-se tranquilos perante um cenário marcado pela incerteza, pela alteração constante de regras e pela falta de respostas claras. Quem vive diariamente as consequências desta situação são os alunos, as suas famílias, os professores e as escolas. Infelizmente, quem tomou as decisões que conduziram a este cenário parece não sentir, na mesma medida, o impacto real que esta sucessão de falhas tem na vida de milhares de jovens que apenas pretendem concorrer ao Ensino Superior em condições de igualdade, justiça e segurança.
Não posso deixar de manifestar a minha discordância relativamente às declarações públicas do senhor primeiro-ministro. Na minha perspetiva, esta foi, de longe, uma das épocas de exames nacionais mais problemáticas de que há memória: a menos transparente, a menos previsível e uma das menos rigorosas dos últimos anos. As repetidas alterações de procedimentos, os problemas técnicos, a falta de informação clara e a incerteza constante comprometeram a confiança que os alunos e as famílias depositam num processo que deveria pautar-se pelo rigor e pela estabilidade.
Por fim, depois de, em diferentes momentos, terem sido apontadas responsabilidades a diversos intervenientes (exceto aos reais responsáveis), considero igualmente importante reconhecer o esforço de todos aqueles que, apesar das dificuldades, procuraram manter o sistema a funcionar.
É de elementar justiça agradecer aos professores classificadores, aos funcionários das escolas e das secretarias, aos diretores, bem como às famílias, que procuraram apoiar os seus filhos num período de enorme ansiedade.
Acima de tudo, é devido um agradecimento a todos os alunos, sem exceção, pela paciência, pela resiliência e pela serenidade com que enfrentaram um processo que, infelizmente, esteve muito aquém daquilo que lhes era devido.
Espero, sinceramente, que esta situação seja devidamente avaliada e que dela resultem mudanças que impeçam a repetição de acontecimentos semelhantes.
Não somos instrumentos de teste, senhor ministro.
Perceba.
Mafalda Miranda
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.