Em tempos, já vimos na televisão um bispo da IURD a dar pontapés numa imagem de Nossa Senhora Aparecida, cujo culto os evangélicos consideram manifestação de idolatria e o pai Bolsonaro chegou a dedicar-lhe o Brasil. Agora, o filho prefere dá-lo a Jesus. Entendam-se! Mas desde quando o Brasil é uma coisa que se entrega a alguém, mesmo a uma divindade? E com que autoridade se faz isto?
Há aqui vários problemas. Desde logo de natureza constitucional. O país é laico. Se levadas a sério, estas declarações deveriam constituir crime. Fazer este tipo de afirmações é retirar dignidade, liberdade e cidadania a todos os brasileiros que não são cristãos. É empurrar para um gueto todos os que têm uma fé diferente ou simplesmente não são portadores de fé religiosa. É pura discriminação.
Mas o mais importante é que tais declarações ferem de morte as bases fundamentais do Evangelho e da fé cristã. Quem faz tais afirmações desconhece a postura do próprio Jesus Cristo, que declarou preto no branco “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João 18:36).
Trata-se, portanto, de pura caça ao voto dos evangélicos, a mais despudorada manipulação dos crédulos, num país onde o perfil tipo do crente pentecostal é mulher, negra, pobre e com pouca ou nenhuma instrução. Uma massa acrítica facilmente manipulável pelos espertalhões que fazem do mercado religioso o seu chão.
Durante quase todo o século passado, o povo evangélico no Brasil foi avesso à participação na vida política, partindo do princípio de que a Igreja se situava essencialmente num plano espiritual, o que lhe permitia ser uma espécie de reserva moral da sociedade, mas também lhe abria a possibilidade para ser uma voz profética.
Porém, há algumas décadas tudo mudou. Hoje vivem-se tempos de frenesim mediático e de vertigem do poder. Inebriada por tal prato de lentilhas parte da igreja evangélica brasileira vendeu o seu direito de primogenitura, qual Esaú, ou seja, a sua condição única de intervir espiritualmente na sociedade pela palavra e pelo exemplo.
Desceu à arena da baixa política, infiltrou-se nas catacumbas da corrupção, lançou mão dos meios tenebrosos da manipulação, das notícias falsas, da falsa ciência, do negacionismo, do extremismo e posicionou-se politicamente como nunca antes. Líderes religiosos sem escrúpulos projetaram-se nos meios de comunicação de massas, ganharam visibilidade e conduziram essa parte da igreja para um verdadeiro pântano, com os resultados desastrosos que se conhecem.
Depois das patetices de Trump, parece que outros estão tentados a destruir o estado laico e a construir uma teocracia, à semelhança do Irão xiita ou do Israel sionista. O sistema judicial colombiano ordenou recentemente ao Presidente eleito que se desculpe por ter violado a neutralidade religiosa do Estado no seu ato de posse, convocando igualmente Abelardo de la Espriella a emitir uma diretriz que ordene aos funcionários públicos que respeitem e façam respeitar a neutralidade em todos os atos públicos.
A tentação teocrática consubstancia não só a negação dos princípios do Evangelho e da própria fé e tradição cristã, mas também do estado de direito, da democracia e do respeito pelos direitos, a liberdade e a identidade de todos os cidadãos, sem exceção.
É justo dizer que uma parte do segmento evangélico brasileiro permaneceu fiel aos princípios da sua fé, não se deixando arrastar pela enxurrada populista, mas o que se vê mais são os grupos neopentecostais pelo facto de dominarem os meios de comunicação de massas.
Estamos no reino da manipulação dos crédulos. Em especial daqueles que sofrem do complexo da manada, e que por isso não são capazes de parar para refletir um pouco. Ainda não entenderam que o seu mestre, Jesus Cristo, sempre respeitou e honrou quem pensava pela própria cabeça.
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