Dia 7
Estranhos dias estes, em que ir ao supermercado é como entrar numa selva com animais selvagens. Sempre aquela sensação de desconforto, sempre a olhar por cima do ombro e a medir distâncias, sempre com pejo em tocar nalguma coisa ou em pegar em objetos. Mas o que mais aflige é ler o medo alheio. A angústia cresce quando vimos o medo nos olhos dos outros. Era Alexandre O’Neill que dizia “Penso no que o medo vai ter / e tenho medo / que é justamente / o que o medo quer”.
Mas estou a desconversar. Não é disto que quero falar hoje neste COVIDiário. Voltemos então aos corredores semi-desertos de prateleiras semi-vazias de um supermercado, só para dar o contexto. Há agora três tipos de pessoas nos espaços públicos: os ultra-protegidos, os desprotegidos angustiados e os negligentes despreocupados.
Lá estão os primeiros, sobretudo jovens, com os seus bonés de pala, cobertos com máscaras e luvas descartáveis, extra-zelosos na cobertura da pele e na desinfeção. São alvo ora de alguma troça, ora de inveja alheia.
O segundo grupo é o dos irresponsáveis como eu, que sigo sem qualquer proteção (não tenho nem uma máscara para amostra em casa, sempre esgotadas onde as tentei comprar) e apenas munida de um gel desinfetante que um bom amigo me arranjou, que uso freneticamente a cada dois minutos.
E depois, há o terceiro grupo. Gente que passeia levemente por ali, como se todos os outros estivessem loucos. Pegam em tudo nas calmas, empurram carrinhos à confiança, aproximam-se dos outros, levam as mãos à cabeça quando falam, coçam o nariz. Não estão, claro, para essa modernice da etiqueta respiratória. Sentem-se num filme mau, olham à volta com ar de pasmo pelo que consideram ser uma histeria coletiva. O que têm em comum? A idade e os cabelos brancos.
O maior grupo de risco do COVID-19 é também o mais despreocupado. Uma amiga contava-me que a mãe, com quase 80 anos e asmática e alto grau, tem andado por Lisboa feita turista, a delirar com as imagens de uma cidade vazia. Todas as manhãs vai até às Portas do Sol. Foi até ao rio e à Graça, de autocarro e elétrico 28. “A cidade está linda”, repetia ao telefone à filha, que enlouquece com a insustentável leveza. Outro amigo tenta a todo o custo encher a cozinha da mãe com comida para que não tenha de sair de casa, porque sempre comeu fora. Tenta, mas nem sempre consegue. São anos de hábitos tão socalcados como as rugas que trazem nos rostos – não se mudam assim de um dia para o outro. Que fazer?
Não é só por cá. Na China, os mais velhos foram os mais difíceis de convencer a recolherem-se. Em Itália, viam-se velhos a jogar às cartas nas praças, em Espanha as esplanadas cheias deles. Perante a ameaça do inimigo, encolhem os ombros. Deve ser assim quando a ideia da morte não anda longe. A idade é um posto de onde se olha um vírus com desdém. Não faz sentido nenhum, todos sabemos. Mas eu tenho, confesso, uma pontinha de inveja…