Faz parte, desde 2006, dos Médicos Sem Fronteiras, ONG ao serviço da qual trabalhou em cenários de guerra – na Líbia, em 2011, na Síria, em 2013, e, em 2014, na Ucrânia e no Sudão do Sul – e de catástrofes naturais (cheias de 2010 no Brasil e terramoto de 2011 na Turquia). E Maria Palha, psicóloga de 38 anos, ainda arranjou tempo para escrever dois livros: Uma Caixa de Primeiros Socorros das Emoções (ed. Manuscrito) e Emocionar: Um Kit de Saúde Emocional para Famílias (ed. Objectiva).

Nos Médicos Sem Fronteiras, Maria Palha ajuda a construir programas de saúde mental em terrenos de crises agudas. Por isso, a VISÃO pediu à psicóloga que transpusesse essas aprendizagens para o Portugal de hoje, confinado em casa pela pandemia e a viver um futuro apreensivo, cheio de nuvens cor de chumbo no horizonte.
“Ao longo da minha experiência em catástrofes humanitárias, verifiquei que o mais importante é a forma como cada pessoa vai lidar com a adversidade da crise e sobreviver-lhe, o que depende, não da situação em concreto, mas do conhecimento que se tem das emoções próprias”, começa a especialista por dizer. “Isto pode parecer muito racional, mas ter informação sobre o que significa cada emoção vai ajudar a sobreviver, até fisicamente, a este cenário adverso”, acrescenta.
Até do medo, se esse sentimento não for bloqueado, se tira partido, diz Maria Palha: “Dá-nos uma mensagem muito específica – a identificação de todas as medidas que, em modo de sobrevivência, precisamos de tomar.” É o caso, exemplifica a psicóloga, “do conhecimento dos sintomas da Covid-19, das medidas de precaução e de prevenção, do sistema de referenciação de saúde, de quando e como procurar ajuda, e de onde encontrá-la”. Há, pois, que “otimizar o medo”.
Também a fúria, se bem percebida, traz um pulo de crescimento pessoal, diz Maria Palha. “Uma das principais funções relacionadas com a zanga, uma emoção de energia, serve para pormos um limite, onde é preciso colocá-lo, e para introduzir novos hábitos na vida”, explica. “É necessário utilizar essa energia para assumir a fúria, perceber as razões e identificar os hábitos antigos – no relacionamento com os outros, na forma de agir – que neste momento já não funcionam e que precisam de ser interrompidos e substituídos por outros, mais ajustados à sobrevivência no ambiente em que agora vivemos”, especifica.
As estratégias propostas por Maria Palha são resumidas pela própria com o velho dito “pare, escute e olhe”. Para a psicóloga, é um alerta que leva “a pensar no que é preciso alterar na nossa vida”. E “as mensagens trazidas pelas nossas emoções referem-se às necessidades mais íntimas e não ao que se diz que todos precisam”, esclarece.
Mas e quando somos assaltados pela angustiante sensação de que tudo se desmoronou? “Se há desesperança, essa emoção diz-nos que os objetivos que definimos para o longo prazo, neste momento, não nos estão a ser úteis”, responde Maria Palha. “Pelo contrário – estão a pôr-nos mais ansiosos.”
A especialista aconselha a que se tracem “pequenos objetivos, a alcançar a curto prazo, que nos vão ajudar a seguir o caminho, passo a passo, dia a dia”. Um exemplo? “Conseguir ter algum tempo de qualidade com a família com quem vivemos, no cenário atual. Com frequência, até por causa das circunstâncias do teletrabalho, não sobra muito tempo para isso.” Esses “pequenos objetivos”, diz Maria Palha, “acabam por dar um sentido e um significado que nos ajudam a sobreviver no confinamento”.
Seja como for, o futuro apresenta-se ameaçador. “Mas não está dentro do controlo de ninguém”, ressalva a psicóloga. “O futuro vive-se aqui e agora, no presente.”
Colocamos à especialista o problema da ansiedade, que pode extremar-se. “O importante é as pessoas conseguirem perceber e identificar a fonte da sua ansiedade”, diz. E Maria Palha afasta da equação os ansiolíticos e os antidepressivos. “Essas pessoas devem introduzir no seu quotidiano técnicas que as ajudem a ligarem-se ao presente, ao ‘aqui e agora’”, defende.
Se há desesperança, essa emoção diz-nos que os objetivos que definimos para o longo prazo, neste momento, não nos estão a ser úteis
“Ao tomar-se, por exemplo, um ansiolítico, para reduzir a ansiedade, apaga-se o sintoma e não se lhe dá a necessária importância – nem se descodifica o que ele nos quer dizer”, afirma. Um simples paracetamol, diz, tem o mesmo efeito: “Pode tirar uma dor de cabeça que, muitas vezes, não está relacionada com uma causa física – é o reflexo de uma questão emocional.”
Maria Palha parece puxar a brasa à sua sardinha, mas diz com convicção que, “se as emoções estão muito elevadas, ou, pelo contrário, deixaram de existir, isto requer especial atenção – e o tipo de intervenção de um psicólogo é breve”. Bastam entre “duas a oito sessões, ao fim das quais aqueles sintomas baixam e a pessoa consegue reduzir as suas reações de stresse traumático, com origem no momento que vive”, defende.
Insiste que é crucial “ver à lupa o nosso corpo, os hábitos, a mente e as emoções, para se perceber o que precisa de ser ajustado”. Isto sem esquecer o “movimento”, do exercício físico mais simples ao ioga, que “também ajuda a regular o sistema nervoso central”, conclui Maria Palha.