Num Médio Oriente permanentemente à beira do abismo, a escalada recente de tensões relembra-nos uma verdade desconfortável: os conflitos na região nunca são apenas locais. São reflexo de regimes autoritários, de rivalidades históricas, mas também e, cada vez mais, das decisões erráticas tomadas em Washington. E, no centro dessa instabilidade ampliada, está a figura de Donald Trump.
O regime de Teerão merece crítica firme e inequívoca. A repressão interna, a perseguição de opositores, a instrumentalização de milícias regionais e a aposta sistemática na desestabilização dos seus vizinhos são elementos bem documentados de uma estratégia que pouco tem de defensiva. O Irão não é apenas um ator regional, é um regime que, pela sua própria natureza, alimenta o conflito como forma de sobrevivência política.
Mas seria um erro e uma perigosa simplificação, olhar para o atual estado do Médio Oriente sem reconhecer o papel decisivo da política externa norte-americana, particularmente durante a presidência de Donald Trump. Ao abandonar unilateralmente o acordo nuclear com o Irão, um instrumento imperfeito, mas funcional de contenção, Trump não apenas isolou os Estados Unidos dos seus aliados tradicionais, como abriu espaço para uma escalada que hoje se faz sentir em múltiplos tabuleiros.
A incoerência foi a marca da sua abordagem. Ora ameaçando guerra total, ora insinuando negociações improvisadas, Trump substituiu a previsibilidade estratégica por impulsos pessoais e cálculos de curto prazo. A diplomacia tornou-se espetáculo, a política externa, um prolongamento do ego. E o mundo, inevitavelmente, está a pagar essa fatura.
As consequências são visíveis, maior instabilidade no Golfo, reforço de posições radicais dentro do Irão, enfraquecimento de mecanismos multilaterais e uma erosão profunda da confiança internacional. Quando a maior potência mundial age de forma errática, o efeito dominó não tarda. Países ajustam-se, alianças fragilizam-se, conflitos latentes reacendem-se.
Mais preocupante ainda é a normalização desta imprevisibilidade. O que deveria ter sido encarado como um desvio perigoso passou, em certos círculos, a ser tolerado como uma “nova forma de fazer política”. Não é. É irresponsabilidade elevada à escala global.
Perante este cenário, a posição da Europa torna-se crucial, no entanto, continua a ser marcada por uma hesitação crónica. Entre a dependência estratégica dos Estados Unidos e a dificuldade em afirmar uma política externa verdadeiramente autónoma, a União Europeia arrisca-se a permanecer numa posição de subserviência que já não corresponde à realidade do século XXI.
A Europa não pode continuar a alinhar automaticamente com decisões que contrariam os seus próprios interesses e valores. A defesa do multilateralismo, da diplomacia e da estabilidade internacional exige mais do que declarações, exige coragem política e capacidade de ação independente.
Criticar Teerão é necessário. Mas ignorar o papel desestabilizador de líderes como Trump é fechar os olhos à complexidade do problema e, pior, contribuir para a sua perpetuação. O mundo não pode continuar refém dos devaneios de um único indivíduo, por mais poderoso que seja o cargo que ocupa.
Se há uma lição a retirar deste momento, é clara – a ordem internacional não pode depender da volatilidade de lideranças individuais. E a Europa, se quiser ser mais do que um espectador, terá de finalmente assumir o seu papel, não como seguidora, mas como protagonista.
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