Era uma senhora simpática, com idade para ser minha mãe ou talvez minha avó. O cabelo bem arranjado, as unhas pintadas, um bâton chamativo. Fiquei sentada ao seu lado e rapidamente começou a conversa, com um ar bem-disposto. “Ah, Portugal…”, suspirou. Conhecia bem. Já tinha estado várias vezes em Lisboa e no Porto, tinha passado por Coimbra e por Fátima. Gostava muito de Portugal. Sempre tinha gostado. Mas agora, confidenciava-me, havia mais um motivo para gostar. “É que vocês souberam pôr o Lula no lugar”, disse-me, com um sorriso largo nos lábios. Abri um pouco os olhos, inclinei a cabeça. Não estava bem a perceber. Mas a senhora prosseguiu, explicando-me que tínhamos posto o Presidente do Brasil fora do Parlamento. Não lhe chamou Presidente, claro, era só Lula ou coisa pior, um “bandido”. Não estava mesmo a perceber, insisti. “Foi lá no Parlamento”, explicou-me ela. Nesse momento, fez-se luz: estava a falar das cerimónias dos 49 anos do 25 de Abril.
Eu tinha estado como repórter parlamentar, na bancada da imprensa, na Assembleia da República nesse dia. Lula entrou com honras de Chefe de Estado e discursou. Foi um dia tenso. A bancada do Chega levou cartazes onde se lia “Chega de corrupção” e tentou interromper com pateadas o discurso do Presidente brasileiro, que foi longamente aplaudido de pé pelas bancadas da esquerda, então em maioria no hemiciclo. Cá fora, havia uma pequena manifestação de brasileiros contra Lula e outra, talvez um pouco maior, a favor. Lula da Silva falou até ao fim, foi longamente cumprimentado por vários deputados e cantou-se a Grândola no hemiciclo. “Senhor Presidente, deixe-me pedir desculpa em nome do Parlamento português e agradecer-lhe pela coragem e a educação de que deu provas”, disse-lhe o presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, mal acabou o discurso. Isto foi o que vi naquele 25 de Abril de 2023.
Meses depois, sentada no almoço de família de uma amiga em Natal, a senhora que estava ao meu lado, insistia na versão que lhe tinha chegado pelas redes sociais bolsonaristas. Esbocei uma tentativa de lhe explicar que lá tinha estado e que o que se tinha passado era muito diferente do que ela imaginava. Mas desisti rapidamente. A senhora, que se referia muitas vezes aos “vermelhos” como se fossem uma espécie diferente e uma grande ameaça, sabia bem o que se tinha passado naquele 25 de Abril de 2023, no Parlamento, onde eu tinha estado e ela não.
Calei-me por educação, claro, para não estragar o evento familiar para o qual tinha sido convidada. Mas não foi só por isso que não insisti em contrariar a senhora. Percebi que não valia a pena. Nada do que eu dissesse iria fazê-la mudar de opinião. A crença dela era mais forte do que a minha experiência.
Não foi a primeira vez que me deparei com um muro intransponível feito de uma convicção irracional. Mas foi a primeira vez que a diferença não se ficou pela opinião. O que estava em disputa não era a análise sobre o que se tinha passado. Eram os factos em si mesmo. Aquilo que eu tinha visto e ouvido não valia nada, perante a ideia feita da minha interlocutora.
O Brasil do pós-Bolsonarismo é um país de trincheiras, factos alternativos, fés exacerbadas, pós-verdade. É um lugar onde se perdeu a possibilidade de discutir com aqueles de quem se discorda, porque deixaram de estar em causa as opiniões ou as ideias. A disputa é feita em torno do real, que se transfigura e molda à medida das convicções de quem olha para ele. Não era nada disto que se imaginava quando se começou a dizer que o Brasil era o “país do futuro”. Mas tudo o que aconteceu no mundo nos últimos anos mostra-nos como seguimos os seus passos, adormecidos, caminhando para o mesmo abismo que estilhaça as sociedades e as transforma em aglomerados de tribos.
Continuar a fazer jornalismo é resistir a isso. Arriscar ir aos sítios, recolher os dados, falar com as testemunhas, construir histórias que nos devolvam a realidade e nos obriguem a pensar em conjunto sobre ela é uma das formas de resistência mais elementares, perante uma estratégia política de divisão e manipulação da opinião pública, desenhada para que uma pequena elite controle até as paixões e os ódios de uma turba descartável e incapaz de pensamento crítico ou verdadeira revolta, esgotada na indignação fácil, domesticada por uma opressão tão completa e inconsciente que quase parece uma escolha.
Não podemos resignarmo-nos a ser conduzidos como cegos, aceitando como certo o que outros nos dizem que existe. Temos de voltar a abrir os olhos. Libertarmo-nos do algoritmo e das bolhas, da escravidão digital, que nos traz de pescoço curvado e olhos absortos, reagindo binariamente, gosto/não gosto, sem pensar por um momento, sem perguntar “porquê?”.
O jornalismo resgata-nos o olhar e as perguntas. Leva-nos a ver o outro. E, sobretudo, a construir um pensamento partilhado. Precisamos desse chão para que o mundo não se parta em grupos irreconciliáveis. Para que volte a ser possível imaginar e criar esperança onde alguns estimulam o medo e o desespero.
Há uma diferença muito grande entre a ilusão e o sonho. Quando nos deixamos iludir, estamos a ser enganados. Quando sonhamos, estamos a criar o futuro. Os últimos meses têm sido de luta e de sonho na VISÃO.
Quando alguns nos disseram que devíamos desistir, continuámos. Quando o cansaço nos convidava a fechar os olhos, insistimos em mantê-los abertos. Quando parecíamos sozinhos, procurámos ajuda e encontrámo-la. Quando parecia que não havia nada a fazer, fizemos o que sempre soubemos melhor. E conseguimos. Conseguimos trazer para as páginas da revista um Portugal que existe, mas que nem sempre se mostra. Um país que encontra aqui uma voz e um espaço, plural e aberto, disponível para o confronto de ideias e a troca de impressões.
Ousar tentar o impossível abriu-nos portas que nunca imaginámos existirem. Perder o medo fez-nos ganhar ânimo. Arriscar ajudou-nos a avançar. Percebemos, nestes momentos difíceis, que há algo de muito libertador em não ter nada a perder, que não ter chão pode fazer-nos ganhar asas, que começar a sonhar alguma coisa é o primeiro passo para a tornar real.
O caminho que temos pela frente não é fácil. Não vale a pena iludirmo-nos sobre isso. Mas o primeiro passo está dado: abrimos os olhos. Não sabemos como acabará esta aventura, mas sabemos que se não conseguirmos não será por não termos tentado tudo. Estamos a tentar tudo. Vamos continuar a tentar tudo. Aos nossos leitores de sempre e aos que se juntaram agora a nós nesta caminhada só pedimos uma coisa: não fechem os olhos e venham daí connosco ver até onde pode levar-nos a ideia de fazermos isto juntos.