Há cheiros que nunca se desaprendem. O da terra quente quando o sol já vai alto. O do tomate acabado de colher da horta. O da lenha que ainda aquece o forno onde o pão coze devagar. O da erva acabada de cortar. Há sons também. O cantar insistente das cigarras nas tardes de agosto. O sino da igreja que marca as horas, mesmo quando ninguém olha para o relógio. O motor que puxa a água do poço que anuncia mais um dia de trabalho no campo.
Quem cresceu no interior sabe que as férias nunca significaram deixar de fazer coisas. Pelo contrário. Era o tempo em que o trabalho se misturava com a liberdade. De manhã ajudava-se a apanhar a batata, a regar a horta ou a alimentar os animais. Não porque alguém obrigasse, mas porque aquela era a forma natural de viver. O campo nunca conheceu horários de escritório. Conhecia o nascer do sol, o calor que apertava ao meio-dia e a urgência de aproveitar o fresco da tarde para acabar o que faltava.
E, quando o calor já parecia não caber dentro do corpo, havia sempre um tanque.
Não uma piscina de hotel, nem um parque aquático. Um tanque daqueles construídos para guardar água de rega, onde entrávamos sem cerimónias, de pés descalços, enquanto o cimento aquecido pelo sol nos queimava as plantas dos pés antes do mergulho. A água nunca estava cristalina como nos anúncios de turismo. Estava fresca. E isso bastava para nos fazer sentir que tínhamos encontrado o melhor lugar do mundo.
As mãos ficavam ásperas da terra. Os joelhos traziam marcas das quedas. A pele ganhava o bronzeado de quem passava os dias ao ar livre e não o de quem contava horas de espreguiçadeira.
Foi assim que muitos de nós aprendemos o que era o verão.
Talvez seja por isso que me custa ver o interior transformado apenas num destino de férias. Porque eu não o conheci como cenário. Conheci-o como casa.
Agosto tem um poder curioso. Durante umas semanas, o País parece finalmente lembrar-se de que existe um Portugal para lá da linha do mar.
As estradas enchem-se de carros com destino às aldeias. As casas voltam a abrir janelas que passaram meses fechadas. As mesas estendem-se para mais um lugar, porque chegou quem vive longe, mas nunca deixou verdadeiramente de pertencer ali.
As redes sociais enchem-se de fotografias de rios, serras e aldeias. Descobrimos praias fluviais escondidas, restaurantes “típicos” e recantos que parecem ter parado no tempo.
Mas o problema nunca foi agosto. O problema começa quando setembro chega. Quando as malas regressam à cidade e o interior volta a ser apenas o espaço entre dois destinos.
Porque o interior não é um lugar bonito apenas durante quinze dias por ano. É um território onde há pessoas que continuam a acordar cedo para trabalhar a terra, onde as hortas continuam a alimentar famílias, onde os vizinhos continuam a deixar a porta entreaberta porque ainda confiam uns nos outros, onde o relógio continua a obedecer mais às estações do que às agendas.
E, no entanto, continuamos a desenhar políticas públicas como se estes territórios fossem uma exceção e não uma parte essencial do País.
Gostamos muito do interior enquanto paisagem. Gostamos menos dele enquanto prioridade.
Passamos o ano inteiro à procura da tranquilidade que ele nunca perdeu. Procuramos autenticidade, proximidade, natureza e silêncio. Depois regressamos às cidades e continuamos a aceitar que os serviços públicos desapareçam destes territórios, que os jovens tenham de partir para trabalhar, que envelhecer no interior signifique, demasiadas vezes, viver mais longe de tudo.
Talvez esteja na hora de fazer uma pergunta diferente: se o interior é suficientemente bom para passarmos nele os melhores dias do ano, porque continua a não ser suficientemente bom para receber os melhores investimentos do País?
O país que fotografamos em agosto é exatamente o mesmo que esquecemos em outubro.
E talvez a forma como tratamos o interior quando termina o verão diga muito mais sobre o país que somos do que todas as fotografias bonitas que publicamos durante as férias.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.