Odeio amar futebol. Neste Mundial, ainda mais do que o normal. Parece dramático, porque é. Que irritante. Com tudo o que sabemos, eu juro que queria ligar menos ao Mundial, mas há sempre uma magia negra que me (nos) puxa.
Amo o futebol enquanto jogo, odeio o futebol enquanto tudo o que o rodeia. E lembro-me de adorar sempre os mundiais e acompanhá-los com grande entusiasmo até ao do Catar, que já me enraiveceu para lá do razoável, sendo que o deste parece ser quase tão mau, na parte a que aos EUA diz respeito. Há quatro anos, milhares de mortes na construção dos estádios, trabalho escravo, um monte de direitos humanos postos fora de jogo sem sequer passarem no VAR. Neste ano, estamos todos a par do maravilhoso espetáculo fascista em curso nos EUA, com deportações, violência e corrupção, e onde parece que toda a gente nas instituições do governo joga a extremo-direito.
Mas depois há o jogo em si. Impossível não ficar feliz com Cabo Verde, e o seu novo herói, o guarda-redes Vozinha. Cabo-verdianos por todo o mundo a festejar e dançar porque conseguiram arrancar um histórico empate contra a Espanha. Mas, para nos voltarmos a irritar, logo ficamos a saber que a mãe do Vozinha não pôde ir ver o seu filho ser herói ao vivo, porque não conseguiu VISA devido à xenofobia vigente nos EUA. Quem diz a mãe dele, diz os familiares dos jogadores de várias seleções, que não podem ir ver os jogos ao vivo por questões burocráticas ou de dinheiro, visto que os preços dos bilhetes para alguns jogos parecem os preços de arrendar casa em Portugal.
É muito difícil ignorar o oceano de estrume que é a junção da FIFA com a administração Trump, como se fosse a Super Bowl, o Mundial e os Jogos Olímpicos, tudo junto mesmo, da corrupção e do fascismo em curso. É impossível ignorar o capitalismo em esteroides nesta competição, e o seu processo de elitização através do preço dos bilhetes e tudo o mais. Mas, ao mesmo tempo, por todo o mundo o povo continua a mostrar que o futebol é seu, e que a alegria do jogo num mundial vai muito para lá daquilo que se passa em campo, por mais sujo que a cúpula corrupta o tente tornar.
Vou continuar a odiar amar o futebol, mas ainda não é desta que me fazem desistir dele, porque o futebol somos nós.
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