O descalabro verificado na classificação digital dos exames nacionais não deve conduzir a uma conclusão precipitada: a de que a tecnologia falhou e, por isso, devemos regressar ao papel, à tesoura, ao picotado e ao transporte físico das provas como se o passado fosse, por definição, um porto seguro.
Não culpem a tecnologia.
Culpem, isso sim, um sistema que aparentemente não foi concebido, testado, validado e supervisionado com o rigor exigível a uma infraestrutura crítica da Educação.
Um exame nacional não é um simples documento digitalizado. É um instrumento que pode determinar a conclusão do ensino secundário, o acesso ao ensino superior, a entrada num curso, a obtenção de uma bolsa, a escolha de uma profissão e, em muitos casos, o rumo de uma vida inteira. Por isso, o seu tratamento não pode depender de uma cadeia tecnológica frágil, incapaz de garantir, sem margem para dúvidas, que todas as páginas foram digitalizadas, que todos os exercícios pertencem ao mesmo aluno, que a sequência está correta e que nenhuma resposta se perdeu pelo caminho.
No modelo tradicional, a identificação do aluno era separada da prova, mas permanecia ligada a ela através de um número de série. As folhas constituíam um conjunto físico coerente. Não se desmembravam respostas como se fossem peças independentes de uma linha de montagem. O sistema podia ser mais lento, mais pesado e menos eficiente, mas possuía uma qualidade essencial: era compreensível, verificável e relativamente robusto.
A modernização deveria ter preservado essa robustez e acrescentado novas garantias. Em vez disso, surgem relatos de classificações suspensas, códigos negativos confundidos com notas, exercícios trocados, páginas em falta, alunos impedidos de consultar as provas e classificações que parecem não corresponder ao desempenho habitual de estudantes considerados bons ou muito bons.
Há mesmo casos em que a prova aparentemente não é localizável. E aqui já não estamos perante uma mera falha informática. Estamos perante a impossibilidade de um aluno exercer o direito de consultar o exame, verificar a correção e pedir reapreciação. Como pode a administração publicar uma classificação se não consegue apresentar, em tempo útil, o documento que a fundamenta?
O caso noticiado de um atleta paralímpico cego, classificado com 9,3 valores no exame de Português, é particularmente inquietante. A poucas décimas de uma nota que poderia ser decisiva para o acesso ao ensino superior, o aluno não consegue consultar a prova porque ninguém sabe onde ela está. Não pode confirmar se todas as respostas foram consideradas. Não pode verificar se houve erro na soma das cotações. Não pode fundamentar uma reapreciação. E, enquanto espera, os prazos avançam, a segunda fase aproxima-se e a preparação para uma competição europeia fica condicionada.
Isto não é inclusão. Não é acessibilidade. Não é justiça administrativa.
É a demonstração de que um sistema pode ser tecnologicamente moderno e, ao mesmo tempo, organizacionalmente rudimentar.
A tecnologia não perde exames. Os sistemas mal concebidos é que os tornam irrecuperáveis.
Uma arquitetura adequada teria impedido que qualquer prova avançasse para correção sem passar por múltiplas validações automáticas e humanas. Cada folha deveria possuir um identificador único e redundante: código QR, código de barras e código alfanumérico legível. O sistema deveria confirmar automaticamente a presença de todas as páginas, a ordem correta, a qualidade da digitalização e a correspondência entre as respostas e o respetivo exame.
Se uma página estivesse cortada, desfocada, invertida ou em falta, a prova teria de ficar imediatamente em quarentena técnica. Não seguiria para o professor. Não receberia classificação. Não seria publicada. Seria novamente digitalizada, verificada manualmente e apenas depois libertada.
É aqui que a Inteligência Artificial poderia ajudar verdadeiramente.
Não para substituir o professor. Não para decidir se um texto é criativo, se uma argumentação é sólida ou se um raciocínio merece determinada classificação. Mas para executar tarefas de controlo de qualidade que uma máquina pode realizar de forma rápida, repetitiva e consistente: detetar páginas em falta, imagens ilegíveis, duplicações, trocas de folhas, incoerências de sequência, códigos incorretos e anomalias na associação dos exercícios.
A IA poderia ainda verificar se todas as questões foram corrigidas, se a soma das cotações corresponde à nota final e se existem padrões atípicos que justifiquem uma validação adicional. A decisão pedagógica continuaria a ser humana. A fiscalização do processo seria tecnologicamente reforçada.
Também se deveria discutir uma evolução progressiva do modelo de exame. Questões de escolha múltipla, verdadeiro ou falso, associação e respostas objetivas poderiam ser corrigidas automaticamente. Composições, demonstrações matemáticas, respostas de desenvolvimento, traduções, ensaios filosóficos e outras tarefas que exigem interpretação continuariam a ser avaliadas por professores.
Mas não é necessário obrigar todos os alunos a fazer exames em computadores. Um modelo híbrido seria mais realista e socialmente mais justo: o aluno continuaria a responder em papel; a prova seria digitalizada; um sistema inteligente verificaria a sua integridade; as componentes objetivas seriam automatizadas; e as respostas abertas seriam corrigidas por docentes.
Assim, modernizava-se o processo sem impor, de imediato, a aquisição de milhares de computadores, a requalificação completa das redes escolares e a criação de salas tecnológicas com níveis de segurança difíceis de garantir em todo o território.
Há ainda outro problema: quem paga a crise?
Os alunos e as famílias podem ver-se obrigados a suportar pedidos de consulta e reapreciação, deslocações, preparação adicional e inscrição em exames da segunda fase apenas por precaução. Muitos terão de estudar novamente conteúdos que talvez já tivessem demonstrado dominar, não porque reprovaram academicamente, mas porque deixaram de confiar na classificação recebida.
Isto são custos da não qualidade.
Custos que não aparecem no orçamento da plataforma, mas que recaem sobre os alunos, os professores, as escolas e as famílias. Horas de ansiedade. Dias de preparação. Pedidos administrativos. Professores sobrecarregados. Secretarias pressionadas. Candidaturas adiadas. Projetos de vida suspensos.
Quando apenas algumas centenas de alunos se candidatam ao ensino superior no primeiro dia, comparativamente com muitos milhares no ano anterior, não estamos necessariamente perante falta de interesse. Estamos perante falta de confiança.
E a confiança é o principal ativo de qualquer sistema de avaliação.
A solução não passa por demonizar a digitalização. Passa por exigir responsabilidades, auditoria independente, transparência pública e uma reforma técnica profunda. O Governo deve explicar quantas provas foram afetadas, que tipos de erro ocorreram, quais foram as causas, quem validou o sistema, que testes foram realizados, que mecanismos de contingência existiam e por que razão falharam.
Os alunos com provas suspensas, incompletas ou inacessíveis não podem ser prejudicados pelos prazos. As reapreciações associadas a falhas imputáveis ao sistema devem ser gratuitas. A segunda fase não pode transformar-se numa obrigação defensiva para quem apenas procura proteger-se de um erro administrativo. E sempre que a integridade de uma prova não possa ser demonstrada, o princípio da proteção do aluno deve prevalecer.
Não culpem a tecnologia.
A tecnologia é uma ferramenta. Pode amplificar a competência ou amplificar a desorganização. Pode tornar um sistema mais seguro ou revelar, com brutalidade, que ele nunca foi devidamente pensado.
O que falhou não foi a ideia de modernizar os exames nacionais. O que falhou foi a ausência de uma verdadeira abordagem de Engenharia de Sistemas: identificação redundante, validação cruzada, tolerância a falhas, rastreabilidade integral, auditoria, recuperação e controlo de qualidade.
Portugal não precisa de menos tecnologia.
Precisa de melhor Engenharia, maior responsabilidade e mais respeito pelos alunos.
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