Nos últimos meses, a energia voltou ao centro da agenda europeia, não como um tema técnico, mas como um fator crítico de competitividade económica.
Os números são claros e difíceis de ignorar. Em 2024, o preço da eletricidade industrial na União Europeia atingiu cerca de 0,199 €/kWh, mais do dobro do praticado nos Estados Unidos e significativamente acima da China. No gás natural, a diferença é ainda mais expressiva. Para muitas empresas, sobretudo nos setores industriais, logísticos e intensivos em energia, a energia deixou de ser um custo operacional previsível para passar a ser uma variável estratégica e, em muitos casos, um verdadeiro fator de risco.
Mas o verdadeiro problema não é apenas o nível de preços. É a volatilidade. É a dependência externa. É a falta de controlo.
Num contexto em que o gás natural liquefeito (LNG) substituiu grande parte do fornecimento russo e os mercados energéticos permanecem expostos a tensões geopolíticas, o planeamento energético de médio e a longo prazo tornou-se um exercício de incerteza. E quando a energia pode representar mais de 10% dos custos operacionais, e significativamente superiores em indústrias electro intensivas, essa incerteza traduz-se diretamente em perda de competitividade, adiamento de investimento e fragilização das margens.
Portugal não é exceção. Apesar de um sistema elétrico cada vez mais renovável, o País continua fortemente dependente de importações energéticas, sobretudo de petróleo e gás. Essa dependência externa significa que, mesmo com uma produção elétrica mais limpa, continuamos expostos a choques de preços, disrupções logísticas e a dinâmicas globais fora do nosso controlo.
Nos últimos meses, essa vulnerabilidade voltou a estar em evidência. A possibilidade de novas medidas excecionais por parte do Governo, desde a limitação temporária de preços até à redução de impostos, mostra que o sistema procura respostas. Mas também revela uma realidade incómoda: estas medidas são, por definição, reativas, temporárias e fora do controlo das empresas.
E é aqui que surge a questão central.
Empresas que querem controlo não podem esperar por políticas.
A regulação é essencial. Define direção, cria enquadramentos e estabelece incentivos. Mas raramente resolve o problema imediato de quem precisa de garantir custos previsíveis, proteger margens e tomar decisões de investimento com confiança.
A resposta está, cada vez mais, dentro das próprias empresas.
Investir em eficiência energética, produzir localmente a energia que se consome, integrar soluções de armazenamento, estruturar contratos de fornecimento mais estáveis e utilizar ferramentas digitais para monitorizar e otimizar consumos, estas deixaram de ser opções técnicas. Passaram a ser decisões estratégicas de gestão.
No fundo, trata-se de uma mudança de paradigma.
A energia deixa de ser um custo imposto pelo mercado e passa a ser um ativo que pode e deve ser gerido. Empresas que dão este passo não eliminam completamente a exposição ao mercado, mas reduzem-na de forma significativa. Ganham previsibilidade. Ganham resiliência. E, acima de tudo, ganham capacidade de decisão.
Num contexto europeu em transformação, onde a transição energética avança, mas a diferentes velocidades, esperar por soluções externas é um risco crescente.
O recente agravamento das tensões entre os Estados Unidos e o Irão voltou a expor a fragilidade dos mercados energéticos globais. O estreito de Ormuz continua a ser um ponto critico, por onde passa cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo e uma parte significativa de LNG. Mesmo tréguas temporárias têm efeitos imediatos na volatilidade dos preços, demonstrando como eventos geopolíticos distantes se refletem rapidamente nos custos energéticos das empresas europeias.
As empresas que vão liderar nos próximos anos não serão necessariamente as que têm acesso à energia mais barata. Serão as que têm maior controlo sobre ela.
Porque, no fim, competitividade não é apenas uma questão de preço. É uma questão de estratégia.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.