Acordei de madrugada com o barulho de automóveis e camiões. Um dos postos de controlo está ali, a poucos metros de casa e a movimentação é fora do normal, mesmo para uma das artérias mais usadas no concelho, que faz a ligação de Santa Maria da Feira a Ovar. Ouvem-se vozes, umas irritadas, outras mais serenas, a sensibilizar para que respeitem o isolamento. O dia começa cedo por estes lados.
Já de manhã tenho acesso e vista privilegiada para uma das “fronteiras” internas da cerca sanitária. População procura ir visitar a família ou comprar pão. Trabalhadores insistem junto das autoridades que têm de furar a barreira. Alguns estão com o telemóvel em alta voz para se ouvir a entidade patronal e poderem demonstrar às autoridades que têm de ser apresentar ao serviço. Não passam. Mas outros circulam, cada um com a sua justificação. Taxistas de máscara, a ambulância que, sei, vai transportar doentes para fazer hemodiálise numa clínica em Santa Maria da Feira.
Pelo meio, as primeiras conversas com a família. Os que estão longe e não sabem como verificar se os pais estão mesmo bem e como vão viver com o cerco. Disponibilizo-me para ajudar nas necessidades essenciais. Vão confirmando que têm alimentos. Por enquanto, não é preciso fazer nada. Sabe-se onde comprar alimentos básicos. Pequenos minimercados locais e a única farmácia da freguesia de Arada estão abertos. Mas há quem tema a carência de frutas e legumes. Arada está no limbo há dias, desde as primeiras confirmações de infetados, algumas já noticiadas pelos meios de comunicação. Mas outras histórias vão sendo partilhadas pelas redes sociais e conversas entre conhecidos. E ouço as histórias de famílias inteiras afetadas, de quem ficou de quarentena voluntária porque contactou com este ou aquele. Fico a saber que esta manhã, muita gente da freguesia está na rua, à porta de casa. Percebem o que se passa, mas não como lidar com o cerco inédito.
Depois do frenesim da hora de pegar ao trabalho, há uma acalmia durante a manhã. Mas uma carrinha apinhada de produtos chama a atenção, com papel higiénico à vista. O mais desejado, como não podia faltar! Consigo ir buscar pão fresco para a família. A padaria está vazia, sem clientes. Cruzo-me com um vizinho que ordeiramente aguardou à porta. Por aqui a população está a cumprir. Espreita-se na rua. Mas cada um recolhe-se.
Após o almoço saio para apanhar ar. Uma criança de 4 anos precisa de vitamina D e de uns toques na bola. Felizmente há espaço, dentro de portas. O polícia de máscara, não lhe mete confusão, mas sabe que “não podemos sair. Por causa do coronavírus”, diz. Reparo no novo alvoroço. Camiões com cimento, a carregar máquinas ou de mercadorias vão aparecendo um pouco por todo o lado. Não se percebe de onde vêm ou como furaram as outras barreiras, em especial a que corta o concelho de Ovar do município da Feira. As autoridades, com máscara, aproximam-se e verificam para onde vão. Em alguns carros mostra-se um papel. Uns seguem, outros não. Nem sempre se percebe o que dizem. Nas redes sociais a população está agitada. A indústria pode ou não estar a trabalhar? Há insultos. Imagens das que estão ativas. Umas optaram por encerrar sem saber o dia de amanhã e como vão pagar salários. Outras enviaram mensagens aos trabalhadores que tinham de ir trabalhar. Outras, dizem que vão reabrir amanhã. Em Ovar, estamos em suspenso. À espera do estado de emergência nacional.