Dia 3
A pergunta chegou à hora do almoço e fez-nos, a todos, engolir a seco. “Se isto é uma guerra, quem está a ganhar? Nós ou o coronÓvirus?”. Ops. Para ganhar tempo corrigi-lhe o nome do bicho e iniciei uma tentativa de explicação, disfarçando o evidente embaraço. Mas via nos olhos penetrantes da minha filha de seis anos uma absoluta descrença. A coisa colocada em forma de pergunta binária fica bastante reveladora: por enquanto, ganha o Covid-19.
Escrevo, há anos, uma rubrica na minha página de Facebook que se chama “Conversas Improváveis com a Prole”. Alimento-a sempre que me consigo com diálogos inesperados com os miúdos. Muitas destas conversas, mais do que divertir, inquietam e dão que pensar. Os putos olham para o mundo sem preconceitos, e veem por isso muito além do que nós, moldados pelas convenções e suposta sabedoria adquirida, não vislumbramos nem questionamos.
Para as crianças, esta é uma daquelas experiências formadoras, oxalá a maior que esta geração passará nas suas vidas (voltarei ao tema um dia destes). Estes primeiros dias de quarentena voluntária com quatro crianças em casa têm sido passados a ensaiar explicar o inexplicável. No meu caso, a fazer uma triste figura perante uma criança pequena, que pensa que os pais têm a resposta para tudo e são uma espécie de super-heróis capazes de os defender de qualquer coisa. Mas as crianças são os melhores psicanalistas do mundo: por mais que os tentemos enrolar, leem-nos como ninguém. E o que veem agora são adultos apavorados, enfiados em casa, encolhidos perante um inimigo que não é visível e que mal sabemos explicar como nos apareceu pela frente.
Passaram-se três meses desde que a pandemia começou na China. E o pandemónio é global. 180 mil pessoas contaminadas, 7100 mortes, crescimentos aterradores dos contágios que, ultrapassadas as dezenas de casos, começam a ser exponenciais e muito difíceis de conter. Itália tem já 33 mil casos (numa semana escalou de menos de 10 mil para aqui), e se o isolamento total não for levado a sério pode, em pouco tempo, chegar aos 80 mil da China. Espanha, também em isolamento total, iniciou a escalada imparável e está quase nos 10 mil contágios. França acaba de decretar a mesma medida, e Portugal não tardará a fazer o mesmo.
O impacto económico pelo mundo é demolidor e a recessão na Europa é quase certa. As bolsas despencam todos os dias sem encontrar um fundo. Os bancos centrais e Eurogrupo ensaiam medidas nunca vistas desde as grandes crises financeiras e prometem fazer “o que for preciso” para salvar-nos da ruína. Mas “o que for preciso” pode não estar ao nosso alcance. Há já setores inteiros devastados, com um trimestre inteiro que dão como perdido. Só os estúpidos estão confiantes, os inteligentes estão cheios de dúvidas. O que vem aí, e quanto tempo dura, ninguém sabe.
Desculpa, filha. Gostava de ter outra resposta para te dar. Mas se isto é uma guerra, por enquanto ganha o inimigo.