A normalização dos jogos de apostas e dos casinos online tem avançado a um ritmo silencioso, mas profundamente transformador. Em poucos anos, o que antes estava circunscrito a espaços físicos específicos passou a integrar o quotidiano digital, acessível a qualquer hora através de um telemóvel. Esta mudança não é apenas tecnológica, é cultural, social e, inevitavelmente, política. E merece um debate público mais exigente do que aquele que tem ocorrido.
A indústria das apostas apresenta-se como entretenimento inofensivo, frequentemente associado ao desporto, à emoção da competição e à possibilidade, sempre sugerida, mas raramente concretizada, de ganhos rápidos. Contudo, por trás desta narrativa promocional existe uma realidade bem documentada, uma parte dos utilizadores desenvolve comportamentos de jogo problemático, com consequências sérias ao nível da saúde mental, das relações familiares e da estabilidade financeira. O vício do jogo é reconhecido clinicamente e partilha mecanismos psicológicos com outras dependências comportamentais, baseadas na recompensa imediata, na repetição compulsiva e na dificuldade de controlo.
O que distingue o momento atual não é apenas a existência do jogo, mas a sua disponibilidade permanente e a intensidade com que é promovido. A publicidade a plataformas de apostas tornou-se omnipresente nos meios audiovisuais, sobretudo durante transmissões desportivas. Anúncios sucessivos, patrocínios de equipas, comentários integrados na própria narrativa televisiva, tudo contribui para diluir a perceção de risco e reforçar a ideia de normalidade. Para os mais jovens, que crescem neste ambiente mediático, apostar surge não como exceção, mas como extensão natural do consumo de desporto e entretenimento.
Esta realidade contrasta de forma evidente com o percurso regulatório seguido noutras áreas de risco para a saúde pública, o tabaco é o exemplo mais claro. Após décadas de evidência científica e pressão social, a publicidade ao tabaco foi progressivamente banida da televisão, rádio e grande parte do espaço público. A lógica subjacente era simples – produtos que causam dependência e danos significativos não devem ser promovidos de forma agressiva, sobretudo junto de públicos vulneráveis. Hoje, essa decisão é amplamente aceite como uma vitória das políticas de saúde pública.
Perante isto, torna-se legítimo questionar por que motivo as apostas online continuam a beneficiar de uma exposição mediática tão intensa. Embora não impliquem os mesmos efeitos fisiológicos do tabaco, os seus impactos sociais e psicológicos podem ser devastadores para uma minoria significativa de utilizadores. Endividamento, ansiedade, depressão ou rutura familiar, são consequências reais e, muitas vezes, invisíveis até atingirem níveis extremos.
Importa sublinhar que o debate não deve reduzir-se a uma dicotomia simplista entre proibição e liberalização. As apostas existem, geram receita fiscal e fazem parte das escolhas individuais em sociedades livres. A questão central é outra, que grau de proteção coletiva estamos dispostos a garantir quando uma atividade comercial envolve risco comprovado de dependência? Limitar horários de publicidade, restringir mensagens dirigidas a menores, proibir associações enganosas entre sucesso desportivo e ganho financeiro, reforçar mecanismos de autoexclusão e investir seriamente em apoio a jogadores problemáticos seriam passos razoáveis, equilibrados e coerentes com princípios já aplicados noutras áreas.
Há também uma dimensão ética que não pode ser ignorada. Quando o espaço mediático é saturado por mensagens de aposta fácil, o silêncio sobre as perdas torna-se estrutural. O lucro de poucos sustenta-se, inevitavelmente, na perda acumulada de muitos. Esta assimetria, ainda que legal, levanta interrogações sobre o papel do Estado, dos reguladores e dos próprios meios de comunicação social na proteção do interesse público.
Talvez o paralelismo com o tabaco não seja perfeito, mas é suficientemente esclarecedor. Em ambos os casos, a sociedade foi confrontada com atividades lucrativas, socialmente enraizadas e portadoras de risco. No passado, escolheu-se limitar a promoção do tabaco em nome da saúde coletiva. Hoje, perante a expansão das apostas digitais, a hesitação regulatória sugere que ainda não interiorizamos plenamente os custos sociais desta nova forma de dependência.
Discutir publicidade ao jogo não é moralismo, é política pública. E adiar esse debate significa aceitar, por omissão, que a normalização do risco continue a avançar mais depressa do que a capacidade de o compreender.
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