Mistral, a startup francesa que desenvolveu o LLM europeu Le Chat, veio, recentemente, propor que as empresas que disponibilizam no espaço europeu LLM paguem uma taxa, cuja receita seria centralizada num único fundo gerido ao nível da Comissão Europeia e utilizada para financiar a indústria criativa.
A preocupação principal da Mistral é a concorrência desleal dos modelos americanos e chineses. No treino desses modelos, as empresas utilizam toda a informação disponível na internet, com pouco ou nenhum respeito pelos direitos de autor. Eventualmente, perante processos judiciais, vão sendo celebrados acordos de utilização de conteúdos, seja música, revistas e jornais ou livros. Mas tais acordos são residuais no universo da indústria dos média e criativa e ainda se encontra por conceptualizar uma forma efetiva de compensação dos criadores
Os LLM são como a pesca de arrasto, que destrói o fundo do oceano ao remover algas marinhas, pulverizar corais, dizimar espécies, provocando graves danos nos habitats.
As plataformas (Facebook, Insta, TikTok) transformaram a forma como consumimos os conteúdos. Sabemos tudo e não conhecemos nada em profundidade. Somos não uma geração, mas uma população do “já ouvi falar disso”.
Os slots de atenção e foco reduziram-se ao ponto de séries entre 50 e 100 episódios (vertical microdramas), onde cada um tem entre um e três minutos, se terem tornado um fenómeno. Séries especialmente concebidas para serem consumidas no telemóvel e que, em 2025, só nos EUA, geraram uma receita de 11 mil milhões de dólares.
Com os LLM o fenómeno intensifica-se. Para qualquer questão, uma resposta única. Estamos dispensados de visitar sites e localizar a informação entre as várias sugestões do Google. O canibalismo é perfeito. A internet alimenta-se de si própria.
À medida que os modelos de LLM se tornam mais capazes − já não estão ao nível de um estagiário, mas de um especialista capaz de elaborar documentos complexos –, cresce o sentimento de que o arrastão não vai limitar-se às indústrias criativas. 2026 é o ano da “Agentic AI”, ou seja, LLM capazes de concluir tarefas complexas de forma autónoma, usando ferramentas externas. Um ChatGPT que toma decisões em tempo real e opera no mundo externo, realizando um objetivo que lhe foi atribuído. Não se limita a analisar alternativas de um equipamento de que a sua empresa necessita. É também capaz de ponderar a melhor opção custo/funcionalidade, negociar preços e prazos de entrega, contratar e organizar a entrega e a instalação.
Naturalmente, nas sondagens, a percentagem dos que temem perder o seu trabalho tem vindo a aumentar. Entre 40% e 50% dos inquiridos, a nível mundial, sentem-se ameaçados. A Anthropic divulgou uma análise da utilização do seu modelo Claude, identificando a percentagem de utilização efetiva por atividade profissional. A utilização ainda é relativamente baixa, mas o potencial para utilização ultrapassa 80% por tipo de atividade intelectual, ou seja, os trabalhos mais bem pagos de quem tem estudos superiores. A Anthropic identifica como os trabalhos não expostos: cozinheiros, mecânicos de motocicletas, salva-vidas, empregados de bar, lava-pratos, apoio a provadores de roupa. A revolução IA no mundo do trabalho está em curso e, de acordo com um estudo da Universidade de Stanford, já se reflete nos mais jovens. Uma quebra de 16% de ofertas nos empregos de primeiro nível. Se temos um estagiário com um doutoramento no computador, precisamos de menos um humano. O futuro não é para daqui a dez anos, é hoje. Não podemos continuar a adiar a discussão. Não será o rebentar da bolha do mercado acionista das big tech que fará desaparecer os LLM, nem será o “rendimento universal garantido” (um imposto a pagar pelas empresas de tecnologia) que permitirá per se manter a estrutura social. A discussão não é apenas do regime fiscal, mas como manter um mercado laboral saudável, por exemplo, via uma semana de trabalho de quatro dias. Para que não se repita o período de desigualdade extrema da revolução industrial, impõe-se uma discussão pública de como regular o “arrastão” que é a Inteligência Artificial no mundo do trabalho.
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