A Inês de 15 anos acreditava que o mundo podia ser um pouco mais “preto e branco”.
Se os consumidores deixassem de comprar o produto X, acabávamos com o financiamento de determinada indústria. Se o país X deixasse de importar bens do país Y, esse país deixaria de ter dinheiro para financiar uma guerra e, no limite, tudo acabaria bem.
Era uma espécie de matemática moral. Fazíamos uma escolha, produzia-se uma consequência e chegávamos ao resultado certo.
A revolta e a utopia da adolescência foram caindo à medida que fui vivendo e percebendo que, afinal, há muitos tons de cinzento. Que entre as nossas escolhas e as suas consequências existe um mundo de interesses económicos, políticos e financeiros que nem sempre conhecemos e que raramente conseguimos controlar.
Continuo a acreditar na justiça e na solidariedade como bases de uma sociedade. Acreditamos todos, certo? E continuo a acreditar no poder dos cidadãos. Eu vi o que fizemos por Timor. Sei que a mobilização coletiva pode fazer a diferença.
Onde começa, então, a coerência? E onde acaba?
Acredito que as pessoas são muito do que fazem. Mas o que faz Netanyahu não é o mesmo que faz um cidadão israelita que compra frutas e legumes e tenta sobreviver à espuma dos dias. Não tenho nada contra esse cidadão. Tal como não considero que um cidadão russo seja responsável, só por ser russo, pelas decisões de Putin.
Então, quem responsabilizamos? Os cidadãos ou os políticos?
Podemos e devemos fazer escolhas conscientes. O boicote pode ser uma forma de pressão, o consumo pode ser uma ferramenta política e a mobilização dos cidadãos pode mudar realidades. Mas também corremos para sobreviver. Trabalhamos, pagamos contas, levamos os filhos à escola e compramos, muitas vezes, aquilo que podemos e que faz sentido para a nossa vida.
Não sei quem financia o carro que conduzo. Não conheço todos os acionistas ou investidores das empresas onde compro. Se defendo o fim do genocídio em Gaza? SIM. Todavia, se compro um produto num supermercado cujo financiador apoia uma das partes do conflito, passo, por inerência, a ser também sua apoiante?
Parece-me demasiado simples.
Talvez estejamos a transformar uma questão complexa numa espécie de julgamento permanente da coerência individual. Ou estás de um lado, ou estás do outro. Ou estás connosco, ou estás contra nós.
Mas um problema complexo não tem uma solução simples. Nunca teve.
Acredito no poder do cidadão, mas não acredito que devamos carregar sozinhos o peso de decisões que não tomámos. Podemos responsabilizar-nos pelas nossas escolhas, mas quem tem o poder de decidir deve carregar uma responsabilidade proporcional ao poder que exerce.
A Inês de 15 anos queria um mundo preto e branco.
Hoje sei que há muitos tons de cinzento.
Isso não significa que tudo seja relativo, nem que todas as posições tenham o mesmo valor. Significa apenas que, entre o certo e o errado, entre o culpado e o inocente, entre o “nós” e o “eles”, existe uma realidade muito mais difícil de explicar.
E talvez seja precisamente essa realidade que devíamos ter coragem de discutir.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.