A capacidade de promover transformação social beneficia, de forma crescente, da articulação entre as políticas públicas e as iniciativas de filantropia. Este alinhamento revela-se particularmente relevante, uma vez que a definição de prioridades e a evolução dos programas sociais acompanham as dinâmicas próprias de qualquer sistema democrático.
O estudo “Continuidade e Mudança nas Políticas Públicas em Portugal”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, revela que a alternância partidária é o principal motor de mudança. Torna-se, assim, ainda mais pertinente reforçar abordagens que promovam a continuidade e a colaboração, garantindo que as intervenções sociais não ficam reféns de ciclos políticos e se desenvolvem de forma consistente e sustentada.
É aqui que a Filantropia pode assumir um papel relevante. O relatório “2025 Democracy Briefer for Funders”, da Philanthropy Europe Association (Philea), destaca que esta pode fortalecer a democracia ao promover o diálogo interpartidário, o jornalismo independente e a verificação de factos, contribuindo para um ambiente mais informado e participativo. Ao reforçar estas dimensões, a Filantropia complementa as políticas públicas e cria um ambiente mais estável, informado e participativo, essencial para a continuidade das políticas sociais. Além disso, tende a apresentar maior tolerância ao risco do que os agentes de política pública, sobretudo no financiamento de iniciativas piloto. Quando olhamos para o enquadramento português, um exemplo claro é o investimento de empresas e fundações em projetos do “Portugal Inovação Social” desde 2014, com resultados comprovados e reconhecimento internacional. No entanto, apesar disso, ao fim de 12 anos nenhum foi ainda integrado em política pública.
Esta incapacidade demonstra que há ainda um espaço por preencher no âmbito da articulação da sociedade civil com os decisores públicos, pois todo o investimento corre o risco de se perder se este trabalho em conjunto não passar a ser uma realidade. É este trabalho em rede entre sociedade civil – academia, economia social e empresas – e poder público que importa promover, de forma a aumentar a eficiência, a escala destes projetos e a criação de valor para um número cada vez maior de beneficiários.
Existe, de facto, ainda um longo caminho a percorrer no que toca à filantropia estratégica – esta que desempenha um papel importante no que diz respeito à promoção de mudanças sistémicas na sociedade. No nosso país, este conceito encontra-se em desenvolvimento, com práticas que, em muitos casos, permanecem concentradas em respostas pontuais ou em áreas específicas de intervenção. Este contexto abre espaço para o fortalecimento de abordagens mais integradas, capazes de potenciar sinergias e ampliar resultados.
Apesar de tudo, Portugal apresenta condições favoráveis para o esforço conjunto necessário. Dados recentes, como os do “Global Philanthropy Environment Index 2025”, da Indiana University Indianapolis, indicam que Portugal oferece um enquadramento globalmente positivo para a atividade filantrópica. O País tem também sido reconhecido como um caso relevante no panorama europeu da inovação social, com iniciativas como a “Portugal Inovação Social” a contribuírem para a criação de instrumentos públicos que estimulam soluções inovadoras e sustentáveis. Mas, existem, de facto, oportunidades de melhoria em áreas como os incentivos fiscais, a circulação de recursos e a consolidação de práticas mais estruturadas. Neste âmbito, o reforço da transparência, da medição de impacto e da partilha de conhecimento pode contribuir para decisões mais informadas e para o fortalecimento do setor.
Responder a estes desafios implica, necessariamente, reforçar a articulação entre os diferentes atores do ecossistema. Neste sentido, e na minha opinião, a cooperação entre setor público, privado e sociedade civil revela-se um fator determinante. As empresas oferecem recursos e competências, enquanto as organizações da sociedade civil asseguram a proximidade às comunidades e a compreensão das suas necessidades. Quando estes contributos se articulam de forma coordenada com as políticas públicas, criam-se condições para intervenções mais consistentes e duradouras.
O potencial da filantropia em Portugal – que deverá ser cada vez mais de continuidade, em vez de emergência – pode ser reforçado através de uma abordagem estratégica, colaborativa e orientada para o longo prazo. Ao promover o alinhamento entre diferentes atores e ao valorizar a complementaridade de esforços, é possível contribuir para uma sociedade mais inclusiva, coesa e inovadora, onde o impacto social se constrói de forma sustentada e partilhada.
Importa agora traduzir esta ambição em prática: reforçar mecanismos de colaboração entre setores, criar condições mais favoráveis à mobilização de recursos e investir de forma consistente na medição de impacto e na transparência. Só assim será possível consolidar um ecossistema filantrópico mais robusto, capaz de responder de forma eficaz aos desafios sociais do país. Seremos nós capazes disso?
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