Tem sido uma vida bastante monocórdica, a minha. Em teoria musical, a vida que tenho levado seria chamada “modal”, o nome que se dá a uma peça moderna que mantém sempre a mesma harmonia. Nada mal, de facto “harmonia” é uma boa palavra para a minha vida “monocórdica”.
Quando uso a palavra “monocórdica” para caracterizar a vida que tenho levado, penso apenas que as paixões, os interesses, as prioridades que mexiam comigo aos 13 anos eram já aquelas que hoje continuam a orientar o melhor das minhas energias. Na altura, tratavam-se de hobbies para os quais eu tinha que conquistar tempo e permissão aos meus pais, a custo de boas notas e uma orientação social sensata.
Hoje, trinta anos depois, esses hobbies são a minha fonte de rendimento.
Para lá disso, nada mudou muito. Não me envergonho.
Não me envergonho da paixão pela guitarra, primeiro; e pelo surf, logo a seguir. Colaboro há vários anos com uma revista de música e com uma de surf, portanto estes dois hobbies estão justificados como origem de alguns dos meus rendimentos. A outra fatia da minha conta bancária, a mais importante, vem da minha atividade como viajante profissional. Logo, a terceira das paixões fundamentais da minha monocórdica existência tem sido também o meu principal empregador.
Quem o teria jamais dito trinta anos atrás?
Considero-me o resultado de encontros marcados. Marcados pelo destino. Sou aquilo que sou graças a quatro décadas de contactos e confrontos com pessoas, lugares, momentos e manifestações da arte e do engenho humano. Não ser eu qualquer outra coisa é, também isso, o resultado de desencontros marcados, de oportunidades falhadas, da estrada errada, do tiro ao lado nessas mesmas quatro décadas.
Acredito no destino, mas só depois dele ter acontecido. Não sou fatalista, sou integralista: tento integrar cada um desses encontros dentro de um significado mais amplo e fecundo. Por vezes o encontro foi fulgurante, a clarividência límpida e aguda: eu sabia que nunca mais seria o mesmo desde então. Outras vezes nessa sabedoria do momento que só chega depois dele se ter verificado teriam que passar alguns anos e outros encontros para eu compreender por fim o que aquele encontro iria representar na minha vida. E outras vezes ainda, foi só através de uma rebuscada análise literária que consegui extrair significados de encontros aparentemente irrisórios e concluir que deles tinha nascido um novo ser: eu depois de mim.
Creio que o dia mais importante da minha vida foi um sábado de maio de 1977 em que entrei para os escuteiros. Eu tinha 8 anos. Essa decisão iria desencadear a sede dos espaços abertos, que por sua vez iria provocar a curiosidade de ver o que estava do lado de lá desses espaços abertos que é a razão de cada viagem. Mas não descobri logo nesse sábado que adorava viajar. Foi alguns fins de semana depois, quando se marcou um acampamento para a nossa faixa etária, os lobitos. O destino era Cantanhede. A cerca de 30 quilómetros da Figueira da Foz.
Hoje com as autoestradas e os automóveis, ir a Cantanhede desde a Figueira é mais rápido que atravessar o centro de Lisboa. Na altura, precisámos de várias horas num comboio que parava em todas as estações e apeadeiros do ramal da Pampilhosa. Nunca tinha andado de comboio, nunca tinha posto uma mochila às costas e nunca tinha estado mais longe de casa por conta própria do que nas manhãs da escola primária. Nesse dia cheguei pela primeira vez ao fim do mundo.
Mas o melhor, o encontro mais importante da minha vida, ainda estava para acontecer.
Acampámos no adro de uma capela ainda no tecido urbano. Nessa noite cantámos e representámos histórias escutistas à volta da fogueira. Tínhamos todos entre 8 e 11 anos, exceto os dois chefes que nos acompanhavam e que deviam ter à volta de 18. Era a noite mais intensa da minha vida. Mas o melhor ainda estava para acontecer.
Todas as cidadezinhas portuguesas têm o seu maluquinho de estimação, e Cantanhede não era a exceção. O Joaquim chegou por volta das vinte e duas, empunhando uma faca de barrar manteiga e gritando desvairado “Seus drogados, o mundo vai acabar por vossa culpa, eu mato-vos a todos.” Eu fugi para cima da árvore com mais dois companheiros, outros correram para trás do contentor, outros ainda para lá do muro e para trás dos carros. Ríamos e gritávamos, divertidos e assustados. Alguém passou ao longe, observou a cena e exclamou, sereno: “Joaquim, vai-te deitar, é tarde, vá lá.” O Joaquim olhou-o, confundido, coçou a cabeça, concordou e repetiu “Sim, Joaquim, vai-te deitar, sim, é tarde, vou-me deitar, sim, é verdade, é tarde.” E foi-se embora.
Foi-se deitar.
Regressámos a casa dois dias depois. Não sabia como dizer aos meus pais, mas quando se toca o fim do mundo pela primeira vez nasce algo de novo em nós. Disse-lhes que tinha tomado uma decisão, que não queria mais estudar, só queria escuteiros e acampamentos para o resto da vida. Queria viajar. Nessa noite histórica fui mandado para a cama sem sobremesa, “para ver se te volta depressa a vontade de estudar”, avisaram os meus pais. Trinta anos depois, quem diria, a minha atividade económica principal mantém-se coerente com a decisão tomada na noite em que regressei do fim do mundo; e a pessoa que encontrei lá, o maluquinho Joaquim, seria, numa análise literária, o encontro mais marcante da minha vida.