Há pessoas com quem falamos todos os dias. Sabemos como estão, o que as preocupa, o que desejam e até conseguimos perceber, pelo tom de voz, quando alguma coisa não está bem.
Mas existe alguém com quem passamos absolutamente todos os dias da nossa vida e a quem, curiosamente, podemos passar semanas sem fazer uma única pergunta: nós próprios.
Vivemos rodeados de estímulos. Acordamos e, muitas vezes, antes de percebermos como estamos, já olhámos para o telemóvel. Entramos na sucessão de tarefas, mensagens, compromissos, trabalho e responsabilidades e chegamos ao final do dia com a sensação de termos pensado em muitas coisas — sem termos verdadeiramente pensado sobre nós.
Talvez por isso me interesse tanto uma prática aparentemente tão simples: escrever.
Nos últimos anos popularizou-se a palavra journaling. Apesar do nome moderno, a ideia está longe de ser nova. Na sua essência, significa reservar intencionalmente algum tempo para colocar por escrito pensamentos, emoções, experiências, perguntas ou reflexões.
Não é necessário escrever bem. Não é preciso ter um diário bonito. E, sobretudo, não é necessário saber previamente o que queremos dizer. Por vezes, escrevemos precisamente para descobrir.
Quando o pensamento ganha forma
Há uma diferença interessante entre pensar sobre um problema e escrever sobre ele.
Na nossa cabeça, os pensamentos podem surgir de forma rápida, repetitiva e desorganizada. Uma preocupação leva a outra, antecipamos cenários, regressamos ao mesmo assunto e, por vezes, temos a sensação de estar a pensar muito quando, na realidade, estamos apenas a percorrer repetidamente o mesmo circuito mental.
A escrita obriga-nos a abrandar.
Para transformar uma experiência em palavras, precisamos de lhe dar alguma estrutura. Nomeamos aquilo que sentimos, organizamos acontecimentos, identificamos relações entre pensamentos e emoções e podemos ganhar distância em relação ao que estamos a viver.
É como retirar, por alguns instantes, aquilo que está dentro de nós e colocá-lo à nossa frente.
A investigação sobre escrita expressiva, iniciada há várias décadas, tem encontrado benefícios em diferentes contextos, particularmente quando as pessoas escrevem sobre experiências emocionalmente significativas. Os resultados não são iguais para todas as pessoas nem em todas as circunstâncias, mas existem evidências de efeitos positivos em algumas dimensões do bem-estar psicológico e emocional.
O papel não resolve o problema. Mas pode ajudar-nos a compreendê-lo.
Conhecermo-nos exige observarmo-nos
Talvez um dos aspetos que mais valorizo no journaling seja precisamente o autoconhecimento. É muito difícil mudar aquilo que não conseguimos reconhecer. Quando escrevemos regularmente, começamos a encontrar padrões.
“O que me está a retirar energia?”
“Porque reagi desta forma?”
“O que tenho vindo a adiar?”
“Em que momentos me sinto verdadeiramente bem?”
“O que estou a tolerar há demasiado tempo?”
“O que preciso neste momento?”
São perguntas aparentemente simples. Mas quantas vezes paramos realmente para lhes responder?
Ao longo do tempo, a escrita pode transformar-se numa espécie de mapa pessoal. Começamos a reconhecer situações que se repetem, relações que nos nutrem ou desgastam, decisões que adiamos, necessidades que ignoramos e até a diferença entre aquilo que dizemos ser importante e aquilo a que efetivamente dedicamos o nosso tempo.
E esta consciência interessa-me particularmente quando falamos de longevidade. Porque conhecer as recomendações para uma vida saudável é relativamente fácil. O mais difícil é perceber porque não conseguimos aplicá-las à nossa própria vida.
Podemos saber que precisamos de dormir mais e continuar a deitar-nos tarde. Saber que precisamos de diminuir o ritmo e continuar a preencher todos os espaços da agenda. Saber que determinada relação nos desgasta e continuar a não estabelecer limites. Saber que precisamos de cuidar de nós e continuar a colocar-nos no último lugar. Entre aquilo que sabemos e aquilo que fazemos existe frequentemente uma história que precisa de ser compreendida. E talvez escrever nos ajude a encontrá-la.
Não se trata de pensar sempre mais
Há, contudo, uma distinção importante. Autorreflexão não significa ruminação. Refletir ajuda-nos a compreender uma experiência e, idealmente, permite-nos avançar. Ruminar mantém-nos presos repetidamente ao mesmo pensamento, muitas vezes sem produzir uma nova compreensão ou solução.
Por isso, journaling não precisa de ser um interminável inventário daquilo que corre mal. Pode incluir gratidão. Conquistas. Decisões. Dúvidas. Coisas que queremos deixar para trás. Momentos que queremos recordar. Ou simplesmente uma pergunta à qual ainda não sabemos responder. E não existe uma única forma correta de o fazer.
Cinco minutos podem ser suficientes
Talvez uma das razões pelas quais algumas pessoas nunca experimentam esta prática seja imaginarem que exige meia hora de silêncio, uma vela acesa e páginas e páginas de reflexões profundas. Não precisa. Podemos começar com cinco minutos. Um caderno. Uma caneta. E três perguntas:
Como estou verdadeiramente hoje?
O que está a ocupar mais espaço dentro de mim?
Do que preciso neste momento?
E escrever sem preocupação com a forma, a gramática ou aquilo que alguém pensaria se lesse. Porque ninguém precisa de ler. Talvez seja precisamente essa liberdade que torna a escrita tão interessante: durante alguns minutos, não precisamos de explicar, justificar ou corresponder às expectativas de ninguém. Podemos simplesmente ser honestos.
Uma pausa para nos reconhecermos
Falamos muito sobre autocuidado. Associamo-lo a descanso, exercício físico, alimentação, férias ou momentos de prazer. Mas talvez exista uma forma de autocuidado anterior a todas essas: reconhecer aquilo de que precisamos.
Não podemos cuidar verdadeiramente de alguém que não conhecemos. E isso também se aplica a nós.
Numa vida em que passamos tanto tempo a responder ao exterior, reservar alguns minutos para escrever pode ser uma forma muito simples de regressar ao interior. Não para encontrar todas as respostas. Mas para começar a fazer melhores perguntas.
Se a longevidade se constrói todos os dias, talvez hoje valha a pena fazer uma delas: quando foi a última vez que parou verdadeiramente para se ouvir?
Talvez não precise de encontrar imediatamente uma resposta.
Talvez precise apenas de uma folha em branco, uma caneta e alguns minutos de honestidade consigo próprio.
Deixo-lhe o desafio para, hoje, responder apenas a esta questão: O que é que a minha vida me está a pedir neste momento que eu continuo a não ouvir?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.