No dia em que a Índia ultrapassou os 47 mil casos diários, o maior valor atingido este ano, o consórcio indiano SARS-CoV-2 Consortium on Genomics (INSACOG), um grupo de 10 laboratórios nacionais sob a tutela do Ministério da Saúde da Índia, anunciou os resultados da sequenciação genómica realizada nas amostras mais recentes recolhidas em vários estados do país.
Trata-se do processo que permite fazer o mapa do código genético de um organismo – neste caso, o SARS-CoV-2 – que funciona como uma espécie de manual de instruções. Sabe-se que as mutações em vírus são comuns e que, na maioria dos casos, não alteram o comportamento do vírus.
Mas em determinados casos, como aconteceu com as mutações da linhagem identificada no Reino Unido ou da África do Sul, podem efetivamente tornar o vírus mais infecioso e, em alguns casos, mais mortal.
Segundo explicou o virologista Shahid Jameel, diretor-geral do Wellcome Trust DBT India Alliance, instituição pública que financia a investigação em saúde e ciências biomédicas na Índia, citado pela BBC, o que se receia agora é que “uma dupla mutação, em áreas-chave da proteína, aumente o risco e permita que o vírus escape ao sistema imunitário”.
Uma preocupação antiga
As autoridades recusaram estabelecer, para já, uma relação direta entre o surgimento da nova variante e a subida das infeções no país – mas Jameel reconheceu que há um “aumento na fração de amostras com as mutações E484Q e L452R” e que, tais mutações “conferem uma fuga imunitária e um aumento da infecciosidade”, antes de aludir à possibilidade de “haver uma linhagem separada a desenvolver-se no país, com aquelas mutações a fundirem-se”. Ainda assim, insistiu que “não foram detetados em número suficiente para estabelecer uma relação direta ou explicar” o rápido aumento de casos no país.
Uma preocupação com possíveis novas variantes que não é de agora – afinal, o recente relatório surge após vários peritos do país terem pedido ao governo que intensificasse os esforços de sequenciação do genoma. “Precisamos monitorizar constantemente e assegurar que nenhuma das variantes mais preocupantes se está a espalhar na população. O facto de não estar a acontecer agora não significa que não venha a acontecer no futuro”, declarou o mesmo Shahid Jameel, à BBC, no início deste mês. “E temos de nos certificar que, caso aconteça, temos a prova disso suficientemente cedo”.