A coisa começa sempre da mesma maneira: uma pessoa entra numa tabacaria para comprar o jornal, uma raspadinha, um maço de pastilhas ou as recargas e consumíveis dos cigarros a vapor — os vapes, que agora estão mais na moda do que os cigarros —, apenas para disfarçar a ansiedade nacional, e acaba a perguntar, com a voz trémula e sumida de quem procura um antibiótico em tempo de guerra: “Desculpe, ainda tem cromos do Mundial?” Do outro lado do balcão, o funcionário faz aquela cara de padre cansado de ouvir pecados repetidos e responde: “Chegaram ontem. Mas já acabaram.” E assim percebemos que Portugal entrou definitivamente, e com destaque, na caderneta de cromos do Mundial. Não pelo hino, não pela bandeira à janela, não pelas conferências de imprensa de Roberto Martínez sobre energias, processos e outras palavras que fazem lembrar uma reunião de dinâmicas motivacionais ou uma sessão de espiritualidade holística. Entrámos no Mundial como adultos com cartão de crédito, hérnias discais e responsabilidades fiscais, mas voltámos a correr não atrás da bola, mas atrás de saquetas da Panini como se estivéssemos no recreio da escola, em 1986, a tentar trocar cinco coreanos repetidos por um Maradona.
A caderneta do Mundial é o último lugar onde um homem adulto e mesmo de cinquenta ou mais anos ainda pode dizer “tenho repetidos” sem ser imediatamente encaminhado para terapia. Nos escritórios, já não se fala apenas de aumentos, layoffs, reuniões no Zoom e do colega que põe sempre “responder a todos” em assuntos que não interessam a ninguém. Fala-se do cromo do Ronaldo, do Messi, do Lamine Yamal, dos especiais, dos dourados, dos paralelos, dos que valem dinheiro no OLX e dos que, na verdade, só valem a maravilhosa ilusão de que ainda somos capazes de completar alguma coisa na vida. A caderneta é isto: uma utopia de papel autocolante. A promessa de que, com paciência, vício e algum endividamento familiar e às escondidas da mulher, o mundo pode ficar arrumado em quadradinhos ou melhor, em retangulinhos autocolantes. País por país. Jogador por jogador. Sorriso plastificado por sorriso plastificado. Tudo no seu lugar. Exatamente o contrário da seleção portuguesa logo na primeira vez que entrou em campo neste Mundial 2026.
Ontem, frente ao Congo, Portugal parecia claramente uma caderneta mal colada. Tínhamos cromos de luxo, três jogadores campeões europeus pelo PSG, nomes reluzentes, miúdos caros, médios que no clube parecem maestros de uma orquestra de Viena e que na seleção se transformam em empregados de mesa a perguntar: “É para cruzar para o senhor Cristiano?” João Neves marcou cedo, ao sexto minuto, e por momentos ainda acreditámos que Roberto Martínez tinha descoberto a numerologia, a cabala, o sudoku tático e talvez até o segredo de Houston. Mas depois veio o costume: muita posse, pouco perigo, muito passe para o lado, muito cruzamento para a área e aquela estranha sensação nacional que consiste em olhar para Cristiano Ronaldo como se ele ainda fosse, simultaneamente, avançado-centro, milagreiro, eletrodoméstico de serviço permanente e santo padroeiro dos golos.
O problema é que o tempo, esse árbitro cruel que nunca consulta o VAR, também joga. E ontem jogou contra nós. Cristiano Ronaldo entrou no seu sexto Mundial com o tal “Patch Legado” na manga da camisola nacional, distinção simpática para quem atravessou várias eras do futebol, mas acabou por parecer menos um jogador com insígnia histórica e mais uma peça de museu com alarme silencioso. A imprensa internacional não teve piedade. Chamaram-lhe sombra, caricatura, estátua. E, sejamos honestos, a imagem pegou porque tinha pernas, ao contrário da exibição. Ronaldo, que durante vinte anos foi o cromo — ou um dos cromos, para sermos justos com Messi e com outros grandes jogadores, como Modric — mais cobiçado da coleção, aquele que ninguém trocava nem por cinco guarda-redes da Arábia Saudita e dois laterais da Coreia, ontem pareceu outro tipo de cromo: daqueles que ficam colados à página errada, com bolhas de ar por baixo, e depois já não há unha, paciência ou saliva que resolva.
Não se trata de apagar Cristiano. Só um ingrato, um amnésico ou um comentador demasiado excitado com a própria coragem faria isso. Mas a verdade é que quase ninguém tem coragem de o fazer ou de o dizer. Ronaldo foi uma das grandes figuras da história do futebol, o português que transformou o complexo de inferioridade nacional em abdominais bem definidos, pernas abertas, respiração profunda e concentração, o miúdo da Madeira que nos ensinou que a ambição também podia falar português, mesmo quando parecia, às vezes, um anúncio de champô motivacional. Mas uma coisa é a estátua no Funchal, onde ele pode ficar parado quanto quiser, de bronze, mármore ou ego solidificado, a olhar para o Atlântico ou para a cidade, com a eternidade a bater-lhe nos ombros. Outra coisa é uma seleção num Mundial, a precisar de mobilidade, pressão, diagonais, ruturas e alguém que não transforme cada jogada numa romaria até à capelinha do camisola 7.
Fora do campo, o cromo de Cristiano pode valer centenas, milhares, talvez mais, dependendo da loucura do comprador, da raridade da edição e da falta de juízo coletiva. Dentro do campo, ontem, o cromo não descolava. Francisco Conceição entrou e trouxe vida, nervo, desequilíbrio, aquela eletricidade de quem que fazer história para existir. Fez o que pôde, ofereceu bolas, agitou a ala direita, tentou tirar Portugal do modo “passe para o lado e fé em Deus”. Mas a bola chegava à zona de Ronaldo e parecia entrar na fila do aeroporto para verificação dos passaportes: espera longa, atendimento lento, resultado incerto.
Enquanto isso, o Congo fez aquilo que muitas vezes as equipas teoricamente menores fazem aos países que entram em campo com currículo em vez de futebol: correu, sofreu, acreditou, empatou e foi embora com um ponto histórico e uma gargalhada íntima. Yoane Wissa marcou antes do intervalo e mostrou que a caderneta também tem cromos que ninguém conhece no primeiro dia e toda a gente procura no segundo como o Vozinha de Cabo Verde. Portugal, pelo contrário, saiu com ar de quem comprou uma caixa inteira de saquetas e só encontrou repetidos: posse repetida, lentidão repetida, cruzamentos repetidos, desculpas repetidas, Ronaldo repetido.
A febre Panini ajuda-nos a perceber o País. Somos capazes de atravessar Lisboa à procura de sete cromos por 1,50 euros, mas continuamos incapazes de trocar uma ideia velha por uma nova. Na caderneta, quando sai repetido, troca-se. Na seleção, quando a fórmula sai repetida, insiste-se. A Panini, na sua última edição com um Mundial da FIFA — vai ser trocada por outra editora que provavelmente pagará mais —, tem ensinado mais sobre gestão desportiva do que muitas conferências de imprensa e declarações nas flash interviews de Martínez: se continuamos a abrir saquetas e sai sempre o mesmo cromo, talvez o problema não seja a sorte. Talvez seja a coleção. Talvez seja a fábrica. Talvez seja o senhor que baralhou aquilo.
Claro que tudo isto pode mudar no próximo jogo. Ronaldo, se jogar — porém, ele joga sempre e nunca sai —, pode marcar dois golos ao Uzbequistão, apontar para o céu, dar aquele salto, mostrar o nome e o número nas costas, mandar calar meio mundo e voltar a transformar a crítica num exercício perigoso, como quem dá festinhas a um leão convencido de que ele já está reformado. O futebol tem essa capacidade irritante de humilhar os cronistas à terça-feira e ressuscitar estátuas ao sábado. Mas a questão já não é apenas se Ronaldo ainda consegue marcar. A questão é se Portugal consegue jogar sem organizar a vida inteira à volta dessa possibilidade. Uma seleção não pode ser uma caderneta sentimental onde se guarda um cromo por gratidão, mesmo quando a cola já secou.
No fundo, os cromos do Mundial e Cristiano Ronaldo contam a mesma história: a nossa dificuldade em largar a infância, o passado, a glória, o vício, o objecto raro, o herói que já foi tudo e agora ainda queremos que seja tudo e o melhor do mundo, outra vez. Continuamos a comprar saquetas porque talvez venha o cromo que falta. Continuamos a olhar para Ronaldo porque talvez venha o golo que nos salva. Mas ontem, em Houston, saiu-nos um repetido. E dos caros. Um daqueles que ninguém tem coragem de trocar só porque um dia valeu uma fortuna.
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